Fabiana Beltrame fala sobre início no remo, título mundial, depressão e resiliência

Fabiana Beltrame fala sobre início no remo, título mundial, depressão e resiliência

Fabiana Beltrame participa da série Porta AbertaFoto: Rodrigo Polidoro/ND Mais

Manezinha Fabiana Beltrame, com o brilho no olhar cativante de quem conta uma história com amor, abriu as portas da sua casa em Jurerê Internacional para contar a história de uma atleta que se confunde com o esporte remo. Fabiana hoje é coordenadora da Confederação Brasileira de Remo na modalidade indoor, em que o aparelho fica fora e longe d’água.

Única atleta da modalidade no Brasil a conquistar o título de campeã mundial, a medalha foi em 2011, Fabiana é uma verdadeira lenda do esporte e se mantém ativa nas lembranças e no presente. Mãe de dois filhos, Alice, de 16, e Davi, de 7, ela encontrou o amor também no remo, o ex-atleta Gibran Cunha. De porta aberta, em uma sala cheia de troféus e incontáveis medalhas, ela contou sua história.

De que forma começa a sua carreira no remo? Já conhecia?

Conheci o remo porque eu andava muito de bicicleta na Beira-Mar e via o pessoal treinando, mas não tinha muita ideia do que era. Conhecia uma menina que remava, a Priscila, que estudava na mesma escola e sempre falava bem do esporte. Quando vi o pessoal remando na Beira-Mar me deu um estalo, eu e uma amiga que também gostava de esporte, para a gente experimentar. Foi amor à primeira remada.

Primeiro a gente ficou no tanque aprendendo a técnica e tal, mas o gosto mesmo, a paixão veio quando a gente foi para água. Foi uma sensação indescritível deslizar na água, de conseguir fazer o barco andar.

Com que idade você então caiu na água?

Comecei aos 15 anos no Martinelli em 1997. Aqui remei só no Martinelli, que é o meu clube até hoje, tenho os meus amigos ali. De vez em quando tem confraternização e a gente aparece, meu marido também começou ali, então a gente é como uma família.

Qual foi o momento que você percebeu que o remo seria a sua vida?

Teve esse momento bem nítido para mim, foi no primeiro Campeonato Brasileiro que competi em 1999 aqui mesmo em Florianópolis. Vencemos duas provas e aquela sensação de subir no pódio contra clubes grandes como o Botafogo, Flamengo. A partir daquele momento decidi que queria ser atleta e queria alçar voos maiores, como competir pela seleção, queria crescer mesmo dentro do esporte.

Fabiana hoje pratica o remo indoorFoto: Rodrigo Polidoro/ND MaisFabiana hoje pratica o remo indoorFoto: Rodrigo Polidoro/ND Mais

Em quem você se inspirava no início da carreira?

Quando comecei tinham poucas meninas, uma que me inspirava era a Luciana Bernieri, que remava no Martinelli também e já havia sido campeã brasileira e disputado mundial, ela era minha ídola na época, me espelhava muito nela. A gente remava mesmo porque gostava, nunca foi pela questão financeira, era uma paixão mesmo pelo remo e por competir também, que era o mais legal.

O começo foi meio meteórico, tinhas algum diferencial?

Eu fazia o meu, né? Fazia o meu treinamento, eu gostava muito de treinar, sempre fui muito caxias. Fiquei muitos anos no remo e vi muita gente com talento, com força, com técnica que não foi para frente porque não tinha disciplina. Sem treinamento duro mesmo, pesado, a gente não consegue chegar a lugar nenhum. Um treino que a gente falte, eu sempre pensava isso, é um segundo a menos atrás do adversário que eu posso chegar.

Eu tinha apoio dos meus pais, mas no início foi um ‘pouco assim’, né? Quando comecei a vencer os campeonatos eles me apoiavam, mas minha mãe ficava com pena de mim, porque eu saía 4h30 da manhã de casa para pegar carona com o Du (Eduardo Seara, técnico) para ir treinar de madrugada antes da escola. Hoje quando eu olho para trás penso “Nossa, fiz muita coisa que eu não faria hoje”, por exemplo.

Mas é como você tá focado no objetivo, você nem pensa nas dificuldades assim, você vai e, mesmo chovendo canivete ou no calor de rachar do Rio, ia treinar de qualquer jeito.

Você treinou no Martinelli e depois foi para o Rio de Janeiro. Como foi a proposta para sair?

Aqui no clube aqui deram alguns problemas, vários atletas saíram, inclusive o técnico. E aí o Gibran, que é o meu meu marido atualmente, e ele remava lá no Vasco. Ele fez o meio de campo pra gente ir, fui eu e outros, na época os clubes contratavam como se fosse futebol.

Mas antes disso eu competi uma Olimpíada pelo Martinelli, em Atenas 2004. Tenho orgulho também de ter dado essa visibilidade do remo para o Martinelli. Fui a primeira brasileira competindo nos jogos pelo remo.

E qual foi a emoção de chegar à Olimpíada, de entrar na água?

É muito surreal porque passa um filme na cabeça. Imagina, quando comecei não imaginava ser atleta e muito menos ir para uma Olimpíada. Lá estava ao lado das melhores do mundo, olhava pro lado tinha Ekaterina Karsten e outras atletas top de linha, era um sonho realizado.

Depois eu estive em Pequim (2008) e Londres (2012), no Rio participei só como comentarista. Não me classifiquei, houve uma mudança na classificação e não consegui a vaga.

Das três Olimpíadas que você participou qual foi a melhor?

Todas as três foram únicas assim, são experiências bem diferentes, mas a primeira tem um um sabor especial porque é tudo novo, a Vila Olímpica, a convivência com os atletas de outras modalidades, diferente de um de um campeonato mundial, por exemplo, que você só só convive com o pessoal do remo. Lá via pessoas de todos os esportes, via os ídolos e internacionais, realmente a primeira a gente não esquece.

No Rio de Janeiro é que você e o Gibran Cunha, também ex-remador, formaram família?

A gente já se conhecia daqui, ele começou a remar no Martinelli também. A gente começou a ser convocado para seleção juntos e aí começou uma amizade. Só que aí foi passando o tempo, surgiu essa oportunidade de ir para o Rio mesmo morar em 2005. E ele fez uma forcinha, já estava interessado, né?

A partir daquele momento a gente começou a namorar e vai fazer 21 anos esse ano que a gente está junto.

Ter um companheiro também do remo ajudou?

Nossa, sem dúvida, ainda mais que ele estava já quando eu estava no meu auge em 2010, 2011, e ele já estava mais no final da carreira. Engravidei em 2009, a gente teve Alice, nossa primeira filha, e no início fiquei um pouco preocupada em como iria dar conta, mas ele bateu no peito e falou: “Não, vou te ajudar”. Eu ia viajar para as primeiras competições e ele ficava com ela, pequenininha, e depois nas outras competições ele ia comigo e levava ela.

Foi uma parceria que deu certo, sabe? Tenho certeza que sem ele eu não teria conseguido também alcançar tudo que alcancei. As minhas principais conquistas foram depois que fui mãe e com total apoio dele.

A manezinha Fabiana Beltrame, primeira brasileira campeã mundial de remo, nos preparativos no Clube Náutico Martinelli.Foto: ND Mais/ArquivoA manezinha Fabiana Beltrame, primeira brasileira campeã mundial de remo, nos preparativos no Clube Náutico Martinelli.Foto: ND Mais/Arquivo

Até hoje nenhum homem ou mulher repetiu o seu feito de ser campeã mundial pelo Brasil. A sua expectativa era essa na época?

Não, não acreditava. Sabia que poderia ir bem, mas eu estava competindo contra meninas muito rápidas, ali tinha uma uma bicampeã mundial, que era a suíça, tinha a menina que era recordista no sub-23, que era a inglesa. Sabia que eu poderia fazer uma medalha, quem sabe, mas vencer realmente eu não imaginava. Foi uma surpresa muito, muito boa.

Você se lembra da prova?

É engraçado, lembro nitidamente, assim, desde o momento que eu entrei na água para aquecer, que passa aquele filme na cabeça também de todos os treinos, cada gota de suor, cada bolha na mão, todos os problemas que tem. Lá eu tive alguns problemas também, que o meu remo só foi chegar na véspera da competição.

Acho que eu estava no meu dia, estava muito concentrada, quase que uma meditação, eu larguei já decidida e desde o início da prova coloquei na frente das adversárias, mas no momento ali achava que a qualquer momento elas poderiam me passar. Quando cruzou a linha a sensação arrepia até hoje, aquele misto de cansaço com aquela alegria de ter vencido.

A carreira de atleta profissional é cheia de desafios, mas teve algum momento que os apoios foram bons?

Depois que consegui a minha primeira medalha na Copa do Mundo, em 2010, um pouco antes do Mundial de 2011, consegui um pouco mais de apoio. Mas deveria ser ao contrário, o atleta tem que ter o apoio para chegar e não só depois que chega. Depois que você tem visibilidade é que as marcas querem te dar o apoio.

Teve um período que fui bem felizarda na época do Vasco, do Flamengo, que eu conseguia financeiramente me virar bem, principalmente no Flamengo que a presidente era Patrícia Amorim. Cada medalha que eu ganhava ela melhorava meu salário.

E qual foi o melhor clube para você?

Financeiramente foi o Flamengo, mas o Vasco hoje é meu time do coração ainda. Voltei depois para o Vasco para me aposentar. Tenho um carinho muito grande até hoje.

Em prova de exibição, Beltrame foi para o lugar mais alto do pódio em 2003Foto: Divulgação/NDEm prova de exibição, Beltrame foi para o lugar mais alto do pódio em 2003Foto: Divulgação/ND

E como foi tomar a decisão de parar de remar?

Ali por 2014, mais ou menos, eu já estava decidida que pararia em 2016. A vida de atleta não vou dizer que é sofrida, uma coisa que escolhi eu adorava fazer, mas é cansativa não só fisicamente, mas mentalmente também. Porque tem a pressão externa, tem a pressão interna e a minha era muito grande. Sempre fui muito exigente e não gostava de perder. A idade já começava a pesar também, então 2016 foi o prazo final e fui me preparando psicologicamente e financeiramente também para conseguir me virar.

Mesmo assim, quando parei em 2016 foi um baque muito grande. Tive um momento de depressão também porque era a vida toda regrada, com objetivos, treinos todos os dias, e de repente parei tudo e fiquei meio perdida. Tive que fazer muita terapia para me recuperar porque achava que estava preparada, mas não estava. Aos pouquinhos fui me botando outros objetivos na vida para conseguir lidar com isso.

Imagina que tudo isso tenha servido também de aprendizado, não?

Por exemplo, uma pessoa normal, entre aspas, se aposenta já mais velha, mas o atleta se aposenta muito cedo, ainda tem a vida inteira pela frente. O conselho que  dou para os atletas hoje, quando tenho uma oportunidade, é de se preparar psicologicamente, conversar mesmo com alguém para ver se realmente está preparado. Acho que fiz da maneira errada, parei muito abruptamente. O meu marido já foi parando aos poucos, ele competia no alto nível, campeonato mundial e tal, depois  parou, ficou competindo só brasileiro, treinando cada vez menos

E eu não, estava ali no rabo do foguete e de repente parei tudo. Do campeonato mundial e depois sem objetivo nenhum mais. É errando que se aprende e no final deu tudo certo.

No primeiro mês é uma maravilha, férias e tal, não vou fazer mais nada da vida. Mas não é assim que funciona, né? Depois o corpo começa a pedir também. Até hoje remo porque realmente é a minha terapia, mesmo não treinando em alto rendimento, mas para minha saúde, não só física ou mental também.

Hoje você é coordenadora de remo indoor da Confederação Brasileira, essa modalidade apareceu como?

Quando eu era atleta não gostava de remo indoor, era é a máquina da tortura que a gente fazia todas as avaliações. Na pandemia parou tudo, tive um box de crossfit, e o meu ex-técnico Júlio tinha uma máquina parada e me emprestou. Fazia tempo que eu não remava fora no crossfit e comecei a remar, emagreci um monte.

Com esse meu ex-técnico a gente teve a ideia de começar um canal no YouTube para ensinar as pessoas a remar, porque a gente via nos boxes de crossfit o pessoal não sabia remar, e naturalmente a gente abriu uma empresa e criamos o programa Remo Fitness, que é um programa online para ensinar as pessoas a remar, não só atletas.

Hoje a gente tem alunos no Brasil inteiro que remam e é muito gratificante também porque o pessoal vê as transformações que essa modalidade dá.

Comemoração de Fabiana e a filha no mundial de remoFoto: Rodrigo Polidoro/ND MaisComemoração de Fabiana e a filha no mundial de remoFoto: Rodrigo Polidoro/ND Mais

Hoje você rema todos os dias?

Remo de segunda a sexta, sábado e domingo dou uma folguinha. E aí faço de vez em quando crossfit com a minha filha também, mas o remo é a minha atividade principal.

E deu tempo para estudar? Como é que você levou neste período de escola?

Sou formada em educação física, tenho que ter formação para ser personal. Me formei na Udesc e logo depois fui para o Rio, em 2005. Minha faculdade durou dois anos a mais, já que tive que trancar algumas vezes por causa de viagem e seleção, mas consegui me formar.

E os filhos também foram remar, já que o pai e a mãe são do esporte?

Não (risos), queria muito que minha filha remasse pelo menos para a gente dar uma remadinha num barco juntas, quem sabe um dia. Ela está com 16 anos e agora começa aquela época de estudar muito para vestibular no ano que vem e tal, então não dá muito tempo, mas o Davi, que está com sete, ainda tenho esperança que ele queira dar uma remadinha comigo. Por enquanto ainda não, só quer saber de futebol, mas quem sabe no futuro. Ele vendo aqui os troféus, as medalhas, os vídeos da gente remando, talvez ele se interesse mais no futuro.

Qual troféu é o mais especial da tua galeria?

Gosto muito de um do Prêmio Brasil Olímpico, que eu ganhei nove vezes, prêmio que o COB dá todo ano para o melhor de cada modalidade. A medalha mais importante é do mundial. Ela não foi a mais difícil, mas com certeza foi a mais emocionante de todas.

A última etapa do Catarinense de remo teve de ser na Beira-Mar, remou muito por ali?

Várias vezes remava na Beira-Mar e aí virava o vento sul bem forte, a gente tinha que carregar o barco lá até o clube porque não conseguia passar, foram muitas vezes (risos).

O remo virou a sua vida, mas ele te deixou muitas marcas?

O remo moldou quem eu sou hoje, não tem jeito. Inclusive, a minha família toda veio do remo. Meu marido do remo, minha filha nasceu praticamente dentro de uma garagem de remo. Ela ia desde pequenininha lá no Flamengo, eu amamentava ela lá na garagem, daí ela ficava com uma com uma babá lá enquanto eu remava. Muitas vezes do meio da lagoa (Rodrigo de Freitas) ouvia ela chorando e tinha que voltar para amamentar. Acredito muito que toda a disciplina que tenho hoje, toda a dedicação veio do remo também.

Os seus filhos sabem o seu tamanho dentro do esporte?

A mais velha sabe porque ela, quando era menorzinha, pedia para eu voltar a remar. Ela gostava muito de viajar e tem muitas lembranças boas. Ela lembra até das músicas que tocavam nas regatas, ela tem muita memória dessa parte. Ela está nas principais fotos do Campeonato Mundial, mas o pequeno não tem muita noção, não. Mas a gente vai contando aos pouquinhos, né?

Inclusive, eu por conta disso escrevi um livro para deixar a minha história registrada e para os meus filhos, meus netos um dia saberem quem foi a mãe, a avó deles. Quis deixar esse legado para que eles soubessem no futuro.

Medalha de campeã mundial de remo em 2011Foto: Rodrigo Polidoro/ND MaisMedalha de campeã mundial de remo em 2011Foto: Rodrigo Polidoro/ND Mais

Você escreveu um livro, mas ficou alguma página para ser contada?

Sem dúvida, um sonho seria uma medalha olímpica, o sonho de todo atleta. Mas dentro das minhas possibilidades, acho que alcancei muito mais do que imaginava Me orgulho muito do que conquistei, mas com certeza fica aquele gostinho de quero mais assim.

Poderia ter conquistado uma medalha de ouro Pan-Americano também, onde tenho duas pratas. Na época não comemorei a medalha de prata, eu era a favorita para ganhar e não ganhei. Foi uma decepção muito grande na época, não só para mim, mas para todo mundo. Foi a primeira medalha do remo feminino no Pan-Americano e não comemorei. Faltou um pouquinho de maturidade, mas enfim, águas passadas.

Agora eu torço para os atletas da nova geração conquistarem o que eu não conquistei. Tenho muita muita fé que isso um dia possa acontecer.

Como você vê o remo brasileiro atualmente?

A gente ainda tem um pouco de dificuldade em campeonatos maiores, em barcos maiores. Agora a Confederação está trabalhando para que tenha mais barcos de conjunto, que o legal do remo também ter esses barcos de dois, de quatro, de oito, fortes para a gente ter uma uma equipe forte. Tem muitos novos talentos aparecendo, como a própria Linda (Otto, do Martinelli) e o pessoal da Confederação já elogiou ela para mim também, falou que ela tem muito potencial.

E qual era a maior rivalidade na época do Martinelli: Aldo Luz ou Riachuelo?

Era com Aldo Luiz, que tinha as melhores meninas na época que eu remava, mas tinha do Riachuelo também, que era a Priscila, que era a menina da minha escola, então os três tinham muita rivalidade. É isso que mantém o remo vivo também, essa rivalidade entre os clubes que se não existisse não teria mais regata, não teria mais a graça da competição.





Fonte ND Mais

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