Escala 6×1, Bolsa Família e ‘isenção tributária’ na Folha – 30/05/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Ilustração em linhas pretas sobre fundo branco de um relógio se desconstruindo  em 3 tempos

A aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara não foi exatamente surpresa, depois de semanas de muito corte e costura institucional. Quis o destino, porém, que ela viesse na esteira da polêmica gerada pelas opiniões do apresentador Luciano Huck a respeito do Bolsa Família.

O tratamento desses dois temas guarda uma estranha semelhança e se difere daquele recebido pela votação na Câmara que aprovou um “isentaço” para entidades religiosas e pela nova ajuda ao agro no Senado.

Sobre a 6×1, tentei monitorar na Folha o que vinha a favor e contra as propostas de mudança na jornada de trabalho.

Com ajuda da IA (Claude/Anthropic) e pesquisando milhares de textos desde setembro de 2024, achamos 297 deles com avaliações a respeito da mudança na escala 6×1. Eram 61,3% mais favoráveis, 22,9% mais contrários e 15,8% neutros. Vale lembrar que a leitura guarda subjetividade, mesmo feita por máquina, e que esse resultado obviamente não é científico. Mas ele nos oferece uma pequena brecha.

Se os textos que refletiam posicionamentos mais favoráveis à mudança na 6×1 eram mais numerosos no jornal, os que traziam dados ou argumentos contrários a ela acabaram ganhando lugares VIP, como as capas do impresso, de “registro histórico”.

Em fevereiro, quando o debate esquentou, a Folha produziu duas manchetes barulhentas numa mesma semana, com”Redução da jornada pode diminuir PIB em 6,2%; centrais apontam ganhos” e “Brasileiros trabalham menos que a média mundial, aponta ranking”. Esta última desceu tão mal entre os leitores que, na época, ganhou uma coluna da ombudsman só para ela.

Mais tarde, vieram outros dados. “Apoio a fim da escala 6×1 sobe e chega a 71% dos brasileiros, diz Datafolha” e “Vagas de um a dois salários mínimos puxam 87% da alta no emprego desde 2023”. Era outra movimentação.

Curiosamente, na última terça, quando os jornais davam foto do papa para ilustrar a importância de sua encíclica sobre inteligência artificial, a Folha esnobou a imagem do pontífice para estampar na capa um protesto pelo fim da escala 6×1 na avenida Paulista, pouco antes da votação.

Depois da aprovação, voltaram os empresários: “Empresários querem adiar fim da 6×1; Alcolumbre evita compromisso”.

Já a frase de Luciano Huck sobre o Bolsa Família só não foi totalmente ignorada pela Folha porque o F5, editoria dedicada a celebridades, registrou protestos de ex-BBBs. Foi também um colunista do F5, Thiago Stivaletti, que avaliou a postura do “apresentador-empresário” e as críticas a ela. “Em evento no sábado (23), ele [Huck], que já considerou se candidatar à Presidência, reproduziu o velho pensamento da elite de que os beneficiários do Bolsa Família ‘criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad eternum’ (em outras palavras, preguiçosos que não querem trabalhar).”

A questão estava servida, mas demorou mais alguns dias para chegar, mais fria, a outros cantos do jornal (em “Estudos refutam tese de Luciano Huck sobre ‘dependência eterna’ no Bolsa Família” e “Luciano Huck não está tão errado sobre o Bolsa Família; veja vídeo”).

Talvez a Folha estivesse escaldada por já ter servido de plataforma para ideias semelhantes de outros empresários, como nos episódios do “rei do ovo” e da fake news sobre aposentadoria de beneficiários. Mas parecia indiferença demais para o tamanho da polêmica.

No Estado, o economista Pedro Fernando Nery aproveitou e soltou um “Me ajuda, Luciano“, repetindo bordão dos pedidos de caridade ao apresentador. Nery lembrava que o Bolsa Família tem passado por cortes sucessivos e que, “enquanto sociedade, nunca discutimos quanto queremos gastar” com o programa. Também informava que o benefício perdeu 30% de seu valor desde 2020. E que “o governo vem cortando o orçamento e o valor real, talvez porque concorde em algum grau com questionamentos como o feito por Luciano”. “A discussão deveria se dar de forma mais aberta”, afirmava.

Deveria mesmo. A própria Folha poderia colaborar para melhorar a qualidade do debate, mais um que permanece abaixo da linha da pobreza no país.

A vida seguiu e, sem tanta comoção, uma comissão do Senado aprovou uma renegociação de “R$ 170 bilhões a R$ 180 bilhões em dívidas de produtores rurais”. E com outra PEC, ainda mais discreta, a “Câmara barra cobrança de impostos de igrejas para construção de templos e compra de helicóptero”, informava o jornal na quarta (27). A proposta “abre brecha para impedir qualquer tributação (federal, estadual ou municipal) sobre bens, serviços e consumo, por exemplo a compra de helicópteros, veículos, alimentos, microfones ou serviços de limpeza”.

Quanto custaria isso? Ainda estamos por saber. Alguém apareceu pedindo responsabilidade fiscal ou insinuando que as comunidades religiosas estariam “encostadas” no dinheiro público? Não estava no relato.



Fonte ==> Folha SP

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