Uma história marcada por desafios de idioma, surdez e mudança de país ganhou novas páginas em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina. Esther, aluna haitiana e surda da Escola Municipal Rui Barbosa, transformou as próprias experiências em uma autobiografia publicada em formato de livro.
A obra foi desenvolvida dentro de um projeto de língua portuguesa e reúne a história da estudante em português e em libras. A produção envolveu professores, intérprete e profissionais da educação e foi apresentada durante as ações do Setembro Azul, mês dedicado à conscientização sobre a comunidade surda.
Da dificuldade no Haiti à nova vida em Chapecó
Esther nasceu e cresceu no Haiti, onde enfrentava dificuldades para acompanhar as aulas por não ter acesso a um intérprete de libras. Segundo ela, a falta de uma língua acessível tornava o aprendizado ainda mais difícil.
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“Quando eu estava no Haiti, na escola, era muito difícil. Eu não entendia a professora porque não tinha a intérprete lá.”
Há cerca de quatro anos, a estudante chegou a Chapecó. A mudança de país trouxe um novo desafio linguístico, mas também a possibilidade de aprender libras e ter acesso ao conteúdo escolar por meio da língua de sinais.
Estudante contou com o apoio de professores e intérprete durante a produção da obra.Foto: Prefeitura de Chapecó/ND MaisLibras abriu caminho para o aprendizado
Em Chapecó, Esther aprendeu libras na Associação de Surdos de Chapecó e passou a contar com uma professora intérprete na Escola Municipal Rui Barbosa.
Com a comunicação acessível, a estudante passou a acompanhar os conteúdos junto com a turma. Professores relatam que ela se tornou uma aluna dedicada e participativa.
“Com as libras, ela consegue entender, acompanha a turma sem dificuldades”, relatou uma profissional da escola.
A equipe destacou que o desenvolvimento da estudante também contou com o apoio da família, da gestão escolar, dos professores e dos profissionais envolvidos com a educação de surdos.
Autobiografia nasceu em atividade de língua portuguesa
A ideia de transformar a trajetória de Esther em livro surgiu durante um projeto desenvolvido com estudantes do sexto ano na disciplina de língua portuguesa.
A turma trabalhava os gêneros biografia e autobiografia e cada aluno foi convidado a escrever sobre a própria história.
A partir da atividade, os professores decidiram ampliar a proposta e convidar Esther para registrar a trajetória dela.
Para a estudante, escrever sobre a própria trajetória foi uma oportunidade de mostrar uma história diferente e registrar tudo o que viveu.
Projeto foi desenvolvido na Escola Municipal Rui Barbosa, em Chapecó.Foto: Roberto Bortolanza/NDTV Record/ND MaisLivro reúne português e libras
O projeto foi construído por várias mãos. Participaram a professora de língua portuguesa, a professora da área de libras e a intérprete responsável por mediar a comunicação com Esther.
A proposta ganhou ainda um significado especial por ter sido desenvolvida durante o Setembro Azul. A partir das conversas entre os profissionais, surgiu a ideia de criar uma obra que pudesse ser acessível em diferentes formas de comunicação.
O resultado foi um livro bilíngue, com a história apresentada em português e também em libras.
Livro reúne a história da estudante em português e libras.Foto: Roberto Bortolanza/NDTV Record/ND MaisHistória de haitiana virou exemplo de inclusão
Além de registrar a trajetória da estudante, o livro mostra como o acesso à comunicação pode transformar a experiência de uma criança dentro da escola.
No Haiti, Esther não conseguia acompanhar as aulas da mesma forma que os demais estudantes por não ter acesso à libras e a um intérprete.
Libras passou a fazer parte da rotina escolar de Esther após a chegada a Chapecó.Foto: Roberto Bortolanza/NDTV Record/ND MaisEm Chapecó, encontrou uma rede de apoio que permitiu que ela aprendesse, acompanhasse a turma e também encontrasse uma maneira de contar a própria história.
A publicação representa, assim, não apenas a produção de uma estudante, mas o resultado de um trabalho coletivo de inclusão e de valorização da língua brasileira de sinais.
“Esse projeto do livro foi um projeto de muitas mãos.”
Cor amarela representa esperança na história
Na autobiografia, Esther também fala sobre os momentos difíceis que enfrentou e sobre a esperança construída ao longo da trajetória. O sentimento aparece representado pela cor amarela, presente na bandeira internacional da comunidade surda.
Para os profissionais que acompanharam a estudante desde a chegada a Chapecó, ver a transformação ao longo dos anos é motivo de orgulho.
A história que começou com dificuldades para compreender as aulas no Haiti agora pode ser lida e compartilhada por meio de um livro criado justamente para dar voz à trajetória de Esther.
Fonte ==> NDMais