Relacionamento amoroso não é lugar para sentir medo. É, ou pelo menos deveria ser, um espaço de acolhimento, proteção, parceria e segurança emocional. Ainda assim, cada vez mais casais convivem com um sentimento silencioso que se instala aos poucos e, quando não percebido, passa a conduzir comportamentos, decisões e conflitos: o medo.
Medo de perder. Medo de não ser suficiente. Medo de ser trocado. Medo de ser traído. Medo de ser abandonado.
Quando esse medo começa a guiar atitudes dentro da relação — seja por meio de ciúmes excessivo, tentativas de controle, necessidade constante de confirmação ou até pelo silêncio defensivo — é preciso acender um sinal de alerta. Segundo o psicólogo e palestrante Paulo Zago Neto, o amor não combina com medo constante.

Paulo Zago Neto
“Relacionamento amoroso não é lugar para sentir medo. É lugar para se sentir amparo, proteção, amor, companheirismo. Se você está sentindo medo dentro deste relacionamento, é bem provável que seja hora de repensar. A tendência, quando isso não é tratado, é que as coisas piorem com o tempo”, afirma.
O medo dentro de uma relação costuma se manifestar inicialmente pelo ciúme. E é importante deixar claro: nem todo ciúme é destrutivo. Existe o ciúme saudável, aquele que nasce da importância que o outro tem na nossa vida, da consciência de que valorizamos aquele vínculo. É um sentimento proporcional, que pode ser dialogado, que não invade nem sufoca. Ele não interfere na liberdade do outro nem tenta controlar sua rotina.
O problema surge quando o ciúme deixa de ser uma reação pontual e passa a interferir diretamente na individualidade do parceiro. Quando começam as restrições de lugares, as desconfianças constantes, as cobranças exageradas, a fiscalização de redes sociais, a necessidade de senhas, a exigência de comprovações contínuas. Nesse momento, já não estamos falando de cuidado, mas sim de insegurança.
“O ciúme doentio começa a roubar você de você mesmo. A pessoa já não pode ir a determinados lugares, já não pode conversar com quem deseja, começa a perder sua identidade para manter o outro tranquilo. Isso não é amor, é medo”, explica Neto.
Por trás do ciúme patológico geralmente existem problemas de autoimagem e insegurança profunda. Pessoas que não se sentem suficientes, que carregam medo intenso de abandono ou que constroem sua autoestima exclusivamente na validação do parceiro tendem a desenvolver comportamentos de controle.
A boa notícia, segundo o psicólogo, é que isso pode ser tratado. Mas o primeiro passo é reconhecer que há um problema.
Na experiência clínica de Paulo Zago Neto, esse tipo de insegurança aparece com maior frequência entre mulheres, especialmente em razão de fatores culturais que historicamente reforçam comparação, padrões irreais de beleza e a ideia de substituição constante. Isso, porém, não significa que homens estejam imunes. Eles também sofrem com insegurança afetiva, embora muitas vezes a expressem de maneira diferente, por meio de atitudes mais rígidas ou dominadoras. O ponto central não é o gênero, mas a presença de medo mal elaborado.
Se antes os relacionamentos já enfrentavam inseguranças internas, hoje existe um fator externo que intensifica esse cenário: as redes sociais.
Vivemos a era da comparação permanente. Fotos de viagens perfeitas, declarações públicas apaixonadas, corpos impecáveis, presentes surpresa, comemorações cinematográficas. O feed parece um desfile contínuo de relacionamentos ideais.
Mas existe uma pergunta simples que desmonta essa ilusão: alguém já viu uma briga publicada no Instagram? Já viu uma traição exposta com orgulho? Já viu alguém postar a cobrança de uma dívida ou uma crise conjugal?
As redes sociais mostram palco, não bastidor. Mostram recortes editados da realidade. E quando alguém começa a comparar o próprio relacionamento com aquilo que vê online, cria-se uma régua impossível de alcançar.
“A comparação, por si só, já é danosa. Dentro de um relacionamento amoroso, ela pode ser devastadora. Nós acabamos comparando o nosso bastidor com o palco do outro. Ninguém posta derrota. Ninguém posta crise. E é aí que começam inseguranças que muitas vezes não têm nenhuma relação com a realidade do casal”, alerta Neto.
A ansiedade surge quando a pessoa passa a interpretar curtidas, seguidores, comentários e interações digitais como ameaças concretas. O medo deixa de ser uma reação a fatos reais e passa a ser alimentado por hipóteses. Pequenos detalhes ganham proporções gigantescas. A imaginação ocupa o lugar do diálogo.
O medo de perder, quando não é administrado, pode provocar exatamente aquilo que se deseja evitar. Em quase oito mil horas de atendimento clínico, Paulo Zago Neto afirma já ter presenciado relacionamentos se encerrarem não por falta de amor, mas pela presença constante da desconfiança.
“O medo nos faz fazer coisas que jamais pensaríamos em fazer se ele não estivesse presente. Já vi relacionamentos acabarem porque uma pessoa tinha tanto medo de ser traída que passou a tratar o outro com agressividade, cobrança excessiva e desconfiança constante. O medo acabou provocando o desgaste que levou ao término.”
Esse comportamento cria um ambiente emocional de tensão permanente. E viver sob suspeita contínua desgasta até mesmo vínculos que eram saudáveis. A pessoa que se sente constantemente testada ou investigada tende a se afastar emocionalmente, criando um ciclo que retroalimenta a insegurança.
Transformar medo em maturidade exige coragem. E o primeiro movimento é o diálogo. O outro só pode compreender aquilo que é comunicado. Silenciar sentimentos não os elimina; apenas os transforma em comportamentos defensivos.
“Se eu não me abro, se eu não expresso o que estou sentindo, o outro não tem como adivinhar. Para transformar medo em confiança, é preciso falar. É preciso vulnerabilidade”, orienta o psicólogo.
Vulnerabilidade não significa acusar. Significa admitir insegurança. Significa dizer que algo dói, que algo preocupa, que algo precisa de acolhimento. Quando o medo é exposto com honestidade, ele deixa de ser um fantasma silencioso e passa a ser um tema possível de ser trabalhado.
No entanto, há um aspecto fundamental: o parceiro precisa acolher. Se não há espaço para escuta, se as emoções são ridicularizadas ou desconsideradas, é preciso questionar a saúde desse vínculo.
“Se o seu companheiro ou companheira não acolhe suas necessidades e não valoriza aquilo que é importante para você, talvez este relacionamento não seja saudável como pensa.”
Outra situação recorrente é quando a perda se torna frequente na história afetiva de alguém. Términos sucessivos podem gerar um medo crônico de abandono. Cada novo relacionamento passa a ser vivido com expectativa negativa. A pessoa entra já esperando que acabe. E esse estado permanente de alerta interfere na espontaneidade do vínculo.
Nesses casos, Neto defende que é preciso rever critérios antes de iniciar uma nova relação. Ele costuma dizer que talvez seja o momento de investir mais atenção no “recrutamento e seleção” do futuro parceiro. Observar sinais, comportamentos, coerência entre discurso e prática.
“Em quase 100% das vezes, em algum momento a pessoa mostra quem realmente ela é. O problema é que muitas vezes escolhemos ignorar.”
Ignorar sinais em nome da paixão pode custar caro emocionalmente. Aprender com padrões repetitivos é sinal de amadurecimento, não de frieza.
Relacionamento saudável não elimina completamente o medo — afinal, amar envolve risco. Mas ele não pode ser dominado por ele. O medo eventual é humano. O medo permanente é sintoma de algo que precisa ser cuidado, tratado.
A maturidade emocional passa pelo autoconhecimento, pela comunicação clara e por escolhas conscientes. Amor saudável amplia horizontes. Medo constante restringe, sufoca e limita além de adoecer.
Em tempos de exposição digital intensa e comparações incessantes, proteger a saúde emocional tornou-se um desafio diário. Reconhecer inseguranças não é sinal de fraqueza. Buscar ajuda profissional não é exagero. Rever padrões não é fracasso. É responsabilidade emocional.
Quando o medo entra na relação, ele precisa ser enfrentado com diálogo, consciência e, se necessário, apoio especializado. Porque relacionamento amoroso não é lugar para viver em alerta permanente. É lugar para construir confiança, crescimento e parceria verdadeira.
Se você percebe que o medo está conduzindo suas atitudes, interferindo na sua paz ou comprometendo seus vínculos, talvez seja o momento de olhar para isso com mais profundidade. Não para culpar o outro. Não para se culpar. Mas para compreender e transformar.
E, se for preciso, buscar ajuda.
Você não precisa enfrentar isso sozinho.
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