O discurso que promete amor, mas entrega violência – 25/03/2026 – Amor Crônico

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“Enquanto você estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito… Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor tem regras a cumprir” e “Eu te trato como todo macho alfa trata sua esposa, com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta submissa, como toda mulher casada deve ser” são algumas das mensagens enviadas pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto à esposa, Gisele, dois dias antes de sua morte. Diante de mais um provável caso de feminicídio, o horror nos paralisa e, quando o pior acontece, as mensagens se tornam claros indícios de violência psicológica e coerção. Mas e até lá?

O que assusta é perceber que esta mesma linguagem vem sendo ensinada e romantizada como nova linguagem do amor: para homens, através da machosfera, que atualiza o “marido provedor” como bom chefe da família; para mulheres, via crescimento das tradwives como nova referência de uma vida plena e menos sobrecarregada.

As duas narrativas partem do mesmo mecanismo perverso, a manipulação da impotência. É urgente notar que a agressividade e a submissão não são publicizadas de forma direta. Seduzem por que são embaladas em conceitos como “energia masculina e feminina” que soam quase terapêuticos e prometem retorno à complementaridade e à completude sem atritos (amarga ilusão…).

Esses discursos não chegam como ódio. Chegam como solução. A manipulação da impotência que mata prometendo vidas com mais amor prospera porque oferece uma resposta total ao mal-estar contemporâneo —com acesso bônus ao resgate de ideais românticos. Não se vende misoginia, vende-se ordem. Não se vende submissão, vende-se harmonia.

Para mulheres exaustas da sobreposição de tarefas e do pouco reconhecimento e para homens atravessados pela sensação de fracasso em um sistema que lhes prometeu mérito, mas lhes devolveu instabilidade e perda de lugar, a promessa é a mesma: reorganização. Uma vida “em ordem”, onde cada um ocupa seu papel e a angústia parece, enfim, contida.

Essa propaganda enganosa seduz porque reduz a indeterminação e, com isso, alivia a angústia. Há cada vez mais sujeitos capturados por essa promessa narcísica de reorganização de si. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma disputa de ideias sobre gênero, mas um verdadeiro mercado de subjetivação.

Este mecanismo é retratado com precisão no documentário Louis Theroux: Por Dentro da Manosfera, que tangencia uma hipótese psicanalítica: trata-se de uma ideologia que se organiza a partir do trauma, oferecendo contornos para reparar infâncias marcadas por ausências, agressividade, humilhação e solidão. Vemos atualmente o trauma ser capturado, simplificado e convertido em ação em vez de ser validado e elaborado. Para os homens, isso frequentemente se traduz em domínio e ressentimento; para as mulheres, em idealização e adaptação —formas distintas de responder à mesma ferida.

Não por acaso, esses discursos se apoiam em promessas concretas de reorganização: um corpo mais forte, mais dinheiro, mais reconhecimento. A chamada potência deixa de ser experiência psíquica e vira performance mensurável para homens e mulheres. Uma espécie de atalho para não lidar com a falta.

É incômodo ouvir, tanto no documentário como nos perfis de tradwives, uma suposta “consciência” do mecanismo a que se submetem. Porque, naquilo que Ferenczi chamou como confusão de línguas, vemos mulheres nomeando dependência como “natureza feminina”, controle como cuidado e invasões como provas de amor: o homem que aparece sem aviso na sua casa, mesmo depois de você ter pedido espaço; que interrompe encontros com amigas com chamadas de vídeo pra ver “se está tudo bem”. O que se apresenta como gesto romântico é, na prática, interdição: da agenda, dos vínculos, dos espaços e do desejo.

Talvez a torção mais grave seja a que nomeia submissão como escolha e, pior, como escolha inteligente. Como se trocar a exaustão de uma vida sobrecarregada e pouco reconhecida por uma outra forma de submissão, agora romantizada, que promete amparo e estrutura, fosse um ótimo negócio. (Qual é o preço da renúncia da própria autonomia?)

Gisele não confundiu as línguas. Nomeou a violência. Ainda assim, foi vítima. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, em 2025 foram concedidas mais de 629 mil medidas protetivas; só em janeiro de 2026, mais de 53 mil. Ainda assim, milhares de mulheres não conseguem nomear o que vivem como violência. Assim como cresce o número de homens que aprendem a nomear domínio como cuidado.

Voltamos à confusão de línguas: não se trata de cuidado ou respeito. Não se trata de papéis naturais e biológicos. Infelizmente, não, não se trata de um caminho possível para um amor que fortalece o casal. Se quisermos interromper esse ciclo, não basta denunciar a violência quando ela explode. É preciso desmontar a linguagem que a prepara, a sustenta e, muitas vezes, a chama de amor.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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