Nos mais de 80 anos desde a fundação da ONU (Organização das Nações Unidas), apenas um latino-americano foi secretário-geral, o peruano Javier Pérez de Cuéllar, de 1982 a 1991. Mas, se respeitada a tradição informal de rotação regional, o próximo líder das Nações Unidas, que será escolhido até ao final deste ano, será novamente da América Latina.
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Por essa razão, 3 dos 4 candidatos ao cargo nasceram na região. Michelle Bachelet, ex-Presidente do Chile que já foi alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, reúne o apoio do Brasil e do México. Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e secretária-geral da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), é apoiada pelo seu país. Rafael Grossi, diretor da Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica) e ex-embaixador da Argentina na Áustria, é o candidato apoiado por Buenos Aires. De fora da região, Macky Sall, antigo Presidente do Senegal, foi nomeado pelo Burundi.
O momento atual destoa da trajetória do Brasil. Ao abrir mão de lançar um candidato à ONU, o país desperdiça uma oportunidade que talvez só volte a surgir daqui a 40 ou 50 anos, se prevalecer a lógica informal de rotação por regiões.
A opção política de Lula contrasta com a capacidade que o Brasil já demonstrou, no passado, de alçar brasileiros a cargos internacionais. José Graziano liderou a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). Roberto Azevêdo foi o Diretor-Geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) durante sete anos, enquanto José Maurício Bustani comandou a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas) de1997 a 2002. Ilan Goldfajn é o presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e Rubens Ricupero foi o secretário-geral da UNCTAD de 1995 a 2004.
Sérgio Vieira de Mello (1948–2003), que exerceu funções como alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, chegou a ser cogitado para secretário-geral da organização.
Ao decidir apoiar Michelle Bachelet, Lula talvez tenha concluído que o Brasil não dispõe hoje de um nome suficientemente forte para exibir. E o país tampouco quer correr o risco de apoiar um candidato com grandes probabilidades de derrota. Essa lógica, porém, pode ser questionada.
Primeiro, porque a ONU já não é a ONU. O que hoje se busca não é um secretário-geral com estatura planetária capaz de restaurar o prestígio da instituição, mas um gestor eficaz, apto a adaptar um sebo como a ONU ao mundo contemporâneo e digital. Isso significa tornar a ONU mais enxuta, mais focada em áreas onde ainda é útil e mais eficaz na execução. É preferível um tenente bem armado a um general de mãos vazias.
Além disso, todos os candidatos atuais têm anticorpos, abrindo-se a possibilidade para soluções fora da caixa. A nomeação de Michelle Bachelet será difícil porque os Estados Unidos e a China desaprovam as suas posições sobre aborto e direitos de minorias chinesas muçulmanas. A alternativa mais óbvia seria Rebeca Grynspan, mas o seu vínculo orgânico à máquina onusiana faz dela uma candidata da preservação, não da reforma. O argentino tem um perfil sobretudo técnico, o que pode limitar sua capacidade de articulação política, além de ser homem. Já o candidato africano não conta sequer com o apoio da União Africana nem de seu próprio país.
Com as oportunidades que se abrem para um nome brasileiro, quem poderiam ser então os candidatos? Dilma Rousseff teria a seu favor o fato de ser uma mulher que hoje dirige uma organização internacional, mas chegaria ao início do mandato na ONU com 80 anos e não lhe é reconhecida uma vocação de berço para a negociação diplomática. Roberto Azevêdo, por sua vez, domina a agenda internacional, mas afastou-se da diplomacia e entregou-se ao mundo corporativo (YvY Capital e PepsiCo) depois de deixar a OMC. Ilan Goldfajn, que também tem cidadania israelense, dificilmente seria aceito pela comunidade internacional enquanto as bombas de Netanyahu caem sobre Gaza, Teerã e Beirute. André Corrêa do Lago, com pé direito alto, parece já ter batido no teto das suas ambições internacionais com a COP30.
E Marina Silva? É mulher, tem reconhecimento global e apenas 68 anos. Se permanecer no Brasil, os seus próximos dez anos arriscam ser apenas a reedição dos últimos dez: ora deputada, ora senadora, ora ministra, numa alternância estagnada ou estroboscópica. Se um dia vier a receber o Nobel da Paz, passará provavelmente a dedicar-se ao circuito internacional de conferências. Sim, prestigiante e bem remunerado, mas aborrecido. O que lhe falta é um grande cargo executivo internacional. Porém, pesaria contra a sua candidatura o fato de não dominar línguas estrangeiras. E dificilmente a administração Trump apoiaria uma ambientalista obstinada para liderar a ONU.
Não sobram muitos nomes. Talvez Lula, afinal de contas, tenha razão. E isso revela muito sobre o Brasil. Por um lado, o Itamaraty não está conseguindo gestar novos líderes globais com a mesma cadência de outrora (Azevêdo, Bustani, Ricupero). Por outro, essa escassez resulta também do fato de o próprio Lula monopolizar o cenário político nacional há mais de duas décadas. A centralidade quase totalitária da sua figura reduziu o espaço para a afirmação de sucessores com densidade própria, projeção externa e experiência de liderança autônoma. E, quando Lula saiu momentaneamente de cena e se abriu a possibilidade de vermos se havia algo por trás da cortina, o Brasil foi representado por uma extrema-direita acéfala, desprovida de estatura diplomática e de muitas outras coisas mais.
Sim, o Brasil precisa ter mais líderes decentes com projeção nacional e internacional. Independentemente do resultado da candidata chilena, o Brasil já perdeu.
Fonte ==> Folha SP