Ele se afasta quando tem um problema. O que eu faço? – 14/01/2026 – Amor Crônico

A imagem apresenta uma ilustração com estilo artístico minimalista, dominada por tons quentes e suaves. O cenário retrata um ambiente natural, possivelmente um lago ou mar, cercado por montanhas onduladas ao fundo. O céu está pintado com tons de laranja e amarelo, sugerindo o momento do pôr do sol. Em destaque, duas figuras humanas em forma de silhuetas escuras aparecem em margens opostas de um penhasco ou plataforma de terra. Elas parecem se encarar à distância, separadas por um abismo ou corpo d’água. A figura à esquerda, aparentemente feminina, com o cabelo preso, está em uma posição mais baixa e distante do observador. Já a figura à direita, mais elevada, mantém uma postura ereta voltada para a outra. O grande sol alaranjado no canto superior esquerdo reforça a atmosfera de entardecer. A paleta de cores varia entre laranja, marrom, verde e azul-esverdeado, com uma textura que lembra papel envelhecido ou granulado, conferindo um aspecto rústico e contemplativo. A composição transmite uma sensação de distância emocional ou física entre os personagens, mesmo em meio à tranquilidade da paisagem, sugerindo uma reflexão sobre separação, solidão ou a dificuldade de conexão entre duas pessoas.

Como sustentar uma relação se todo sofrimento do outro afasta o vínculo numa tentativa de poupá-lo mas, paradoxalmente, mais fere do que protege? A pergunta da leitora vem acompanhada de um relato pessoal que revela uma dinâmica tão universal quanto corrosiva: ela está numa relação em que há amor, afeto e compatibilidade, mas em todos os momentos difíceis da vida de seu parceiro que envolvem outras instâncias —dificuldades profissionais, problemas financeiros, conflitos familiares ou episódios depressivos— ele pede um tempo.

O argumento se repete: diz não ter estabilidade emocional para sustentar a relação naquele momento, afirma não querer ser um peso, diz não se sentir suficiente e insiste que não consegue oferecer o que ela “merece”.

Tomado pela autopercepção de fracasso (no caso dele, há anos tentando passar em concursos públicos e acumulando reprovações), a proximidade com alguém que ama e admira intensifica sentimentos de inadequação, impotência e insegurança.

“Não quero ter mais problemas” ou “não dou conta de mais problemas” —de ter ou de ser problema no vínculo afetivo— aparece como desejo de autoproteção e tentativa de preservação do vínculo mas o afastamento produz um espelhamento de insuficiência: eu me afasto porque me sinto pouco; o outro se sente pouco porque foi afastado. Há aqui também uma lógica paternalista que pressupõe que o outro não aguentaria esse “peso” na vida ao invés de simplesmente compartilhar a situação e dar a oportunidade para que a outra pessoa diga o que pode e quer vivenciar.

“Expliquei que eu decido o que mereço e que, apesar de ele estar num momento nomeado como egoísta, eu ainda gostaria de tentar”, relatou a leitora, disposta a atravessar a turbulência junto com ele —sem necessariamente querer resolvê-la ou analisá-la, apenas colocando-se como um vínculo de amor que não precisa ser interditado em meio ao caos.

Ainda assim, seu parceiro titubeou e pediu tempo, espaço e afastamento pra pensar e lidar com tudo antes de lidar com ela —como se fossem âmbitos concorrentes ou excludentes. Essa é a lógica perigosa que te convido a desconstruir, o movimento onde estar junto passa a ser vivido como espelho daquilo que ele acredita não ser e como a antecipação de que o amor se tornará mais um campo de problemas, conflitos e frustrações numa vida que já conta com suas próprias guerras.

Pensando no conceito de “confusão de línguas”, de Ferenczi, aprendemos desde cedo a confundir dor com falha pois desde cedo já chamaram nossos desabafos ou desânimos de reclamação. Muitos de nós nos afastamos nos momentos de crise porque, em algum ponto da vida, fomos afastados quando deixamos de performar.

Frases como “você só traz problemas”, “ninguém tem que aguentar seu mau humor”, “isso está pesando o clima” costumam aparecer cedo demais como represálias de pais, amigos e parceiros justamente quando abandonamos a persona funcional para simplesmente sermos o que estava dando conta de ser. Desde então, aprendemos que, para sermos amados, precisamos resolver problemas e não “ser” problemas. Homens são ensinados a dar conta de tudo; mulheres, a cuidar e sustentar o outro mesmo exaustas.

Precisamos desconstruir a crença de que o amor só é bom quando “funciona”. Afinal, o que significa funcionar numa relação? Em tempos de produtivização da vida e dos afetos, aplicamos aos vínculos a mesma lógica da performance: utilidade, eficiência, entrega constante. Como se o casal fosse uma microempresa regida por KPIs emocionais, onde a permanência depende de não falhar, não pesar, não demandar.

É importante pontuar que “ter” problemas não é “ser” um problema para o outro. Tanto quem sente como quem testemunha aquele que está no momento sensível precisa entender que dividir o que dói não é pedir respostas nem salvação. Pode ser apenas um pedido de companhia, de compreensão de um momento sensível, angustiado.

Segundo a OMS, o Brasil é hoje o país mais ansioso e o quarto mais deprimido do mundo. Se esperarmos estar bem para nos relacionar, corremos o risco de morrer sozinhos, ansiosos, deprimidos e exaustos. Há algo profundamente curativo em perceber que ninguém precisa se resolver primeiro para depois amar. Somos seres relacionais. Poder não ser suficiente, brochar, falhar, estar angustiado, não performar —e ainda assim experimentar que há vínculo possível— tem um efeito psíquico transformador.

Uma relação não precisa dar conta de tudo para existir. Provavelmente o outro não espera nossa melhor versão. Talvez espere apenas presença, troca, silêncio compartilhado. Talvez espere simplesmente não ser afastado justamente quando a vida aperta. Reconhecer que o amor não precisa ser mais uma tarefa a cumprir e que o vínculo pode ser também um espaço onde não se dá conta, onde não se conserta, onde se descansa é urgente e revolucionário.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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