Guilherme Silveira, empresário e CEO do Grupo Booz é empresário e CEO do Grupo Booz, com trajetória construída nas áreas de tecnologia, processos, crédito e gestão e desenvolve uma abordagem baseada em dados, processos e inteligência artificial para ajudar empresas a estruturar políticas de crédito e administrar o risco das vendas a prazo.
Em um mercado no qual grande parte das transações entre empresas ocorre a prazo, a gestão da exposição financeira ganha espaço como componente estratégico da operação e da sustentabilidade dos negócios.
O crédito que movimenta a economia, mas permanece fora do centro da estratégia
Todos os dias, empresas brasileiras vendem produtos e serviços sem receber imediatamente. Indústrias, distribuidores e atacadistas entregam mercadorias com prazos de 30, 60 ou 90 dias, transformando cada operação comercial em uma decisão que envolve capital, risco e confiança. Esse mecanismo, conhecido como crédito comercial, possui dimensão relevante na economia brasileira. Segundo levantamento divulgado pela CNN Brasil, com base em estudo da Liberum Ratings, cerca de 77% das transações entre empresas no país acontecem a prazo, movimentando aproximadamente R$ 4,1 trilhões em crédito comercial fora do sistema bancário tradicional.
O dado ajuda a dimensionar uma realidade que muitas vezes permanece incorporada à rotina comercial: quando uma empresa decide faturar hoje para receber posteriormente, ela está, na prática, financiando o próprio cliente. É nesse espaço entre a venda e o recebimento que Guilherme Silveira Kuntze concentra parte de sua atuação profissional. Para ele, a concessão de prazo não deve ser tratada apenas como uma etapa operacional do processo comercial, mas como uma decisão financeira que precisa estar apoiada em critérios, dados e metodologia.
Uma trajetória construída entre tecnologia, processos e negócios
A relação de Guilherme com o ambiente corporativo começou cedo. Em 2008, aos 16 anos, iniciou sua trajetória profissional na Consistem, onde teve as primeiras experiências no universo empresarial. Posteriormente, passou mais de uma década na Customax, atuando em consultoria na área de tecnologia. Nesse período, trabalhou com automação de processos, RPA, integração de sistemas e customização de fluxos de trabalho. A experiência contribuiu para formar uma visão que ultrapassava a dimensão estritamente tecnológica. Ao lidar com diferentes processos e operações, Guilherme passou a observar como tecnologia, gestão e negócios se conectam, e como decisões aparentemente operacionais podem produzir efeitos financeiros relevantes.
Essa perspectiva seria incorporada posteriormente à sua atuação no Grupo Booz empresa fundada por sua mãe em 2007. Em 2017, Guilherme iniciou sua participação na companhia com a criação e o desenvolvimento da operação de microcrédito. Cinco anos depois, em 2022, passou a se dedicar integralmente ao negócio.Em maio de 2023, com a saída de sua mãe da gestão, assumiu integralmente a gestão do Grupo Booz iniciando uma nova etapa profissional marcada pela continuidade da história construída pela empresa e pela busca de novas frentes de desenvolvimento.
A transição também representou uma mudança de perspectiva: a experiência acumulada em tecnologia e processos passou a dialogar diretamente com uma atividade em que análise, risco e tomada de decisão possuem impacto imediato sobre o resultado das empresas.
O ponto de virada: vender a prazo também é assumir risco
Durante décadas, a concessão de crédito comercial foi frequentemente conduzida a partir de fatores como relacionamento, histórico de pagamentos, percepção dos vendedores e experiência dos gestores. Esses elementos continuam relevantes. O desafio, segundo Guilherme, está em depender exclusivamente deles.
Uma empresa pode investir em tecnologia, ampliar sua capacidade produtiva, fortalecer a equipe comercial e conquistar novos mercados. Mas, se não houver uma política estruturada para determinar quanto crédito pode ser concedido e qual exposição financeira é aceitável, o crescimento pode vir acompanhado de riscos que só aparecem quando o caixa começa a sentir os efeitos da inadimplência.
Limites incompatíveis com a capacidade financeira do cliente, concentração excessiva da carteira e aumento da exposição a determinados compradores são alguns dos efeitos que podem surgir quando decisões de crédito não seguem critérios consistentes. Nesse contexto, a política de crédito deixa de ser um instrumento de restrição comercial e passa a cumprir outra função: criar condições para que a empresa cresça dentro de uma exposição de risco que consiga administrar. A lógica é simples, mas estratégica: o objetivo não é vender menos, mas vender melhor.
Dados não bastam quando falta método
A evolução tecnológica ampliou significativamente a quantidade de informações disponíveis para as empresas. Dados financeiros, comportamentais, históricos de relacionamento e informações de mercado podem ser utilizados para construir avaliações cada vez mais sofisticadas. A inteligência artificial adicionou uma nova camada a esse processo. Sistemas capazes de processar grandes volumes de dados podem acelerar análises, identificar padrões e apoiar equipes na tomada de decisões. Mas, para Guilherme, existe uma questão anterior à tecnologia: quais critérios devem orientar a decisão?
Sem políticas claras, parâmetros consistentes e uma estrutura capaz de transformar dados em critérios objetivos, a automação pode simplesmente reproduzir decisões inadequadas em uma velocidade maior. É uma distinção importante em um momento no qual a inteligência artificial avança sobre diferentes áreas corporativas. A tecnologia pode ampliar a capacidade analítica de uma organização, mas não substitui a necessidade de definir o que deve ser analisado, como os riscos devem ser ponderados e quais limites fazem sentido para cada operação.
Tecnologia pode acelerar processos. É o método que dá direção às decisões.

Método CRED: quatro pilares para organizar decisões
A experiência acumulada por Guilherme na interseção entre tecnologia, processos, crédito e gestão levou ao desenvolvimento do Método CRED, uma abordagem voltada à organização das decisões de crédito de forma técnica, objetiva e replicável.
A metodologia está estruturada em quatro pilares.
Conhecer parte da compreensão do cliente. Antes de estabelecer uma exposição financeira, é necessário compreender quem está do outro lado da operação, sua realidade e sua capacidade de honrar compromissos.
Relacionar amplia a análise. Informações isoladas podem oferecer uma visão limitada; quando diferentes dados são conectados, torna-se possível construir uma leitura mais abrangente sobre o nível de risco.
Estruturar transforma conhecimento em política. Critérios, limites e regras precisam estar alinhados à capacidade financeira e à realidade operacional de cada empresa.
Decidir, por fim, representa a transformação das informações em uma ação concreta. A proposta é reduzir a dependência de percepções individuais e criar condições para decisões fundamentadas em evidências e critérios previamente definidos.
Mais do que uma sequência de etapas, a lógica do método está relacionada à criação de consistência. Uma política de crédito estruturada não deveria funcionar apenas quando determinado profissional está à frente da análise. Ela precisa permanecer aplicável independentemente de quem ocupa a posição.
Do conhecimento individual à inteligência organizacional
Esse ponto toca uma questão relevante da gestão empresarial: a dependência do conhecimento concentrado em determinadas pessoas. Em muitas organizações, decisões importantes ainda estão associadas à experiência de um gestor específico. O problema surge quando esse conhecimento não é transformado em processos, indicadores e critérios compartilhados.
No crédito, essa dependência pode representar um risco adicional.
Ao estabelecer uma metodologia, a empresa passa a transformar experiência em estrutura. O conhecimento acumulado deixa de existir apenas como percepção individual e passa a integrar um processo que pode ser acompanhado, revisado e aperfeiçoado. É também nesse ponto que tecnologia e inteligência artificial podem encontrar uma aplicação mais consistente: não como substitutas da estratégia, mas como ferramentas capazes de ampliar a capacidade de execução de uma política previamente estruturada.
“O crédito não deve ser decidido pelo medo de perder, nem pela vontade de vender. Deve ser decidido pela capacidade de compreender, com responsabilidade, qual é a exposição que a empresa pode assumir diante da realidade de cada cliente. ” Afirma Guilherme.
Crédito comercial entra no debate estratégico das empresas
O debate sobre crédito no Brasil costuma estar associado aos bancos, às taxas de juros, à Selic e às políticas monetárias. Entretanto, uma parcela expressiva das relações comerciais acontece em outra esfera, dentro das próprias cadeias produtivas. Quando uma indústria entrega uma carga e recebe meses depois, existe uma operação financeira implícita. Quando um distribuidor amplia o prazo de um cliente para conquistar mercado, está assumindo uma exposição. Quando um vendedor negocia um limite maior para fechar um contrato, existe uma decisão de risco por trás da venda.
Reconhecer essa realidade muda a forma de olhar para o crédito comercial.
Ele deixa de ser apenas uma condição de pagamento e passa a ser compreendido como parte da estratégia financeira da empresa. Essa mudança de perspectiva é particularmente relevante em períodos de maior incerteza econômica, nos quais crescimento, liquidez e controle de risco precisam caminhar de forma coordenada.

Uma nova fase para uma trajetória marcada por tecnologia e gestão
A trajetória de Guilherme Silveira Kuntze combina três experiências que passaram a convergir ao longo dos anos: tecnologia, processos e crédito. Da primeira experiência profissional, ainda na adolescência, à atuação em consultoria tecnológica e, posteriormente, à liderança do Grupo Booz , sua carreira foi construída em torno da compreensão de como processos podem ser estruturados para produzir decisões mais consistentes.
A experiência na operação de microcrédito e a atuação junto a empresas contribuíram para aproximar essa visão tecnológica de uma questão essencial para qualquer negócio que venda a prazo: qual é o nível de risco que a empresa está preparada para assumir para crescer? A resposta, em sua abordagem, não está no medo de conceder crédito nem na disposição de vender a qualquer custo. Está na capacidade de compreender o cliente, relacionar informações, estruturar critérios e decidir com base em evidências.
No fim, a discussão sobre crédito comercial conduz a uma questão maior sobre gestão. Crescer não significa apenas ampliar vendas. Significa também compreender as condições financeiras que sustentam esse crescimento.
Cada venda a prazo representa uma decisão de investimento. Cada decisão de investimento envolve risco.
E, diante de um mercado de trilhões de reais que permanece muitas vezes invisível dentro das próprias operações empresariais, transformar risco em informação e informação em método pode ser um dos caminhos para tornar o crescimento mais previsível e sustentável. Como sintetiza Guilherme em sua visão sobre o tema, o crédito não deve ser decidido pelo medo de perder nem pela vontade de vender, mas pela capacidade de compreender, com responsabilidade, qual exposição a empresa pode assumir diante da realidade de cada cliente.
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Guilherme Silveira Kuntze é executivo e empreendedor com trajetória construída nas áreas de tecnologia, processos, crédito e gestão. Após mais de uma década de atuação em consultoria tecnológica, passou a se dedicar ao Grupo Booz, onde liderou a estruturação da operação de microcrédito e, desde 2023, conduz integralmente a empresa. É também o idealizador do Método CRED, abordagem voltada à estruturação de decisões de crédito com base em dados, processos e metodologia.