Ao contrário do que diz o ditado popular, no luto amoroso não é o “tempo o melhor remédio” e sim a distância. Por mais duro e até cruel que o “contato zero” pareça, ele é menos uma punição e mais a forma mais madura de impedir que aquilo que já foi fonte de prazer e regulação emocional se torne uma substância psíquica de alto potencial aditivo.
Quando pensamos em dependência no amor, imaginamos a dependência emocional instalada durante a relação. Mas ignoramos outra, mais silenciosa e danosa: a que nasce depois, quando tentamos manter cordialidade e amizade. O que chamamos de saudade ou cuidado é, muitas vezes, só o circuito da abstinência pedindo mais uma dose do outro. No amor, o salto do usuário ao adicto acontece no instante em que tentamos parecer civilizados demais para cortar vínculo. Manter contato parece honrar a história, mas frequentemente é uma forma perigosa de morrer de novo —e de novo.
Marília Mendonça e Gustavo Mioto, reis da sofrência, já cantavam: “Recomendam cortar o que te faz mal; Feito quem tem pressão alta e tem que evitar o sal…Você é o vício mais difícil de perder… A partir de agora é restrição sentimental”. O paralelo entre término amoroso e vício não é apenas metáfora ou letra de sofrência, é um achado neurobiológico. Helen Fisher —antropóloga referência na bioquímica do amor, que tive a honra de entrevistar— descobriu que fisiologicamente o amor opera como uma droga potente. Como toda droga, no início do uso a dopamina inunda o corpo e nos faz caminhar como Gene Kelly “singin’ in the rain”. O cérebro aprende rápido: aquela pessoa vira a tal “fonte de recompensa”. E nós, como bons ratinhos do nosso laboratório sentimental, seguimos acionando os mesmos circuitos em busca de mais um gole dessa química deliciosa chamada amor. Até que a relação termina. A fonte de dopamina seca, e o corpo reage.
E, como se não bastassem nossas crises existenciais, o corpo sofre suas próprias crises de abstinência enquanto o organismo inicia seu próprio colapso químico: o cortisol dispara, a serotonina se desorganiza e até os opioides endógenos —substâncias que produzimos para amortecer a dor— entram em colapso. E é justamente aí que a dor do término revela seu duplo contorno: não é apenas emocional, é física. O estudo de Ethan Kross demonstra que qualquer contato com o ex reativa no cérebro as mesmas áreas da dor física. Não é metáfora: é o organismo registrando perda como ferida.
E, para abafar a dor, entramos numa fissura afetiva: a urgência de ouvir a voz do outro, garantir que ainda existe um resto de nós ali. Essas micro aproximações, mesmo as mais cordiais, aliviam na hora, mas produzem ressaca emocional. É o terreno do reforço intermitente: presença pingada, sumiços, conversas que reacendem por instantes e logo se apagam. A proximidade ambígua vicia mais do que o amor correspondido porque alimenta fantasias e ideais que, no fundo, já faltavam à relação.
Dizemos que “não conseguimos” nos afastar, quando o que não queremos é encarar a distância emocional que o outro já instaurou. Não queremos sentir o barulho do silêncio. E hoje, com a hiperconectividade, o ex não some: ele aparece no feed, nos stories, no WhatsApp. A tecnologia virou um “dealer” que entrega microdoses de presença —um story solto, um like, uma foto antiga que reaparece. E ainda nos convence de que é falha nossa, não química.
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Somos cruéis com nós mesmos quando nos culpamos por estremecer diante de um post ou por perguntar demais em uma ligação “inofensiva”. Culpamos as reações, em vez de cuidar do que as produz: o estado de vício. Tentamos nos comportar melhor, medir palavras, quando o trabalho psíquico é outro: reduzir a exposição ao objeto.
Freud, em “Luto e Melancolia”, descreve que o sujeito precisa retirar o investimento libidinal do objeto perdido. Esse desinvestimento não é gesto: é processo. Exige tempo, dor, regressão, elaboração e distância —espaço para as muitas mortes simbólicas que acompanham o fim de um amor: quem éramos com o outro, a rotina, os planos, o futuro imaginado… O ex nunca é só uma pessoa: é uma construção interna saturada de ideal e projeção. Enquanto houver troca ou vestígio de presença, essa imagem continua irrigada e cresce mais rápido que a realidade.
Por isso, o “contato zero” funciona como um rehab afetivo: um protocolo de abstinência que requer interrupção total do estímulo, recriação de vias neurais, estabilização emocional e distância física e digital. É também um ritual de passagem: um intervalo que devolve espaço psíquico para sentir o vazio e atravessá-lo.
E, quando entendemos isso, percebemos que a distância não apaga nada. Ela apenas permite que o amor se transforme sem que vocês definhem; que a história pare de doer e possa, um dia, ocupar outro nome dentro de nós: memória, aprendizado, leveza ou, quem sabe, amizade. Mas só depois que os vícios se forem.
E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.
Fonte ==> Folha SP