Antes de pensar em deixar o relacionamento gostaria de te convidar a abandonar alguns dogmas do amor romântico que ainda estruturam nossa forma de amar. Mesmo nos considerando modernos e conscientes de que não existe “felizes para sempre” nem “metade da laranja”, poucos de nós nos libertamos das dinâmicas que sufocam o vínculo e que, muitas vezes, nós mesmos escolhemos.
No início de toda relação existe uma espécie de “romantização do cárcere” vivida sob a atmosfera de “nós dois e uma cabana”. Apaixonados, deixamos o curso de filosofia, cancelamos viagens com amigas, abrimos mão de horas extras no trabalho que visavam a promoção futura… Tudo para dar espaço para o amor presente.
Reencenamos, sem perceber, a ideia platônica do amor fusão, como se ele fosse uma revanche emocional à castração descrita por Freud como inevitável e que já experimentamos tantas vezes ao perceber que não éramos tudo para quem amávamos. Ser prioridade de alguém tem algo de entorpecedor: reacende a fantasia de completude, o nosso paraíso perdido.
Mas passados os meses dourados do apaixonamento, a rotina traz consigo uma sobrecarga: trabalho, filhos, boletos, pais envelhecendo, corpo cansado… E sobra cada vez menos tempo para si e para o cultivo da relação. Mantendo-nos na lógica de que amar é pensar no “nós” antes do “eu”, estabelecemos relações baseadas na reciprocidade de renúncias: “Eu renuncio à minha carreira para mudarmos de cidade e você crescer profissionalmente, mas espero que renuncie às suas viagens de surfe com amigos.”; “eu renuncio ao meu curso para ficar à noite com as crianças, mas quero que você renuncie ao pôquer das terças.” E assim, amor vira contabilidade.
Cria-se, então, uma espiral negativa: ninguém faz o que quer, os momentos juntos nem são mais tão bons, você se frustra, abre mão de cada vez mais coisas tentando fazer a relação ficar boa, e quanto mais estreita sua vida, mais a relação se torna empobrecida e ressentida. Empobrecida porque sem respiros nos tornamos pessoas menos interessantes; ressentida porque toda renúncia “por amor” carrega a expectativa de que o outro faça igual. Nesse cenário, a única forma de liberdade parece ser libertar-se do casamento —quando talvez o convite fosse viver mais livres dentro dele.
Mas, para isso, é preciso se libertar de outro aprisionamento: a ideia de que devemos remar na mesma direção para chegar lá. Chegar aonde, afinal? E quando cada um quer explorar margens diferentes do rio? Talvez você já não queira mais economizar para comprar um sítio no futuro e prefira investir em experiências no presente. Talvez queira voltar a estudar e conhecer novas culturas, enquanto seu parceiro busca silêncio e rotina. Como crescemos acreditando que amar é “seguir o mesmo roteiro”, entramos num “braço de ferro afetivo”, tentando trazer o outro para nossa versão da história, tornando, assim, os mares mais turbulentos do que poderiam ser. No amor, a sobrevivência do casal está em entender que somos mais caleidoscópios do que barcos a remo: mudamos de forma conforme o fluxo da vida e nem sempre estaremos alinhados nos desejos. E tudo bem.
Tudo bem desde que tenhamos coragem de nomear e nos apropriar de nossos desejos —bem como de nossas renúncias e consequências dos próprios atos, em vez de prender o outro como culpado por sua vida esvaziada. Isso me remete ao filme “Anatomia de uma Queda” (assista, se puder). No auge de uma discussão na qual o marido culpa a esposa por sua crise profissional e pessoal, ela responde: “Você reclama de uma vida que escolheu. Não é vítima de nada. Sua generosidade esconde algo mais sujo: o medo. Você é incapaz de encarar suas ambições e se ressente de mim por isso. Mas não fui eu quem te colocou no lugar. Você não está se sacrificando, como disse. Você escolhe ficar à margem porque tem medo; porque seu orgulho faz sua cabeça explodir antes de você conseguir sequer ter uma boa ideia. E agora você acorda aos 40 e precisa achar alguém para culpar. Você é o culpado”.
Todas
Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres
Assim como ele, culpamos o parceiro por frustrações e limites que são nossos. Frutos de escolhas que talvez um dia tenham feito sentido, mas hoje pesam. Em vez de seguir num jogo de acusações, por que não conversar e bancar os incômodos e a necessidade de encontrar uma nova forma nesse caleidoscópio?
O que nos sufoca não é a relação, é delegar o próprio desejo em nome do amor. Enquanto você diz “faço por ele”, “faço pela relação”, está terceirizando o que é seu. E terceirizar parece nobre, mas é infantil. Por isso, para serem fiéis ao amor do casal, libertem-se para instituir espaços de fidelidade ao próprio desejo: momentos em que cada um possa ser inteiro, sem culpa, sem confundir prazer individual com omissão. Autonomia não é egoísmo. Saia sozinha com as amigas, vá aos shows que você quer, se permita dizer não para o almoço da sogra para dizer sim para a aula de ioga no domingo. Quando o outro busca prazer fora —em pessoas, hobbies ou projetos—, não se trata de desamor, mas de oxigênio. Liberdade, no amor, não é romper o laço, é deixar espaço para que dois mundos coexistam sem medo de se perder.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP