O espetáculo “Jeca – Um Povo Ainda Há de Vingar”, do Grupo 59 de Teatro, parte do álbum “Refazenda” (1975), de Gilberto Gil, para construir uma dramaturgia que reflete sobre raízes, ancestralidade e resistência. A peça propõe um replantio cultural, se deslocando do estereótipo ao revisitar a figura do Jeca como agente de transformação.
Sob direção, cenário e figurino de Kleber Montanheiro, a montagem busca uma unidade visual orgânica, distante do brilho convencional do teatro musical, estilo Broadway. A dramaturgia, assinada por Lucas Moura da Conceição, com poemas cênicos de Marcelino Freire, extrai do disco não apenas as músicas, mas sua estrutura narrativa e temas — como ecologia, retorno e memória. A direção musical de Marco França reconstrói as canções como elementos dramáticos, integrando-as à jornada do protagonista.
O espetáculo acompanha Jeca em seu retorno à terra natal, onde reencontra paisagens, afetos e símbolos — como o abacateiro, que funciona como eixo de memória. A peça opera com um tempo não linear, usando a ancestralidade como motor para essa travessia.
O elenco de dez atores do Grupo 59 contribui para que Jeca se torne um mito coletivo. A representatividade em cena reforça a ideia de um povo plural, em constante processo de renascimento.
A opção estética do grupo recusa modelos importados, priorizando a pesquisa e a autoralidade. Trata-se de um teatro que valoriza a simplicidade e a força do ator, em sintonia com o que a dramaturgia chama de “tecnologia do sertão” — uma sabedoria prática, ligada à terra e ao trabalho.
O subtítulo “Um Povo Ainda Há de Vingar” funciona como afirmação de esperança ativa. A peça dialoga tanto com o contexto original do álbum — lançado em 1975, durante a abertura política — quanto com o presente, sugerindo que a arte segue como instrumento de reorganização e resistência.
Três perguntas para…
… Marco França
O “Refazenda” é um álbum íntimo, quase uma conversa. Como foi transformar essa atmosfera em uma linguagem dramática para o palco? Que elementos precisaram destacar ou rearranjar para que a música conduzisse a narrativa?
Eu acho que é a primeira vez que o Grupo 59 está dentro de um gênero musical. Eles tinham esse desejo de viver a experiência. Não à toa convidaram o Kleber Montanheiro para dirigi-los. O Kleber, por sua vez, me convidou.
Acredito que tem uma simplicidade nessa forma de conduzir a música, que já estava muito presente no próprio trabalho do 59. O meu compromisso com essa obra era conduzi-los dentro das suas habilidades, respeitando o caminho que o grupo já tinha traçado, para tentar aproveitar essas potencialidades de cada um dentro desse coletivo.
Tudo se deu de uma forma muito natural, orgânica, tentando aproveitar ao máximo a presença deles como performers, tocando instrumentos. Isso está presente no violão do Thomas, no berrante da Miriam, em toda a percussão encabeçada pelo Fernando Vicente. Todo mundo bota a mão em algum instrumento.
Desde o primeiro momento, quando a gente escuta pela terceira vez o berrante como um sinal, todo mundo já está tocando, já tem um instrumento na mão. Eu acho que isso é tão potente no teatro de grupo que busca a linguagem popular como fio condutor, uma linguagem que fala comigo e me diz respeito. Eu me identifico.
A peça propõe uma “tecnologia do sertão” e rejeita um certo brilho de musical. Como essa ideia se traduziu nas suas escolhas sonoras? Houve uma busca por uma certa aspereza ou organicidade nos arranjos?
Para mim talvez seja mais fácil botar a mão em clássicos shakesperianos. Talvez eu já tenha um pouquinho mais de habilidade de pegar uma dramaturgia já existente, mas tão genial como a obra do Shakespeare, e não ter o pudor de trabalhar em cima dele, do que uma obra inédita. Porém, se tratando no universo de um artista que eu tanto admiro…
Eu acho que o que torna essa obra atual é o fato de Gil ser atemporal. O Gil é o próprio rei-tempo, esse tempo-rei, um orixá na terra. De verdade, eu acho que eu iria dar vexame se eu o conhecesse pessoalmente. Não sei o que seria de mim, pobre mortal.
A obra é muito genial, ela já era muito à frente do seu tempo e continua sendo. É de uma sensibilidade absurda em absolutamente tudo, seja nas letras, nos arranjos, nas melodias, na harmonia. E o Gil está no centro disso.
Eu tentei ao máximo preservar o arranjo original da obra, sem ferir, e ao mesmo tempo podendo me apropriar disso para também me colocar como um artista criador que dialoga com essa obra de forma criativa.
“Refazenda” carrega marcas de seu tempo (1975). Como foi equilibrar o respeito à obra original com a necessidade de torná-la falante para o público de hoje? O que, na sua opinião, esse álbum tem de tão atual que ressoa cinquenta anos depois?
Minha missão mais importante era não atrapalhar a obra genial do Gil. Tentar manter ao máximo a sua essência, respeitando a maior parte dos arranjos originais. Por mais que seja um disco muito diverso em sonoridade, ele consegue manter a base da banda que está presente na nossa montagem. A exceção é a rabeca, o único elemento que não está nos arranjos originais, mas que eu sabia que ia se agregar muito bem. Manter a presença do baixo com tanta personalidade, da bateria, dos próprios violões do Gil e da sanfona de Dominguinhos.
Minha maior preocupação era não atrapalhar a própria obra, dialogando com a dramaturgia, que aí sim, conseguiu costurar tudo de uma forma muito inteligente. A escolha de cada música para cada momento se deu de uma maneira orgânica. A dramaturgia também foi construída para conseguir abraçar e receber cada música como uma luva.
Talvez minha maior dificuldade tenha sido na composição das sete canções originais, que precisavam dialogar com esse repertório. Esse foi o grande barato, um exercício de entender o que tinha de comum em tudo isso e brincar de pensar, com ousadia, como o Gil pensaria. Compor a partir das letras, que boa parte veio da proposta do Lucas Moura, outras do próprio elenco. Foi um grande prazer brincar de ser Deus, assim como o Gil é para mim.
Sesc Consolação – rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, região central. Qui. a sáb., 20h; dom., 18h. Até 23/11. Duração: 120 minutos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades
Fonte ==> Folha SP