A engenheira que inovou a forma de treinar segurança do trabalho no Brasil

Katia Albany

Katia Albany dava aulas de NR-10 quando percebeu que o treinamento obrigatório de segurança, um mercado que toda empresa brasileira é obrigada a comprar, ainda era vendido como serviço avulso. Em menos de cinco anos, a empresa que ela fundou em Blumenau transformou esse serviço em um negócio de assinatura, com tecnologia própria, e hoje opera mais de 300 mil treinamentos por ano para mais de 700 clientes

Toda empresa com funcionários no Brasil é obrigada a treinar em segurança do trabalho. Eletricidade, altura, máquinas, espaços confinados, integração de novos contratados: as normas regulamentadoras determinam o que, quando e com que carga horária cada trabalhador precisa ser treinado. É um mercado de demanda garantida por lei. E, até pouco tempo atrás, era vendido do mesmo jeito há décadas: um treinamento por vez, pago um a um, entregue por consultorias que tratavam a atividade como serviço complementar.

Katia Albany conheceu esse mercado por dentro. Engenheira eletricista formada pela UTFPR, começou a carreira como instrutora de NR-10, a norma de segurança em instalações elétricas, primeiro em uma consultoria e depois na própria empresa. Prospectava, orçava, vendia, dava a aula e cuidava do pós-venda. “Eu não aprendi esse mercado em relatório. Eu vivi as dores dele”, diz. “O cliente enxergava o treinamento como um custo obrigatório a ser cumprido pelo menor esforço possível. E a consultoria vendia quando surgia demanda, sem previsibilidade nenhuma.”

Foi dessa vivência que nasceu a Anak, fundada em dezembro de 2021 em Blumenau, Santa Catarina. A empresa não vende treinamento. Vende a infraestrutura para que consultorias de segurança do trabalho, clínicas de medicina ocupacional, revendas e indústrias operem a própria universidade corporativa, com a marca delas. Hoje são mais de 700 clientes e mais de 300 mil treinamentos por ano, no online, no presencial e no semipresencial.

Um serviço avulso que virou negócio de assinatura

A inovação da Anak não está em ter colocado treinamento na internet. Está em ter mudado a lógica econômica de um mercado inteiro. No modelo tradicional, cada treinamento realizado gera um custo para quem revende: se um trabalhador faz três treinamentos no ano, são três custos. Para a consultoria, a operação de treinamento é um custo variável e imprevisível, que cresce a cada venda. Para a empresa contratante, é uma despesa que se repete sem planejamento.

A Anak trocou isso por um contrato anual de capacidade, no qual o parceiro paga um valor fixo pelo volume de pessoas que vai treinar e revende como quiser, com a marca dele. É a mesma virada que a assinatura trouxe para software, música e mobilidade: sair da transação pontual para a relação recorrente e previsível. “Pare de pagar por cada treinamento” virou a frase que resume a empresa.

A consequência para o parceiro é uma mudança de identidade. “Quando a consultoria entende que treinamento é o serviço de maior margem do negócio dela, ela para de ser fornecedora de treinamento obrigatório e passa a operar a própria universidade corporativa”, diz Katia. Na prática, a Anak criou uma categoria nova, que ela batizou de universidade corporativa em SST, e a ocupou antes que o mercado tivesse nome para ela.

Katia Albany

Katia Albany

Como o mercado recebeu

O momento de virada aconteceu antes da empresa existir. Em 2019, quando a regulamentação passou a permitir treinamentos de segurança a distância, Katia já formava instrutores de NR-10 pela própria empresa de educação, a Krakatoa, e foi procurar uma plataforma para vender o treinamento online. Não encontrou nada que atendesse a norma. Construiu a própria estrutura. Em seguida, os instrutores que ela formava começaram a procurá-la com o mesmo pedido: queriam vender treinamento online também, mas com a marca deles.

“Quando eu percebi que a dor não era só minha, que todo empresário de segurança do trabalho enfrentava a mesma barreira, entendi que não era um treinamento que faltava no mercado. Era uma infraestrutura”, diz. A demanda estava represada. Os primeiros clientes vieram da rede de instrutores que ela mesma havia formado, mais de mil profissionais espalhados pelo país, e a base se espalhou a partir daí para consultorias, clínicas e revendas.

A recepção mais reveladora, porém, aparece no comportamento de quem usa. Na base da Anak, cada trabalhador licenciado faz em média três treinamentos por ano, e alguns chegam a quatro ou cinco. “Quando o treinamento era pago um a um, a empresa fazia o obrigatório e parava. Quando o custo por treinamento desaparece, a mesma empresa passa a treinar liderança, integração, reciclagem antes do vencimento”, afirma Katia. Isso mostra uma mudança de comportamento do cliente, não apenas de fornecedor. Entre as indústrias que contratam a plataforma diretamente, há clientes na casa há quatro anos, praticamente desde a fundação.

O perfil do cliente também moldou a operação. Boa parte dos parceiros são pequenas empresas de serviços, com pouca intimidade com tecnologia. A Anak respondeu com um onboarding próximo e humanizado como padrão da casa, para qualquer cliente, e não como diferencial de plano. “Software sem acompanhamento trava e vira cancelamento. A gente aprendeu isso cedo.”

Tecnologia com quilometragem

O que sustenta o modelo é uma combinação rara no setor: uma empresa de tecnologia fundada por alguém que passou anos dentro da operação que a tecnologia resolve. A Anak desenvolve o próprio sistema. No primeiro ano e meio, operou com uma estrutura enxuta para validar o modelo. Quando a demanda se provou, deu um passo atrás para dar dois à frente: construiu a plataforma do zero, com as exigências da norma como fundação da arquitetura, e não como remendo.

“A segurança jurídica não pode depender de boa vontade da operação. Ela tem que estar no código”, diz Katia. Controle automático de vencimento de certificados, gestão das aulas práticas presenciais, assinatura digital, loja virtual para cada parceiro e rastreabilidade completa de cada jornada de treinamento fazem parte do sistema. Uma plataforma genérica de ensino a distância entrega vídeo e matrícula. A Anak entrega a operação inteira, porque quem a desenhou sabia o que a operação exige.

A regra de produto da casa é uma só: a necessidade do cliente vira produto. O exemplo mais recente é o App Nativo, uma solução que transforma qualquer site, plataforma ou loja virtual em um aplicativo para Android e iOS. Nasceu porque os clientes da Anak queriam ter um app com a marca própria, coerente com a universidade corporativa que operam. A empresa desenvolveu para eles e agora prepara o lançamento para outros segmentos. “O nosso melhor time de inovação são os 700 clientes. São operações reais mostrando todos os dias onde o sistema precisa evoluir.”

Mãe de uma criança pequena e à frente de uma empresa de tecnologia em um setor técnico e majoritariamente masculino, Katia trata a autoridade como questão de quilometragem, não de discurso. Antes de fundar a Anak, formou mais de mil instrutores de NR-10 pelo Brasil, e hoje preside a regional Sul da ABRACOPEL, associação que atua na conscientização sobre os perigos da eletricidade. “Quando eu converso com um empresário de segurança do trabalho, ele sabe que eu estive exatamente onde ele está.”

O que vem pela frente

O ambiente regulatório joga a favor. Em 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou a nova redação da NR-10, com seis novos treinamentos iniciais e parte prática presencial obrigatória a partir de junho de 2027, e tornou o treinamento da NR-35, de trabalho em altura, totalmente presencial. Para Katia, a régua está subindo, e isso separa quem constrói competência de quem emite papel. A resposta da Anak combina a plataforma com a rede de instrutores qualificados que a fundadora forma há anos, para atender a etapa presencial que a norma passa a exigir.

Ela enxerga três movimentos convergindo nos próximos cinco anos: regulação mais exigente, a migração do treinamento de transação pontual para operação contínua e recorrente, e a inteligência artificial no centro da personalização do aprendizado e da gestão de conformidade. “A tecnologia multiplica margem e capacidade. Ela não substitui gente.”

A tese que rege a empresa cabe em uma frase, e Katia a repete em toda reunião: cultura de segurança se constrói com educação. “Treinamento não é custo, é ativo. O próximo grande passo é o mercado inteiro entender isso. A gente só chegou um pouco antes.”

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A Anak em números

•  Fundação: dezembro de 2021, Blumenau (SC)
•  Clientes: mais de 700, entre consultorias de SST, clínicas de medicina ocupacional, revendas e indústrias
•  Treinamentos: mais de 300 mil por ano
•  Catálogo: mais de 200 treinamentos
•  Média por trabalhador licenciado: 3 treinamentos por ano
•  Modalidades: online, presencial e semipresencial
•  Tecnologia: plataforma própria, desenvolvida internamente

Quem é Katia Albany

Engenheira eletricista formada pela UTFPR, começou a carreira como instrutora de NR-10. Formou mais de mil instrutores da norma pelo Brasil antes de fundar a Anak, em 2021. Preside a regional Sul da ABRACOPEL, associação brasileira de conscientização para os perigos da eletricidade. Vive em Blumenau (SC).

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