O professor Bayard Demaria Boiteux e o caminho para a democratização do Brasil

Arquivo pessoal

Por Bayard Do Coutto Boiteux

Há homens que atravessam a História como espectadores e outros que, pelas escolhas que fazem e pelo preço que pagam por elas, acabam se tornando parte dela. Meu pai, o professor Bayard Demaria Boiteux, pertenceu a esse segundo grupo. Professor, escritor, dirigente sindical e partidário, socialista, perseguido político, preso e exilado, retornou ao Brasil para participar diretamente da reconstrução democrática. Sua trajetória acompanhou alguns dos momentos mais intensos e dolorosos do país no século XX.

Antes de tudo, porém, ele era professor. E um professor reconhecido pelos alunos. Ao longo de sua extensa vida acadêmica, foi inúmeras vezes escolhido como paraninfo, patrono e homenageado de turmas. Formado em Matemática e doutor em Ciências Econômicas, lecionou em instituições como Colégio Pedro II, Colégio Naval, PUC, UNIRIO e UERJ. Foi também um intelectual de intensa produção, autor de inúmeros livros e trabalhos, nos quais deixou registrada parte de seu pensamento e de sua experiência acadêmica. Para ele, escrever e ensinar eram atividades que se completavam: o conhecimento adquirido não deveria permanecer guardado, mas ser compartilhado e transmitido às novas gerações.

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Essa vocação levou-o também ao movimento sindical. Presidiu o Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro e participou intensamente da vida política. Teve destacada atuação no Partido Socialista Brasileiro — PSB, chegando à Presidência de sua seção na então Guanabara. Aproximou-se de Leonel Brizola e participou dos grandes debates políticos daquele período.

Com a ruptura institucional de 1964, sua vida e a de nossa família mudaram profundamente. Vieram a perseguição, a perda de direitos, a prisão e, posteriormente, o exílio. Documentos preservados pelo projeto Brasil: Nunca Mais registram seu processo perante a Justiça Militar e sua condenação. Mas aquilo que hoje aparece em arquivos e páginas da História tinha para mim uma dimensão muito diferente: aquele homem era meu pai. Quando a perseguição política entra em uma casa, atinge também a mulher, os filhos, os familiares e os amigos. Para uma criança, a política é abstrata; a ausência do pai, não.

Seria injusto contar essa história sem mencionar minha mãe, Vera Do Coutto Boiteux, professora e lutadora, cuja trajetória também esteve profundamente ligada à educação. Desde os tempos em que atuou no Colégio Rezende, passando por seu trabalho no Sinpro-Rio, onde conheceu meu pai, construiu sua própria relação com o magistério e com a defesa dos professores. Foi também a companheira que permaneceu ao lado dele nos momentos mais difíceis: enfrentou as consequências da prisão, compartilhou a longa experiência do exílio e participou dos desafios da volta ao Brasil. Enquanto a história oficial registra processos, perseguições e acontecimentos políticos, existe outra história, íntima e muitas vezes silenciosa, construída pela coragem cotidiana, pela solidariedade e pela resistência familiar. A trajetória de meu pai também foi compartilhada por minha mãe, nas perdas, nas incertezas, nas esperanças e na reconstrução de uma vida profundamente atingida pela perseguição política.

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Universidade do Porto

No exílio, meu pai seguiu inicialmente para a Argélia, onde permaneceu aproximadamente cinco anos e continuou ensinando. Atuou na Universidade de Argel e no Institut National de Formation Professionnelle, participando tanto do ambiente universitário quanto da formação profissional. Mesmo afastado compulsoriamente do Brasil, continuava fazendo aquilo que talvez melhor o definisse: ensinar.

Posteriormente, mudou-se para Portugal, onde lecionou na Faculdade de Economia da Universidade do Porto e no Instituto de Serviço Social do Porto. Mudavam os países, os contextos e os alunos, mas permanecia o professor. Portugal, entretanto, reservaria ainda um capítulo difícil. Meu pai enfrentou novo afastamento acadêmico e relataria posteriormente que forças externas haviam provocado sua demissão da Faculdade de Economia. Registros parlamentares brasileiros mencionaram a informação de que o episódio teria ocorrido em consequência de pressões provenientes do governo brasileiro. Na memória de nossa família permanece também a relação daquele afastamento com o período do governo de Mário Soares, embora as responsabilidades específicas ainda mereçam aprofundamento documental.

O tempo também oferece algumas reparações. Na própria Faculdade de Economia onde ensinou, sua memória seria posteriormente homenageada com uma sala levando o nome Professor Doutor Bayard Demaria Boiteux. Há algo de profundamente simbólico nisso: tentaram afastar o professor da universidade, mas seu nome permaneceu dentro dela.

Com a abertura política, retornou ao Brasil e participou, ao lado de Leonel Brizola, da fundação do PDT. Mais tarde, chegou à Presidência do PDT do Estado do Rio de Janeiro e exerceu responsabilidades na área de Relações Internacionais do partido. O antigo dirigente do PSB, perseguido, preso e exilado voltava a participar plenamente da vida política em um país que reconstruía suas instituições democráticas.

No primeiro governo Brizola, assumiu a Secretaria de Estado de Administração e esteve diretamente ligado à implantação da paridade entre servidores ativos e inativos, importante conquista para o funcionalismo estadual. Participou também da elaboração do primeiro plano de carreira do magistério daquele governo, mantendo a valorização dos professores como uma de suas preocupações permanentes.

A educação continuaria no centro de sua trajetória. Meu pai integrou durante anos o Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, chegando à sua Presidência. Nesse período, conseguiu a aprovação da inclusão do tupi-guarani nas escolas e esteve ligado também à introdução do ensino da língua espanhola no sistema estadual. Eram iniciativas que revelavam uma visão ampla da educação: valorizar nossas raízes indígenas e, simultaneamente, aproximar o Brasil de seus vizinhos latino-americanos.

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Vera Boiteux, eu e meu pai

Exerceu ainda outras funções públicas, entre elas a Presidência da LOTERJ e da Casa França-Brasil, onde promoveu uma verdadeira aproximação cultural e institucional entre Brasil e França. Mas talvez sua trajetória também possa ser compreendida pelos cargos que decidiu não exercer. Convidado por Leonel Brizola para integrar a diretoria do BANERJ, preferiu não aceitar. Em outro momento, não concordou em assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro às vésperas de atingir a idade da aposentadoria compulsória, por considerar que aceitar a indicação nessas circunstâncias não seria ético. São episódios que guardo como particularmente reveladores de sua personalidade: para ele, a vida pública não deveria ser medida apenas pelos cargos que alguém conseguia ocupar, mas também pela capacidade de dizer não quando suas convicções assim determinavam.

Seria, portanto, um erro transformar sua biografia em uma simples relação de funções e títulos. Existe uma linha muito mais importante atravessando toda essa história: o compromisso com a educação, com a participação política, com os direitos dos servidores e com aquilo que entendia como responsabilidade no exercício da vida pública. Para compreender verdadeiramente Bayard Demaria Boiteux, é preciso começar e terminar pela mesma palavra: professor.

Talvez uma das demonstrações mais bonitas da permanência desse legado esteja no próprio Sinpro-Rio, que criou a Medalha Bayard Demaria Boiteux para homenagear professores de destaque. Para um homem que tantas vezes foi paraninfo, patrono e homenageado pelos próprios alunos, dificilmente poderia existir reconhecimento mais coerente. O professor passou, simbolicamente, a homenagear outros professores.

A democratização brasileira, evidentemente, não foi obra de um único homem, partido ou pensamento político. Foi uma construção coletiva, complexa e contraditória, da qual participaram brasileiros de diferentes origens e concepções. Meu pai fez parte desse processo a partir das convicções que escolheu defender e, em determinados momentos, pagou por elas um preço elevado.

Como filho, não quero escrever apenas uma homenagem nem construir uma figura idealizada. Quero deixar um testemunho. Bayard Demaria Boiteux foi professor, escritor, intelectual, socialista, dirigente sindical e partidário, perseguido político, preso, exilado e gestor público. Mas, para mim, foi também simplesmente meu pai.

Sua trajetória me ensinou que a democracia não termina no direito de votar. Ela precisa existir na escola, na universidade, nos partidos, no serviço público e no direito de cada cidadão pensar, falar, discordar e participar da construção de seu país. Meu pai conheceu um Brasil em que essas liberdades foram profundamente restringidas. Conheceu a prisão e o exílio, continuou ensinando longe de seu país e retornou para participar da reconstrução democrática. Ocupou cargos importantes, mas também soube recusá-los quando julgou que aceitá-los contrariaria suas convicções.

Entre a sala de aula, os livros que escreveu, a prisão, o exílio e a vida pública existe a trajetória de um homem. Existe também uma parte da história da democratização brasileira. Mas, para compreender Bayard Demaria Boiteux, volto sempre ao princípio: antes da política, durante o exílio e depois do retorno, ele foi essencialmente professor. E talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, são os professores que continuam pronunciando o seu nome.                        Bayard Do Coutto Boiteux é escritor ,professor universitário e pesquisador .Faz da sua vida uma constante promoção do turismo ,da Cultura e da Diversidade .Tem na Democracia e na luta pela redução das desigualdades sociais um mantra .

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