‘Lucrécia’ une marionete, gromelô e música ao vivo – 06/10/2026 – Mise-en-scène

'Lucrécia' une marionete, gromelô e música ao vivo - 06/10/2026 - Mise-en-scène

Quando o Estado decide que você não pode mais viver sozinho, a resposta mais lúcida pode ser simplesmente entrar no armário e passar o ferrolho por dentro. Em “Lucrécia”, montagem comemorativa dos 15 anos da Trupe Ave Lola, a recusa a uma transferência compulsória para um asilo acontece entre casacos antigos, caixas, gavetas e chapéus.

A protagonista, uma artista centenária ameaçada por agentes do serviço social, faz de seu móvel um território particular onde roupas ganham movimento, o tempo corre sem linha reta e as lembranças disputam espaço com a perda gradual de lucidez.

Sob a direção de Ana Rosa Genari Tezza, o jogo cênico foge de qualquer solenidade artificial, sustentado pelo diálogo direto entre atuação corporal, animação e música ao vivo. No centro da ação, a marionete híbrida feita por Eduardo Santos ganha vida acoplada diretamente à atriz Helena Tezza.

A montagem não camufla a manipuladora: a plateia acompanha o fôlego, o tônus muscular e a respiração da atriz sincronizados com a estrutura inerte da boneca. É uma atuação de contenção, na qual o corpo jovem se molda para dar peso e arritmia à senescência, permitindo ao mesmo tempo proezas que um corpo centenário real não executaria, como flutuar pelo escuro ou suspender a rigidez das articulações em mergulhos imaginários.

Ao lado dela, Wenry Bueno constrói o contraponto dinâmico da fábula, desdobrando-se com agilidade física para encarnar as presenças que assombram e povoam a memória de Lucrécia. O ator transita com rapidez entre o registro clownesco e a delicadeza lírica, alternando tipos farsescos, amantes do passado e serviçais.

Preparados corporalmente por Ane Adade, Helena e Bueno dividem sequências de refinado encaixe gestual, como no momento em que simulam um nado no fundo do mar, trocando a gravidade do palco por uma leveza fluida.

Essa cumplicidade ganha ainda mais força no campo vocal com o uso do gromelô pelos dois atores. Em vez de depender de diálogos convencionais ou explicações literais, a dupla recorre a essa linguagem inventada, feita de entonações, cadências e sonoridades que comunicam intenções com precisão imediata.

O recurso evoca a tradição da comédia popular e sublinha o próprio estado de dispersão da memória da protagonista: não é preciso decifrar palavras formais para entender o afeto, a irritação, a carícia ou o deboche trocados entre a velha senhora e seus espectros.

A engrenagem respira junto com os músicos Arthur Jaime e Breno Monte Serrat, presentes no tablado com seu arsenal de instrumentos. A dupla trabalha em resposta imediata aos movimentos dos atores, aos timbres do gromelô e aos silêncios da marionete.

Ruídos secos e pequenas modulações harmônicas funcionam quase como os batimentos cardíacos externos de Lucrécia, acompanhando cada sobressalto físico, lapso de memória ou quebra rítmica imposta pelos gracejos em cena.

Ao unir precisão técnica, jogo de trupe e a tradicional bilheteria no formato “pague quanto vale”, a Ave Lola reafirma sua vocação popular e artesanal: encarar o desgaste inevitável da existência através da escuta entre corpos, sons e matéria.

Três perguntas para…

… Helena Tezza

Como foi o processo de diluir os limites entre o seu próprio corpo e a marionete em cena, especialmente na construção de um ritmo respiratório que precisa pertencer aos dois ao mesmo tempo?

Foi um processo cheio de camadas, de muita investigação técnica e, sobretudo, de um estudo delicado sobre o ritmo necessário para que um boneco de espuma pudesse ganhar vida. Mas a técnica nunca esteve separada da poesia. Era ela quem nos conduzia, junto da fé de que havia ali um espírito teatreiro esperando para despertar. Nosso trabalho foi, então, encontrar o caminho para que esse espírito pudesse se revelar, respirar e existir.

A montagem, em grande parte, aposta no gromelô em vez do texto verbal convencional. Como você e Wenry construíram dramaturgia, precisão dramática e nuances cômicas apenas pelo desenho sonoro e pelas intenções da voz?

A escolha pelo gromelô se deu a partir do entendimento de que a memória, muitas vezes, se manifesta mais por meio das sensações do que das palavras que foram efetivamente proferidas. Recuperamos com clareza um estado, uma atmosfera, uma situação, mas nem sempre conseguimos acessar a semântica exata do que foi dito.

O gromelô nos ajuda a trazer para a cena uma musicalidade, em que o sentido não está necessariamente nas palavras, mas no ritmo, na sonoridade e no estado.

Para construir o gromelô, partimos de diálogos e sabíamos exatamente o que aquela personagem queria dizer e, principalmente, qual sentimento desejávamos transmitir naquele momento. A partir daí, as palavras foram desconstruídas para que pudéssemos encontrar uma outra linguagem, capaz de comunicar não apenas pelo significado, mas pela emoção.

Celebrar os 15 anos da Ave Lola com uma pesquisa de linguagem tão vertical e exigente fisicamente aponta para quais novos caminhos artísticos para você dentro da companhia?

Esse trabalho é a continuidade de uma longa pesquisa da Trupe Ave Lola em torno do teatro físico, mas também representa um movimento de expansão de sua linguagem. Em “Lucrécia”, partimos de um repertório que já vinha sendo desenvolvido pela Trupe e o atravessamos por novas investigações, descobrindo outras possibilidades de presença, movimento, voz e relação com a cena. Assim, o teatro físico não é um limite para a linguagem da Trupe, mas um dos caminhos a partir dos quais ela se amplia e se transforma.

Com sessões esgotadas, “Lucrécia” cumpriu temporada na sede da trupe, em Curitiba, entre 23 de agosto e 6 de setembro. Ainda não há previsão de novas apresentações.



Fonte ==> Folha SP

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