Peça ‘Querida Mamãe’ aborda conflito mãe e filha – 09/06/2026 – Mise-en-scène

Peça 'Querida Mamãe' aborda conflito mãe e filha - 09/06/2026 - Mise-en-scène

Duas mulheres trancadas em um apartamento pequeno demais para comportar o tamanho de suas angústias. Na sala, caixas com roupas e discos testemunham um confronto silencioso, onde um suspiro contido ou um olhar desviado machuca mais do que um grito. É essa atmosfera de saturação emocional que dita o tom da temporada de “Querida Mamãe”, clássico teatral em cartaz no Rio de Janeiro, que se concentra na mais universal e complexa das arenas: a relação entre mãe e filha.

O texto, escrito por Maria Adelaide Amaral na década de 1990, carrega a necessidade de quem escreve com as próprias veias pulsantes. Não há espaço aqui para o clichê da maternidade sagrada e amor incondicional. A autora despiu suas personagens de qualquer romantismo para expor o afeto em sua forma mais crua: sufocante, exigente e, por vezes, punitiva.

Esse embate coloca duas gerações em rota de colisão. De um lado está a mãe, um baluarte moldado por regras rígidas e valores tradicionais, que assiste à derrocada do seu mundo idealizado. Do outro, a filha, uma mulher de meia-idade que tenta respirar fora desse sufoco doméstico, buscando retomar seus próprios desejos e assumir sua homossexualidade. Se na produção original da década de 1990 a trama batia de frente com o tabu social, hoje ela ecoa como um manifesto doloroso pelo direito à identidade e à liberdade afetiva dentro do próprio lar.

A encenação aposta no despojamento. O diretor Pedro Neschling elimina os excessos do palco e joga os refletores no que realmente importa: o trabalho de atuação. O cenário funciona como uma cápsula psicológica, com suas cortinas que sobem uma a uma enquanto a iluminação e a trilha sonora traduzem os batimentos cardíacos das personagens, oscilando entre o calor da nostalgia e a frieza do confronto presente.

Nívea Maria e Regiane Alves dividirem esse espaço é um acontecimento. Rostos familiares ao público devido a décadas de presença na televisão, elas utilizam essa empatia imediata a favor do drama. Nívea desconstrói a imagem da matriarca dócil para interpretar uma figura endurecida pelo tempo. Já Regiane usa sua maturidade cênica para dar corpo aos medos de uma mulher dividida entre o peso do passado e a urgência de construir o próprio futuro.

“Querida Mamãe” escancara tensões latentes, tateando o espaço incômodo entre o apego rígido às velhas tradições e a necessidade inevitável de ruptura. É o tipo de espetáculo que traz à superfície as nossas próprias conversas varridas para debaixo do tapete.

Três perguntas para…

… Nívea Maria

Você possui uma carreira de enorme identificação popular, construída em grande parte pela televisão. Como é a experiência de trazer esse público que já a ama no ambiente doméstico para a proximidade imediata e crua do teatro?

Com a presença do público, a minha preocupação constante é entregar a maior verdade e a maior emoção do personagem; enfim, fazer com que as pessoas entrem na história que estamos contando no palco. No teatro, isso se torna ainda mais vital porque o retorno é imediato, e a verdade precisa estar ali naquele instante. Fico muito feliz por estar encenando, neste momento, um espetáculo que fala profundamente sobre as relações humanas — no caso, entre mãe e filha —, o que o aproxima ainda mais do público e das vivências familiares. Tenho me realizado muito no teatro; a experiência nos dá uma resposta instantânea e, no final do espetáculo, percebo que as pessoas conseguem enxergar a personagem muito mais do que a atriz. Isso é o que mais importa.

Você já trabalhou com diretores de diversas escolas e gerações ao longo da sua carreira. Como tem sido o diálogo com a direção do Pedro Neschling, especialmente na busca por esse caminho mais despojado e focado na crueza da atuação?

Acho que há uma grande representatividade em resgatar um texto de imensa qualidade da Maria Adelaide Amaral — uma obra que já teve outras montagens — e fazê-lo chegar ao público de hoje com frescor e novidade. O Pedro Neschling, que é um diretor jovem, encantador e carismático, foi fundamental para me ajudar a criar essa personagem. Fico imensamente feliz em trabalhar com as gerações mais jovens. A Regiane Alves também é uma atriz intensa, de enorme talento. No fim, a gente não faz nada sozinho: o resultado vem da soma do nosso trabalho, do texto brilhante da autora, da visão do diretor e desse diálogo tão potente entre mãe e filha, feito de troca de emoções e palavras em cima do palco.

Textos que carregam uma voltagem realista e biográfica exigem um tipo diferente de entrega do ator. Você costuma buscar referências nas suas próprias vivências e memórias ou prefere o distanciamento ficcional absoluto para proteger a personagem?

Na verdade, com 62 anos de carreira, acumulei muitas experiências e parcerias com grandes diretores e atores. São justamente as memórias desses trabalhos que me dão sustentação na hora de realizar um projeto tão atual e direto com o público. O retorno tem sido extremamente positivo, tenho recebido muito carinho e me sinto muito feliz em ser uma representante da cultura no nosso país, levando às pessoas o melhor do texto, da direção e dos profissionais da arte, tanto do teatro quanto da televisão.


Teatro dos 4 | Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 28/6. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 70 (meia-entrada) em sympla.com.br



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 * 3 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.