Quando a violência contra mulher chega travestida de amor – 23/03/2026 – Natalia Beauty

Mulher com blusa roxa sem alças exibe no peito a frase escrita

Durante muito tempo, vendemos a ideia de que certos comportamentos masculinos eram sinal de cuidado, de proteção, de liderança. O homem que quer saber onde você está, que opina sobre suas escolhas, que se coloca como responsável por “guiar” a relação foi, em muitos contextos, interpretado como alguém comprometido. Mas, quando se observa com mais atenção, o que muitas mulheres estão vivendo não é proteção, é controle. E o mais perigoso é que esse controle chega travestido de amor.

O problema raramente começa de forma explícita, ele se constrói em pequenas concessões. Primeiro, você evita uma roupa. Depois, revê uma amizade. Em seguida, começa a medir palavras, reações e até decisões profissionais para evitar conflito. Sem perceber, deixa de negociar a relação e passa a se adaptar a um modelo em que o outro define o limite do que você pode ser.

Esse modelo tem nome, ainda que muitos tentem suavizá-lo: é a lógica do chamado “macho alfa”. Um discurso que não se apresenta como imposição, mas como ordem natural. Ele não manda, ele “orienta”. Não controla, ele “cuida”. Não reduz, ele “protege”. E, nesse jogo de linguagem, muitas mulheres vão abrindo mão da própria autonomia acreditando que estão sendo valorizadas.

O caso recente do tenente-coronel suspeito de matar a esposa escancarou esse padrão de forma brutal. Nas mensagens trocadas entre eles não há apenas conflito conjugal, há uma estrutura de pensamento. Em um dos trechos, ele se descreve como “rei”, “provedor”, “soberano”. Em outro, afirma que trata a esposa “como todo homem macho alfa trata sua mulher” e completa com a definição do papel feminino: “obediente e submissa, como toda mulher casada deve ser”. Não se trata de um descontrole momentâneo, mas de uma visão de mundo.

A própria vítima, em mensagens anteriores, já verbalizava o desgaste: falava em falta de respeito, em humilhação recorrente, em não aceitar mais ser tratada de qualquer forma. Ou seja, os sinais estavam lá, não no momento final, mas muito antes dele.

Justamente aí mora o ponto mais importante dessa discussão, o de que relações abusivas não começam com violência extrema, mas com pequenas distorções de poder que vão sendo normalizadas. Começam quando uma mulher passa a duvidar da própria percepção, quando pede desculpa por reações legítimas, quando aceita ser chamada de difícil, exagerada, louca, desequilibrada ou emocional demais.

Nos últimos anos, o Brasil tem registrado um aumento preocupante nos casos de feminicídio. Não se trata apenas de números, mas de um padrão que se repete com uma lógica assustadoramente semelhante: relações marcadas por controle, escalada de tensão, tentativas de ruptura por parte da mulher e, como resposta, violência extrema. Quando um caso desses vem à tona, a indignação não está apenas no crime em si, mas se amplia na forma como a sociedade reage a ele.

A cena do suspeito chegando ao presídio, sem algemas, sendo recebido com abraços, como se estivesse sendo acolhido e não responsabilizado, expõe uma camada ainda mais profunda do problema. Não se trata de um episódio isolado, mas de um reflexo de como, em determinados contextos, esse tipo de comportamento ainda encontra validação, compreensão ou, no mínimo, complacência, e isso é inaceitável.

Porque, quando a violência contra a mulher deixa de causar ruptura e passa a ser absorvida com naturalidade, o problema deixa de ser apenas individual e passa a ser estrutural. Isso exige uma resposta que vá além da comoção momentânea.

Punições mais severas precisam deixar de ser discurso e se tornar prática efetiva. A sensação de impunidade ainda é um dos principais combustíveis para a repetição desses crimes, mas não basta punir depois, é preciso atuar antes, preventivamente.

Políticas públicas precisam avançar com urgência, especialmente dentro das escolas. Educação emocional, respeito, compreensão de limites, noção de autonomia e igualdade de gênero não podem ficar em segundo plano. Precisam fazer parte da formação básica, porque é ali, muito antes de qualquer relacionamento adulto, que se constroem as referências de poder, respeito e convivência.

Ao mesmo tempo, é preciso romper com a romantização de comportamentos que, na prática, são sinais claros de controle. O discurso do “homem dominante”, do “provedor que decide”, da “mulher que cede para manter a harmonia” ainda circula com força, muitas vezes validado socialmente, replicado nas redes e até incentivado como modelo ideal de relacionamento. Não é.

O mais perigoso é que, na superfície, muitas dessas relações parecem estáveis. Não há gritos constantes, não há necessariamente agressões físicas visíveis. O que existe é uma dinâmica de redução. A mulher continua presente, mas cada vez menor dentro da própria vida. E talvez esta seja a pergunta mais importante, e também a mais ignorada: você está se tornando mais livre dentro da sua relação ou mais condicionada? Mais segura ou mais cautelosa? Mais você ou uma versão adaptada para caber no conforto do outro?

O que esse caso extremo revela não é uma exceção desconectada da realidade. Ele expõe, de forma crua, a versão final de uma lógica que, em muitos relacionamentos, começa de forma quase imperceptível.

Amor não exige submissão, não precisa de hierarquia, e toda vez que alguém tenta te convencer do contrário não está oferecendo cuidado. Está, lentamente, redesenhando os limites da sua liberdade.



Fonte ==> Folha SP

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