Ele reapareceu com saudades, existe uma nova chance? – 17/06/2026 – Amor Crônico

Ilustração com fundo branco mostra linha preta contínua que forma a silhueta de um casal de perfil, um de frente para o outro, com os narizes se tocando

Quem precisa de clareza quando a confusão da mensagem do outro atualiza sua presença na vida de um coração que também sente saudades? Após meses da certeza do fim, concretizada por cada dia de silêncio após a conversa em que finalmente foi possível nomear aquela névoa de afetos —sabíamos que carinho e conexão existiam, mas a falta de definições tornou a atmosfera rarefeita demais para seguir respirando dentro de algo sem forma— uma mensagem aparece.

Mensagem que transforma a mesma névoa que antes nos perdia numa espécie de sopro de esperança e romantismo. O retorno de quem partiu reconstrói o cenário com as cores da fantasia, pois o som do outro, ainda que ambíguo, ocupa o vazio deixado por ele.

Assim, o silêncio que parecia confirmação do fim vira intervalo necessário. A distância ganha contornos de elaboração. Aquilo que antes nomeávamos como falta começa, perigosamente, a ser traduzido como promessa. Reinterpretamos a indefinição e nos apaixonamos por ela. Ela, que antes machucava, começa a parecer abertura para uma nova chance.

Pode ser que seja abertura? Pode. Pessoas mudam. Circunstâncias mudam. Desejos mudam. Mas pode ser também que a reaproximação fale menos sobre um novo desejo de construção e mais sobre saudades e apego. Saudades da companhia, das conversas profundas, das noites entrelaçados. E numa dimensão talvez desconfortável de admitir, mas profundamente humana: saudades da sensação de ser amado por alguém.

Nem sempre a reaproximação é uma reaproximação de você. Pode ser uma busca —muitas vezes inconsciente— de reencontrar a versão de si mesmo que existia refletida em seu olhar e reafirmada em seus afetos.

Talvez, depois de viver a liberdade que tanto desejava, ele tenha encontrado não apenas possibilidades infinitas, mas também a solidão que existe nelas. Talvez tenha descoberto que muitas portas abertas não significam encontros profundos e revisite quem deixou pra trás numa mistura de saudade, apego e insegurança.

Acho descuidado embalarmos tudo isso apenas com a aura de um coração confuso, atrapalhado, mas bem intencionado. “De boas intenções o inferno está cheio”, repetia minha avó Glorinha, me ensinando que não há conexão que se sustente sem ações práticas e sem o cuidado de respeitar os desejos do outro.

Retomar a aproximação falando da saudade é um golpe baixo, pois você também sente tudo isso. Talvez essa pessoa ainda ocupasse o lugar especial do “eterno talvez” ou dos “amores de reticências”, como gosto de chamar. E se “de boas intenções o inferno está cheio”, de sedutoras projeções, nosso imaginário coletivo também está (podemos mandar a conta da análise pra Hollywood?)

Não sei você, mas eu amaria viver minha versão brasileira do meu filme favorito, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (tenho inclusive o pôster “você me apagaria?” em casa). São essas histórias que alimentam a romântica inveterada que ainda acredita que “love will find a way”.

Mas, entre a romântica e a propositalmente iludida e irresponsável com a própria afetividade, existe um oceano de conversas não tidas.

É preciso lembrar que a relação não acabou porque vocês não se gostavam, e, sim, porque queriam coisas diferentes. Você queria namorar e a pessoa não. Isso pode ter mudado? Pode. Mas se você não perguntar o que essa aproximação significa, não dá pra depois jogar na conta do outro a falta de responsabilidade afetiva. A confusão do outro só se sustenta quando encontra a nossa própria ambivalência.

É fácil nomear o outro como egoísta ou manipulador. É fácil cobrar uma clareza e uma coerência absolutas quando, mais uma vez, a pessoa não te assume: “Se não queria nada diferente, por que voltou?”. Porque ele gosta de você e é confortável retomar um afeto gostoso. E, o mais importante, porque talvez você tenha sustentado essa ambivalência, não por paciência com os processos emocionais dele, mas porque nela também fincou suas projeções hollywoodianas.

Se existe algo confortável na indefinição do outro, é que ela também nos protege de encontrar a nossa própria resposta. Evitamos fazer a pergunta que pode acabar com a esperança: algo mudou? Você está disposto a tentar algo diferente? Ou segue sendo a pessoa que não sabe ou não quer ocupar esses possíveis novos lugares?

Existe uma diferença entre querer preservar o vínculo que existiu e querer construir um vínculo que ainda não existe. Não deixe a saudade e a memória seletiva virarem névoa ou desautorização de seu desejo por mais intimidade, contorno e comprometimento. Acho maduro trazer a conversa difícil antes que a volta do envolvimento deixe tudo mais difícil e confuso pra você.

Lidar com as confusões sentimentais não é eliminá-las, mas, talvez, reorganizá-las fazendo as pazes com a castração. “Tudo não terás”, dizia minha avó Glorinha. Não dá para não escolher e não perder. Não dá para pedir aproximação sem cuidar do sentimento de quem se afastou justamente porque queria mais. E não dá para romantizarmos o falso disponível ou o emocionalmente atrapalhado simplesmente porque ele mexe com a gente.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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