Em 2013, quando cinco grandes bancos dominavam o sistema financeiro nacional e detinham mais de 80% do mercado, Cristina Junqueira era executiva de carreira em uma dessas instituições.
Responsável por uma das maiores carteiras de cartões de crédito do país, trilhava uma trajetória promissora e previsível dentro do setor. Mas o que ela chama de “eterna insatisfação” não permitiu que seguisse o caminho tradicional.
Após cinco anos na instituição, Cristina enxergou muitas lacunas no modelo bancário: tarifas altas, processos burocráticos e um atendimento ao cliente que era consequência e não premissa da operação.
Era o oposto do que ela idealizava ao fundar o Nubank, uma das primeiras grandes fintechs brasileiras. Hoje, aos 43 anos, Cristina Junqueira mora nos Estados Unidos, onde se dedica a estruturar a operação americana do banco, que neste ano se tornou a maior instuição financeira do Brasil em número de clientes.
** Esta matéria faz parte da série de reportagens Apesar do Estado, da Gazeta do Povo, que retrata a trajetória de grandes empresários brasileiros que venceram os desafios de empreender em um dos ambientes de negócios mais hostis do mundo. Confira outros textos da série neste link.
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Furar a bolha de um oligopólio
O começo da trajetória aconteceu em 2013, quando Cristina conheceu David Vélez, cofundador do Nubank. O colombiano buscava criar um banco capaz de enfrentar as grandes instituições bancárias brasileiras.
A conversa, iniciada no fim da tarde, se estendeu por horas. Os dois discutiram como construir uma instituição financeira que fosse centrada no cliente — justamente o aspecto que ambos consideravam mais negligenciado pelo setor.
“Eu não dormi mais”, relembra. “Falei para o meu marido: ‘Vou ter que fazer isso aqui. Se tem uma pessoa nesse país que sabe como fazer esse negócio dar certo, sou eu'”.
Ao lado de Vélez e do engenheiro americano Edward Wible, fundou, poucos meses depois, o Nubank.
Mas criar um banco em 2013 estava longe de ser simples. O maior desafio era abrir espaço em um dos mercados mais regulados da economia brasileira. Além disso, seria preciso obter autorização do Banco Central, cumprir exigências regulatórias e de capital, disputar clientes junto a um oligopólio e convencer investidores de que havia espaço para um novo concorrente.
O caminho foi intenso, mas o projeto prosperou. Treze anos depois, o Nubank reúne mais de 135 milhões de clientes, opera em três países e se consolidou entre as empresas financeiras mais valiosas da América Latina.
Cristina Junqueira passou a figurar como um dos grandes nomes do empreendedorismo brasileiro e, em 2024, entrou para a lista das 25 mulheres mais influentes do mundo do Financial Times. Com a valorização das ações após o IPO em Nova York, também passou a integrar o grupo dos bilionários brasileiros, segundo a Forbes.
Determinação e pragmatismo
Engenheira de produção formada pela USP, Cristina passou pelo Boston Consulting Group (BCG) e, logo depois, fez um MBA na Kellogg School of Management, nos Estados Unidos, experiência que considera decisiva para sua trajetória.
Enquanto muitos colegas aproveitavam os intervalos ou mesmo os períodos de aula para viajar e conhecer o país, ela negociou com a universidade autorização para cursar o maior número possível de disciplinas.
A mesma determinação se manteve no comando da empresa: em 2014, meses após o lançamento do Nubank, Cristina Junqueira entrou em trabalho de parto enquanto ainda estava no escritório e, após o nascimento, conciliava a recuperação da cesariana, os cuidados com a bebê e a rotina da startup.
A rotina continua intensa. A empresária acorda antes das seis da manhã, pratica exercícios físicos e participa da tarefa diária de levar os quatro filhos — Alice, Bella, Anna e Léo — à escola antes de iniciar a agenda de reuniões.
Ela costuma comparar a própria cabeça a um “navegador de internet com dezenas de abas abertas ao mesmo tempo”.
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Resolver problemas de forma simples
Durante mais de um ano, a empresária atendeu pessoalmente consumidores pelos canais de suporte da empresa. Muitas vezes respondia mensagens durante a madrugada ou nos intervalos da rotina para acompanhar de perto as reclamações e identificar onde o serviço ainda falhava.
A experiência ajudou a consolidar outra convicção que se tornaria um dos pilares do Nubank: tecnologia, sozinha, não resolveria o principal problema do setor financeiro. Seria preciso reduzir a distância entre banco e cliente em um mercado acostumado a interfaces complexas e atendimento impessoal.
O princípio passou a orientar a cultura interna: a ordem era questionar processos estabelecidos, priorizar boas ideias e manter a disposição permanente de revisar o que deixava de funcionar.
Foi desse conceito que nasceu o cartão de crédito sem anuidade, gerenciado integralmente pelo aplicativo – algo incomum no setor bancário até então.
A lógica adotada no cartão passou a orientar toda a expansão da empresa. Depois vieram contas, investimentos, empréstimos, seguros e outros serviços financeiros. A meta de alcançar 100 milhões de clientes, inicialmente projetada para cerca de dez anos, foi atingida muito antes do previsto.
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Fé, disciplina e obsessão pelos detalhes
Além da disciplina profissional, a vida pessoal da empresária também passou por mudanças importantes. Recentemente, Cristina Junqueira se converteu ao catolicismo e a fé passou a orientar sua forma de encarar a vida profissional. Ela conta que participa de missa aos domingos, reza o terço e procura “compreender o que Deus espera” dela antes de tomar decisões.
A obsessão por detalhes chega a tarefas que muitos executivos costumam delegar. Cristina revisa pessoalmente apresentações estratégicas, rodapés de e-mails e até mesmo parte das publicações nas redes sociais.
Em entrevista recente, contou que acompanhou por quatro dias, à distância, um ensaio fotográfico realizado em Los Angeles para discutir figurino, cabelo e identidade visual da campanha.
A empresária enfatiza que busca a mesma disposição na equipe e tem critérios rígidos na hora de contratar. “Gestão, estratégia e técnica podem ser aprendidos, mas disposição genuína para correr riscos e inovar, não”, afirma.
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Fonte ==> UOL