Quando o valor das empresas muda, a governança precisa acompanhar

Quando o valor das empresas muda, a governança precisa acompanhar

92% do valor de mercado das empresas do S&P 500 já está associado a ativos intangíveis. O dado, que faz parte de um estudo divulgado pela Ocean Tomo em fevereiro de 2026, revela uma inversão expressiva em relação ao cenário de 50 anos atrás. Em 1975, os ativos tangíveis, como imóveis, máquinas e equipamentos, respondiam por 83% desse valor.

Cinco décadas depois, conhecimento, tecnologia, marcas, reputação, cultura e capacidade de inovação ganharam protagonismo na composição do valor empresarial. O contraste é que muitas organizações ainda concentram sua atenção no patrimônio que conseguem identificar em seus demonstrativos contábeis, enquanto parte relevante do que sustenta sua competitividade permanece fora dessa visão.

Essa diferença é extremamente relevante porque aquilo que não é reconhecido como estratégico dificilmente recebe a mesma atenção nas decisões sobre investimentos, riscos e crescimento.

No Brasil, uma iniciativa recente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) acompanha esse movimento. Em junho deste ano, o órgão federal responsável pela concessão e pelo registro de direitos de propriedade industrial lançou o curso Valoração de Ativos de Propriedade Intelectual: Métodos e Aplicação Prática em Negociações, destinado a profissionais com conhecimento prévio no tema e selecionados mediante avaliação das pré-inscrições.

A iniciativa sinaliza o compromisso do INPI em ampliar a compreensão sobre o potencial econômico da propriedade intelectual e sua aplicação nas decisões estratégicas, contribuindo para o amadurecimento dessa discussão no Brasil. A primeira turma concluiu a formação neste mês de outubro, com perspectivas de aprimoramento para as próximas edições.

O desafio está na capacidade de gerir valor

Essa mudança traz uma questão importante para as organizações. Uma empresa pode deter tecnologias relevantes, marcas reconhecidas e conhecimento acumulado sem necessariamente transformar esse patrimônio em vantagem competitiva. O valor desses ativos depende de sua aplicação, das condições de mercado e das decisões que orientam seu desenvolvimento.

A proteção jurídica é importante, mas não assegura valor econômico. Da mesma forma, investir em inovação, comunicação ou conhecimento não garante retorno se esses recursos não estiverem conectados à estratégia do negócio.

Um dos grandes desafios da gestão dos intangíveis está na necessidade de uma visão integrada sobre ativos e capacidades que frequentemente estão distribuídos entre diferentes áreas da organização. Seus riscos distintos revelam que o valor não é algo estático e que sua preservação depende de decisões que atravessam toda a organização.

Uma inovação pode perder relevância antes de chegar ao mercado. Uma marca pode manter sua proteção legal e perder diferenciação. O conhecimento acumulado por uma equipe pode desaparecer com a saída de profissionais-chave.

Para a alta gestão e os conselhos, isso significa compreender quais ativos realmente sustentam a competitividade, onde concentrar investimentos, quais riscos podem comprometer seu valor e quais capacidades precisam ser desenvolvidas para sustentar o crescimento.

A valoração econômica oferece referências importantes para essas escolhas, especialmente em decisões de investimento, expansão, negociação e alocação de capital. Mas conhecer o valor estimado de um ativo é diferente de gerir as condições que permitem que ele continue gerando resultados.

É justamente na articulação entre essas duas dimensões que a governança ganha relevância, cabendo à alta gestão e aos conselhos, em suas respectivas atribuições, assegurar que a contribuição econômica, os riscos e o potencial dos intangíveis sejam considerados nas decisões estratégicas.

Os números da Ocean Tomo mostram quanto a composição do valor empresarial se transformou. O desafio agora está na capacidade das organizações de acompanhar essa mudança na forma como administram seus negócios.



Fonte ==> EconomiaSC

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