Antologia de Wallace Stevens reúne poemas inéditos no país – 20/02/2026 – Walter Porto

Homem idoso com cabelo curto e grisalho, vestindo terno escuro e camisa listrada, olhando para a direita em fundo neutro.

“O poeta é o sacerdote do invisível.” Quem encarna esta máxima é seu próprio autor, Wallace Stevens, um alquimista da linguagem poética exercida nos intervalos de sua carreira corporativa. A frase faz parte da coleção de aforismos que Stevens escreveu em cadernos ao longo de anos e que é publicada pela primeira vez no Brasil, junto a outros 80 poemas —34 dos quais também inéditos em livro no país.

Neste ano de 2026 em que a obra de Stevens caiu em domínio público, esses poemas e aforismos foram reunidos em “Ficção Suprema”, a mais ampla antologia do poeta central do modernismo norte-americano a ser publicada no país no primeiro semestre pela editora Iluminuras, com tradução do poeta Rodrigo Garcia Lopes.

“A antologia abrange o arco completo da trajetória de Stevens e oferece uma visão panorâmica e profunda da evolução do poeta, permitindo ao leitor acompanhar toda a sua trajetória criativa”, explica Lopes.

Stevens chamou de “ficção suprema” a capacidade da poesia de reinventar o real quando ele parece insuficiente. Para isso, se tornou um músico das palavras e um mestre estilístico que imprimia rigor e precisão para esculpir poemas considerados herméticos, abstratos, estéticos e filosóficos, mas também provocativos e bem-humorados.

Discreto, avesso ao folclore literário, ele se autodefiniu um “ermitão da poesia” e foi durante décadas um “poeta de poetas”. Sua influência atravessa tradições e sensibilidades, mas só chegou ao país 32 anos depois de sua morte, em 1955.

A primeira coletânea é de 1987: “Poemas” (Companhia das Letras), edição bilíngue traduzida pelo também poeta Paulo Henriques Britto, com apenas 20 textos. Em 2017, Britto ampliou o volume para 36 poemas, sob o título “O Imperador do Sorvete e Outros Poemas”. Em 2025, Alessandro Funari traduziu integralmente o primeiro livro de Stevens, “Harmonium”, de 1923.

A antologia chega às prateleiras em 2026 é bilíngue e traz notas a cada poema, para amparar a interpretação do leitor, uma coletânea de aforismos e uma cronologia da vida do poeta.

Nascido em 1879, na Pensilvânia, Stevens estudou na Univeridade Harvard, formou-se em Direito em Nova York e, entre 1915 e 1916, frequentou o salão modernista do casal Arensberg, onde conviveu com artistas como Marcel Duchamp. Foi em 1916 que ele tomou o caminho menos literário possível: ingressou na Hartford Accident and Indemnity Company, onde se vice-presidente e especialista respeitado na análise de sinistros. Seu primeiro livro, “Harmonium”, saiu quando ele já tinha 44 anos.

Depois “Ideias de Ordem” (1935), “O Homem com o Violão Azul” (1937) e “As Auroras Boreais de Outono “(1950), até culminar nos poemas finais reunidos em “Poemas Coligidos” (1954), que lhe renderam o prêmio Pulitzer.

“Stevens não é um poeta fácil de ser traduzido”, admite Lopes. “Ele costuma usar bastante ambiguidade e polissemia em suas escolhas lexicais. Traduzir Stevens é um desafio que envolve várias camadas. A primeira é o próprio Stevens: um poeta elusivo, que combina, como poucos, rigor filosófico e exuberância sensorial”, explica. “Isso significa que não basta traduzir o sentido; é preciso recriar sua musicalidade, o ritmo e a ambiguidade semântica que são a própria matéria do poema.”

BYE BYE BERLIM A romancista e ensaísta indiana Arundhati Roy cancelou sua participação no Festival Internacional de Cinema de Berlim após declarações do presidente do júri, o cineasta Wim Wenders, que defendeu que cineastas “fiquem fora da política”. Autora do premiado “O Deus das Pequenas Coisas” (Companhia das Letras), Roy é uma ativista de direitos humanos e causas ambientais e foi convidada para acompanhar a exibição restaurada de um filme cujo roteiro escreveu, Roy afirmou que a posição do júri tenta encerrar o debate sobre Gaza, que ela classifica como crime contra a humanidade. Vencedora do Booker em 1997, ela participaria da sessão de “In Which Annie Gives It Those Ones”, comédia cult dirigida por Pradip Krishen e exibida na seção Berlinale Classics. Horas antes, porém, ao ser questionado sobre Gaza, o júri evitou qualquer posicionamento. Roy reagiu cancelando a viagem.

HELLO AUDIO O crescimento no consumo de audiobooks em 2025 foi sentido na plataforma de leitura Skeelo, e eles já representam mais de um terço de todas as leituras realizadas no aplicativo e sugerem que os brasileiros estão consumindo literatura ou não-ficção cada vez mais pelos ouvidos. De 2024 para 2025, os leitores passaram a dedicar mais tempo a esse formato, que cresceu mais de 30% em minutos consumidos na plataforma. A Skeelo informa que mais de 3 milhões de livros digitais e audiobooks foram consumidos no aplicativo em 2025. O levantamento aponta que a preferência dos leitores da plataforma são romances, seguidos por títulos de desenvolvimento pessoal e autoajuda. Entre os mais consumidos estão “Seja Foda” (Buzz), de Caio Carneiro, “Duna” (Aleph), de Frank Herbert, e a autobiografia “Rita Lee; Outra Biografia” (Globo Livros).



Fonte ==> Folha SP

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