É correto classificar a guerra no Irã como um ataque preventivo? NÃO – 06/03/2026 – Opinião

Grupo de pessoas trabalha entre escombros de prédio parcialmente destruído. Alguns usam capacetes e máscaras, enquanto outros ajudam a remover destroços. Estrutura do edifício está severamente danificada, com paredes e concreto quebrados expostos.

A guerra no Irã é o que é: guerra. Guerra é o uso da força para conquistar poder. Poder é o objeto da política; daí a formulação de Carl von Clausewitz de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Na vitória, pela eliminação ou pela capitulação do inimigo, estabelece-se uma relação de poder absoluto para com o vencido e de elevação do poder relativo em relação a terceiros.

No direito internacional, guerra é uma hostilidade entre partes caracterizada pelo emprego de violência extrema. Na literatura, caracterizam-se dois tipos de uso da força enquadráveis na definição de guerra: o ataque preventivo (“preventive strike”) e o ataque preemptivo (“preemptive strike”). Um ataque preventivo, considerado ilegal, visa impedir o desenvolvimento da capacidade de atacar. Um ataque preemptivo responde a uma ameaça iminente, e pode ser considerado um ato de autodefesa antecipado, com possível respaldo legal do artigo 51 da Carta da ONU. Ambas as definições estão sobrepassadas pela continuidade e pela escalada bilateral da atual campanha: é guerra.

A guerra no Irã não é uma guerra ao Irã. Segue a definição de Thomas Hobbes de que “guerra é uma situação, que pode existir mesmo quando as operações não são contínuas”. É uma guerra complexa, híbrida, assimétrica e prolongada de contenção, e agora de extirpação, da ditadura clerical, da neutralização de seu complexo aparato estatal e do impedimento de emprego potencial de artefatos nucleares e de exportação de instabilidade e terrorismo regional e mundial. O Irã recebe sanções da ONU desde 2006, em especial devido ao direcionamento de seu programa nuclear para a obtenção de artefatos bélicos.

Os dois contendores principais do estágio atual da guerra com o regime iraniano são Israel e Estados Unidos. Israel engaja-se em uma guerra necessária. Um dos fundamentos do regime teocrático é a eliminação de Israel, baseado em convicções religiosas e geopolíticas de controle do Oriente Médio. Os EUA vêm impondo restrições crescentes ao Irã a partir de 1984 —o país foi declarado parte do “Eixo do Mal” em janeiro de 2002.

Os EUA buscam, numa guerra de escolha, a limitação do potencial ofensivo do regime e a dominância regional. No âmbito próximo, conta com apoio dos membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), adversários (exceto o Qatar) do regime iraniano, alvos iniciais (inclusive o Qatar, por meio do emprego de mísseis e drones) da retaliação iraniana. O interesse dos EUA é deter a China, parceira econômica, tecnológica e de infraestrutura do Irã, e, em menor grau, da Rússia, dada a proximidade territorial.

O regime instalou-se por meio de uma revolução violenta em fevereiro de 1979, que reuniu um amplo arco de forças sociais iranianas para a deposição de uma monarquia autoritária. A resultante desse processo foi a consolidação de uma teocracia absolutista, assentada no dogmatismo religioso fundamentalista e no monopólio multidimensional do uso da força por meio de aparatos militares (Forças Armadas), paramilitares (Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, ou IRGC), miliciana (Basij) e serviços policiais civis e religiosos.

Setores expressivos da sociedade iraniana têm contestado a ditadura e episódios culminantes foram sufocados com violência e mortes: os levantes estudantis de 1999, o movimento verde de 2009, os protestos contra a carestia de 2019, as manifestações de 2022 e as crises de 2025 e 2026. Minorias étnicas, tais como os curdos e os balochis, e religiosas, como os bahai e os cristãos evangélicos, são objeto continuado de repressão do regime, acusado pela inobservância de direitos humanos e individuais.

As Forças Quds do IRGC são um braço de atuação externa especializado em conflito não convencional e inteligência militar. As Forças Quds constituem estrutura central do “Eixo da Resistência”, arco operacional de países e movimentos de sustentação e de projeção de força do regime. O “Eixo da Resistência” visava encapsular Israel e controlar o Oriente Médio conforme premissas do regime iraniano.

Em seu momento culminante, em 2023, reunia frentes xiítas no Iraque, o regime da Al-Assad na Síria, o movimento Hezbollah no Líbano, o agrupamento Houthi no Iêmen e os sunitas associados à Irmandade Muçulmana da organização Hamas de Gaza, perpetradores dos bárbaros ataques a Israel de 7 de outubro de 2023, estopim da situação atual na região, que culminou na decapitação do regime nos ataques israelo-americanos de 28 de fevereiro de 2026 e a guerra aberta desde então.

TENDÊNCIAS / DEBATES

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Fonte ==> Folha SP

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