Hamlet habita a ruína no Cine Copan – 02/04/2026 – Mise-en-scène

Hamlet habita a ruína no Cine Copan - 02/04/2026 - Mise-en-scène

Há algo de ritualístico em sentar-se onde antes ficava a tela do Cine Copan e observar a ação vertendo-se pelo declive da antiga plateia. Rafael Gomes opera uma inversão que é, simultaneamente, espacial e filosófica: o espectador torna-se testemunha de um mundo que desaba morro abaixo, literalmente. O espaço em ruínas é um interlocutor ativo. Vigas expostas, paredes descascadas e o silêncio cortado apenas pelo sistema de climatização compõem uma dramaturgia arquitetônica que engole os atores e os devolve transformados, como sobreviventes de um naufrágio.

Gabriel Leone encarna um Hamlet que recusa a monumentalidade clássica. Sua preparação em commedia dell’arte revela-se na alternância visceral entre a hesitação intelectual e a explosão física. Num momento, ele sussurra solilóquios entre os espectadores, rompendo a quarta parede com uma cumplicidade quase incômoda; no outro, ocupa sozinho a vastidão do espaço, e o eco de sua voz parece emanar das fundações do edifício. Aos 32 anos, Leone equilibra a impetuosidade juvenil e a consciência da falência. É um príncipe em fratura, cujo corpo traduz a paralisia moral de uma época.

O elenco respira como um organismo único sob a direção de Gomes. Samya Pascotto constrói uma Ofélia que subverte o clichê da loucura passiva — sua cena de morte, visualmente deslumbrante, carrega a precisão de um gesto político contra a brutalidade ao redor. Susana Ribeiro e Eucir de Souza, como Gertrude e Cláudio, movem-se com a gravidade de quem habita uma ordem corrompida, com seus corpos tão marcados pela opulência dos figurinos de Alexandre Herchcovitch quanto pela crueza do ambiente. A direção de movimento de Fabrício Licursi garante que os 13 atores utilizem as passarelas e escadarias como extensões de seus conflitos internos, criando uma coreografia de vigilância e conspiração que nunca cessa, mesmo nos silêncios.

A luz de Wagner Antônio esculpe o espaço sem domesticá-lo. Manchas de infiltração tornam-se texturas dramáticas; a penumbra engole personagens inteiras, devolvendo-as apenas quando a cena exige. É um teatro de ruína e resiliência, onde cada gesto carrega o peso de um prédio que se prepara para a reinvenção. O que resta, ao fim, é a sensação de ter assistido a uma possessão — do espaço pelo texto, dos atores pelo espaço e de todos nós pelo assombro de um príncipe que encontrou um castelo à sua altura.

Três perguntas para…

… Rafael Gomes

O título Sonhos que Virão desloca o foco do “ser ou não ser” para a especulação sobre o que nos aguarda. O que essa escolha diz sobre a leitura que você e Bernardo Marinho fizeram do texto?

O desejo que moveu esse projeto sempre foi o de realizar uma encenação site-specific, nas ruínas de um cinema abandonado – portanto, um antigo palácio da cultura, um templo da imaginação e de seus universos possíveis. Nesse sentido, meu desejo era que o subtítulo dialogasse com esse mundo do que já não é mais em sua forma física, mas que de alguma forma ainda habita um local abandonado e sua concretude: os fantasmas, a arqueologia factual e afetiva, os pesadelos e os sonhos (que virão). E essa leitura, que dialoga com as projeções, a memória e os vestígios internos e externos, foi justamente uma de nossas bússolas na adaptação.

A tradução utilizada é a de Aderbal Freire-Filho, Wagner Moura e Barbara Harrington — conhecida por sua fluidez. Como essa versão do texto dialoga com a ocupação espacial que você propõe?

No local onde estamos encenando, a peça ganha proporções expandidas – trata-se de um espaço vasto e agigantado, tanto no sentido literal quanto no sentido simbólico. De modo que a relação com a plateia já nasce diferente do que aconteceria em um palco tradicional. E o desejo de comunicação plena sempre foi nosso norte: fazer essa trama, esses personagens e suas paixões, a relação entre eles e seus muitos desencaixes dialogarem da forma mais horizontal possível com o público. A escolha por uma tradução que descomplicasse a linguagem, sem achatá-la ou reduzi-la, foi e é, portanto, central nesse objetivo.

Hamlet é frequentemente lido como uma tragédia política, mas sua montagem parece privilegiar o enigma do desejo e a paralisia decorrente de impasses internos. Essa escolha tem relação com o momento contemporâneo?

Penso que tem a ver com o que ainda nos move no desejo de encenar essa história de mais de 400 anos. Aquilo que é de qualquer tempo e qualquer espaço, e dispensa geografia e contexto histórico para fazer sentido. Mas suprimir a trama mais diretamente política da peça, a meu ver, não diminui suas reverberações políticas. Existir, afinal, é um exercício de política. Este protagonista dilacerado entre um projeto de futuro e o fardo do passado, com seu enorme desejo de vida atravessado por circunstâncias que demandam dele a brutalidade e a violência, essa é uma trama contemporânea a qualquer momento do mundo. Logo, sim, a escolha tem também a ver com a construção de pontes para a reflexão e a experiência das plateias deste presente em que estamos.

Nu Cine Copan – av. Ipiranga, 200 – República, região central (entrada pela galeria do Copan). Quarta, 20h. Quinta, 17h e 20h30. Sexta, 20h. Sábado, 16h e 20h. Domingo, 17h. Temporada prorrogada até 3/5. Duração: 175 minutos (sem intervalo). Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00 em nucinecopan.byinti.com



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 - 3 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.