gerontrocracia e o poder que não larga

Líderes mais velhos do mundo 2026: o relógio continua girando — mas em vários países, a pessoa sentada na cadeira do poder não mudou em décadasFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Líderes mais velhos do mundo 2026: o relógio continua girando — mas em vários países, a pessoa sentada na cadeira do poder não mudou em décadasFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Esta manhã, neste espaço, falamos sobre filhos que herdaram o poder dos pais. À tarde, no Dia dos Pais, cabe a pergunta complementar: e os pais que simplesmente se recusam a largar o poder para alguém — filho ou não?

Bem-vindos à gerontocracia global. O sistema político não oficial que ninguém votou mas que governa uma parte considerável do planeta.

O campeão mundial de longevidade política

O presidente mais velho do mundo é Paul Biya, do Camarões, com 93 anos. Biya assumiu a presidência do Camarões em 1982 — quando o Brasil ainda vivia sob ditadura militar, quando a internet não existia, quando o celular era objeto de ficção científica. Ele ainda está lá. Biya governa há quase 44 anos — mais tempo do que 13 líderes mundiais atuais têm de vida.

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O presidente que governa da Suíça

O apelido de Biya entre os camaroneses é “o Ausente” — porque passa meses por ano hospedado em hotéis de luxo na Suíça, de onde governa o país remotamente.

Ganhou a eleição mais recente com 53% dos votos — num pleito marcado por alegações de fraude. Tem 93 anos, governa há 44 e ninguém sabe quando — ou se — vai parar.

O segundo mais velho é o rei Salman da Arábia Saudita, com 90 anos — que há muito delegou o poder efetivo ao filho, o príncipe Mohammed bin Salman. Um caso que fica bem no meio-termo entre a coluna da manhã e a desta tarde: tecnicamente o pai ainda governa, mas é o filho quem manda de verdade.

O clube dos octogenários que move o mundo

Os 93 anos de Biya poderiam parecer uma anomalia africana. Mas o fenômeno é muito mais amplo.

Trump completou 80 anos em junho de 2026, tornando-se mais velho que 170 dos 186 líderes mundiais analisados pelo Pew Research Center.

Putin tem 73 anos e está no poder há mais de 25. Xi Jinping tem 73 e removeu os limites de mandato da constituição chinesa. Netanyahu tem 76. Lula — que disputa a reeleição em outubro — completa 80 anos durante a própria campanha eleitoral.

A média de idade dos senadores americanos chegou a aproximadamente 64 anos — a mais alta já registrada naquela câmara.

O paradoxo americano que explica tudo

Aqui está o dado mais delicioso de toda essa história. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2023 mostrou que 79% dos americanos são favoráveis à adoção de limites de idade para cargos federais. Apenas 3% disseram querer um presidente com mais de 70 anos.

E o que os americanos fizeram em 2024? Elegeram Donald Trump, 78 anos, depois de quatro anos com Joe Biden, que chegou ao cargo aos 78 e deixou a corrida presidencial aos 81.

Vox populi, vox dei — exceto quando a vox populi claramente não acredita na própria voz.

Por que democracias também produzem gerontocracias

Aqui está a pergunta que a ironia esconde: por que países democráticos, que poderiam teoricamente eleger qualquer pessoa, continuam escolhendo septuagenários e octogenários?

A resposta é estrutural — e não tem solução fácil.

A matemática cruel do poder

Uma carreira política de alto nível exige décadas. Vereador, deputado estadual, deputado federal, senador — ou governador, ministro, embaixador.

Cada degrau consome anos. Quando você finalmente tem o reconhecimento de nome, a rede de aliados, o financiamento e a experiência para disputar a presidência de uma grande democracia, já tem 60 anos na melhor das hipóteses.

O estudo acadêmico de Stockemer, publicado na Sociology Compass, mostra que o líder médio dos anos 2020 tem pouco mais de 60 anos — mais velho que o membro médio do parlamento e completamente fora de sintonia com a população dos países que governa.

A idade mediana da população mundial é de aproximadamente 30 anos. A idade mediana dos seus líderes é de 63.

A África que envelhece no poder — e o padrão que revela

Sete dos dez líderes mais velhos do mundo governam países classificados como “não livres” pela organização Freedom House, que monitora direitos políticos e civis. Camarões, Maláui, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, Zimbábue, República do Congo, Uganda — uma lista que combina longevidade de líderes com sistemas que tornam a alternância de poder sistematicamente difícil.

O padrão não surpreende. Sistemas autoritários não têm o “problema” das eleições — que teoricamente forçam renovação. Um ditador pode governar enquanto a saúde permitir.

Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, está no poder desde 1979 — 47 anos. Chegou lá por golpe de Estado contra seu próprio tio. Tem 83 anos e nenhuma perspectiva de saída voluntária.

Os jovens que escaparam da regra

Há exceções que provam que o problema não é inevitável. A primeira-ministra da Islândia, Kristrún Frostadóttir, tem 38 anos. Emmanuel Macron chegou ao Eliseu aos 39. Jacinda Ardern assumiu a Nova Zelândia aos 37. Volodymyr Zelensky foi eleito presidente da Ucrânia aos 41.

O que esses casos têm em comum? Sistemas parlamentares que permitem ascensão mais rápida — ou eleições que favorecem outsiders sem décadas de carreira burocrática acumulada. Todos chegaram ao poder de formas que contornaram a estrutura tradicional de carreira política.

Sistemas presidenciais com longas primárias tendem a favorecer candidatos com reconhecimento de nome construído ao longo de décadas — o que estruturalmente privilegia os mais velhos.

E o Brasil nessa história

O Brasil não é exceção ao padrão global. Lula assumiu sua terceira presidência aos 77 anos em 2023. Em outubro de 2026, durante a campanha pela reeleição, completa 80.

Seu principal rival, Flávio Bolsonaro, tem 44 — representando uma diferença geracional de mais de três décadas entre os dois principais candidatos.

É a tensão mais visível entre dois modelos de representação: o líder experiente que acumula décadas de história política versus o representante de uma nova geração que ainda não tem o mesmo peso institucional.

Nenhum dos dois modelos é automaticamente melhor. A experiência tem valor — assim como a renovação. O problema é quando o sistema estruturalmente impede que a renovação aconteça antes que seja forçada pela biologia.

O poder que não larga — e a pergunta que fica

Paul Biya governará os 93 anos que tem hoje com a mesma tranquilidade de quem governa há 44. Trump fez 80 e não demonstra intenção de desacelerar. Putin removeu os limites constitucionais que poderiam forçá-lo a sair.

No Dia dos Pais, esta coluna acompanhou pela manhã os filhos que herdaram o poder dos pais. À tarde, ficou claro que o pré-requisito para essa herança é que o pai a libere — o que, no mundo da política, acontece com frequência muito menor do que se esperaria.

O queijo melhora com a idade. O vinho também. Os políticos nem sempre. E o mundo, enquanto debate se deve ou não estabelecer limites de idade para seus líderes, continua sendo governado por um clube em que a principal credencial parece ser ter chegado primeiro — e ter ficado.



Fonte ==> NDMais

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