O desinteresse pelas mulheres nas investigações do caso Master – 28/05/2026 – Djamila Ribeiro

Sobre um fundo de tom mostarda, adornado por motivos florais em rosa e branco, estão duas figuras femininas em um plano médio curto, uma à frente da outra. Elas têm a pele na cor vermelha, os cabelos em tons de lilás e roxo e usam roupas em tons de azul, um claro e um escuro.

A menos de cinco meses para as eleições, os escândalos do Banco Master ainda chocam parte honesta da população brasileira. Há muita gente séria neste país que não consegue compreender —ou, ao menos, não consegue aceitar— o grau de degradação moral ao qual fomos conduzidos. Por isso, em nome da memória, sigo voltando ao assunto.

A esta altura do campeonato, tem sido muito difícil explicar para alguém de fora do Brasil como a exploração sexual de mulheres, inclusive estrangeiras, pôde permanecer incólume na mesa de negociação da delação premiada de um ex-banqueiro. E pior: com uma mídia apática, passiva, como se nada tivesse acontecido.

Há milhares de jornalistas no Brasil e, ainda assim, parece não haver profissionais dispostos a enquadrar representantes do establishment, seja na política institucional, seja no sistema de Justiça, seja no empresariado, com uma pergunta elementar:

“Como Vossa Excelência vê as notícias sobre orgias financiadas por Daniel Vorcaro com garotas de programa estrangeiras e a possível participação de autoridades públicas?”.

Um país ao avesso, organizado por estruturas como racismo e sexismo, ignora solenemente que são homens brancos que estão no entorno do banqueiro. Homens que controlam as instituições, os fluxos financeiros, os tribunais, a imprensa, os grandes escritórios, os gabinetes e os aparelhos de investigação do país.

No caso Master, as mulheres, quando não estão reservadas ao papel de “testas de ferro”, laranjas etc., são confinadas ao de garotas de programa.

Como essa equação é a síntese da sociedade brasileira, o absurdo é naturalizado. Muita gente pode ter se esquecido, mas, desde o surgimento do caso, em notas à imprensa ou em raras entrevistas, homens da política tiveram a audácia de argumentar que orgias do Master (dinheiro público) eram “assunto privado”.

Todavia, vamos pensar na “degustação” de uísque em Londres —sucedida por uma orgia no quarto presidencial do hotel Peninsula, com homens públicos ainda não identificados. Somente na prova do uísque, estavam homens que ocupam posições responsáveis por investigar, acusar, regular ou julgar os desdobramentos do próprio escândalo financeiro.

Ao que parece, a situação não desperta nenhum constrangimento institucional, alerta para conflito de interesses, crise ética, indignação editorial. Desconheço reportagem na televisão sobre o assunto; quando muito, jornais e revistas publicam uma nota aqui, outra ali, em que se limitam a exotizar a noite londrina, descreve o uísque, o hotel, os valores, os luxos. Falta apenas transformar Daniel Vorcaro em personagem glamouroso de caderno cultural.

Assim, a identificação dos homens que ficaram pelados junto ao ex-banqueiro segue sendo algo lateral, em que pesem as eleições se aproximarem e o povo brasileiro vir a ser levado a votar em um dos envolvidos sem que haja ciência pública de suas condutas.

No geral, todas as mulheres, independentemente de sua origem, serviram como mercadoria sexual para o entretenimento de homens ricos e poderosos –banqueiro e provavelmente agentes públicos, magistrados e outras figuras do poder. Isso se agrava no caso de mulheres vindas de países conflagrados, em guerra, onde ocorrem deslocamentos forçados.

Recentemente, consultei advogadas brasileiras sobre os caminhos necessários para internacionalizar o caso em Haia, na Holanda, onde funciona o Tribunal Penal Internacional. A resposta foi a de que é necessário esgotar as instâncias nacionais. Eu saí da reunião com uma convicção ainda maior de que isso acontecerá, cedo ou tarde.

Vale lembrar que a senadora Damares Alves anunciou em sua rede social ter acionado a Polícia Federal, solicitando investigação sobre possíveis crimes relacionados a estupro, rufianismo e tráfico sexual, entre outras formas de violência contra mulheres no contexto do escândalo. Mesmo formalmente provocada, a Polícia Federal até aqui não se manifestou.

Já a deputada federal Tabata Amaral, no início deste mês, apresentou notícia-crime ao Ministério Público Federal (também omisso) pedindo apuração dos episódios relacionados às mulheres envolvidas no caso.

É evidente que instituições se protegem e não investigam seus próprios homens. No máximo produzem simulacros de investigação, uma nota para a imprensa e olhe lá. E irritam-se com a nossa insistência, pois, numa sociedade patriarcal, às mulheres foi destinado o lugar do silêncio. Mulher que questiona é louca ou, como dizia Lélia Gonzalez, “criadora de caso”.

Contudo, de minha parte, e da parte das mulheres que se recusam a normalizar a violência contra mulheres, seguiremos questionando.

Aguardamos o desfecho previsível para internacionalizar as denúncias e expor os homens que envergonham a República brasileira.



Fonte ==> Folha SP

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