Artigo de opinião analisa implicações éticas do uso off-label do medicamento e alerta para riscos clínicos e coletivos
O debate sobre o uso do Mounjaro fora da indicação formal ganhou novos contornos com a publicação de um artigo assinado pela estudante de medicina Bianka Passos Ponciano, em São Paulo. No texto, a autora questiona se a prescrição do medicamento fora dos critérios clínicos estabelecidos pode ser considerada, em determinados contextos, uma prática eticamente problemática.
O Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, foi aprovado para o tratamento do diabetes tipo 2. Estudos clínicos demonstraram sua eficácia no controle glicêmico e também na redução de peso. No entanto, a crescente procura pelo medicamento com finalidade predominantemente estética ou para emagrecimento acelerado ampliou o debate no meio médico.
Uso off-label e responsabilidade médica
A prescrição off-label — isto é, fora das indicações descritas em bula — é prática reconhecida na medicina e pode ser legítima quando respaldada por evidências científicas. O ponto central levantado no artigo, porém, é o momento em que essa exceção passa a se tornar regra.

Segundo a autora, a pressão exercida por expectativas sociais, influenciadores digitais e pela cultura de resultados rápidos pode deslocar o foco da avaliação clínica criteriosa para uma lógica de negociação entre médico e paciente.
O texto ressalta que autonomia do paciente não equivale à transferência da responsabilidade técnica da decisão. A prescrição médica envolve análise de riscos individuais e coletivos, além de critérios científicos consolidados.
Complexidade do tratamento do excesso de peso
Outro ponto abordado é a necessidade de avaliar o excesso de peso dentro de uma perspectiva multifatorial. Fatores metabólicos, hormonais, emocionais e sociais devem ser considerados antes da adoção de terapias medicamentosas.
O artigo defende que a substituição de estratégias como educação alimentar, atividade física orientada e acompanhamento psicológico por medicamentos de alto custo pode representar um empobrecimento do cuidado em saúde.
Impacto coletivo e acesso ao tratamento
A discussão também se estende ao impacto sistêmico do uso indiscriminado de medicamentos de alto custo. A ampliação da demanda pode pressionar cadeias de fornecimento, encarecer tratamentos e comprometer o acesso de pacientes que dependem dessas terapias para controle de doenças crônicas.
Para a autora, a ética médica ultrapassa o consultório e envolve responsabilidade social, justiça distributiva e compromisso com o sistema de saúde como um todo.
O dilema entre demanda e responsabilidade
O artigo conclui que o debate em torno do Mounjaro vai além de um medicamento específico. Ele reflete um dilema histórico da medicina: equilibrar a expectativa imediata do paciente com a responsabilidade técnica do profissional.
“Entre atender à demanda e sustentar a responsabilidade, a decisão não está apenas na caneta que prescreve, está na consciência de quem escolhe usá-la”, escreve.
Sobre a autora
Bianka Passos Ponciano é estudante do terceiro ano de Medicina na Universidad Central del Paraguay (UCP), com participação em projetos de extensão universitária e atividades acadêmicas nas áreas de pediatria, saúde mental, microbiologia e terapia intensiva. Atua em iniciativas acadêmicas voltadas à formação clínica e ética médica.