O brasileiro médio trabalha quase cinco meses do ano apenas para pagar impostos. Em 2025, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), o contribuinte precisou trabalhar até 29 de maio exclusivamente para arcar com tributos federais, estaduais e municipais – o que equivale a 149 diasl.
Na prática, isso significa que 40,82% da renda média do brasileiro é destinada ao pagamento de impostos sobre renda, consumo e patrimônio. O percentual aumentou ao longo das últimas décadas. Segundo a IBPT, em 2003, 36,98% dos gastos dos brasileiros eram destinados aos impostos.
O total de dias por ano para arcar com a carga tributária no Brasil também subiu nos últimos anos. Na história, 1988 foi o ano em que os brasileiros precisaram trabalhar menos dias para pagar os impostos, quando foram desempenhados 73 dias de trabalho.
Desde 1994, são necessários mais de 100 dias para pagar tributos. Em 50 anos, praticamente dobrou o número total de dias necessários para o trabalhador pagar os impostos. Veja a média em cada década analisada:
- 1970: 76 dias;
- 1980: 77 dias;
- 1990: 102 dias;
- 2000: 138 dias;
- 2010: 141 dias; e
- 2020: 151 dias.
Quais impostos mais pesam no bolso?
Embora o sistema tributário brasileiro seja composto por dezenas de tributos, os impostos sobre o consumo são os que mais afetam o dia a dia da população. Segundo o presidente-executivo do IBPT, João Eloi Olenike, esse tipo de tributação incide de forma praticamente invisível sobre quase todas as compras e serviços e sobre pessoas de todas as classes sociais.
“Na realidade, todos os tributos consomem tempo e dinheiro do brasileiro, mas os tributos sobre o consumo são os que mais repercutem no dia a dia, como o ICMS, que recai sobre quase todas as operações do nosso cotidiano”, afirma Olenike à Gazeta do Povo.
Além do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), também pesam nos preços de produtos e serviços:
- Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI);
- Programa de Integração Social (PIS);
- Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS ); e
- Imposto sobre Serviços (ISS).
Já sobre a renda, incidem tributos como o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e contribuições previdenciárias. Há ainda impostos sobre o patrimônio:
- Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU);
- Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA); e
- Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD).
Qual a diferença entre os impostos de renda, consumo e produção?
A forma como o imposto é cobrado muda conforme a classificação do tributo. No caso da renda, a tributação incide sobre salários, lucros, ganhos financeiros e rendimentos de capital. Já os tributos sobre o consumo atingem a produção, circulação de mercadorias e prestação de serviços.
“Quase todos os tipos de rendimentos estão sujeitos ao imposto sobre a renda. Sobre o consumo, temos a tributação sobre a produção e circulação de produtos, como ICMS e IPI, além do ISS sobre serviços”, explica o presidente do IBPT.
Essa estrutura faz com que o peso dos impostos seja sentido de maneira diferente conforme o perfil de renda. O estudo IBPT mostra que trabalhadores de renda mais baixa comprometem proporcionalmente mais dias do ano com tributos ligados ao consumo, enquanto faixas mais altas concentram maior peso nos impostos sobre renda.
O chamado “tempo tributário” ajuda a traduzir o impacto da carga tributária na vida cotidiana. Quando quase metade da renda anual é direcionada aos cofres públicos, sobra menos dinheiro para despesas básicas.
“Sempre que há imposição tributária sobre qualquer tipo de ganho, esses valores saem do bolso da população e vão para os cofres dos governos, diminuindo o poder de compra e comprometendo o orçamento das famílias”, afirma Olenike.
Esse efeito se reflete diretamente na economia doméstica. Com menos renda disponível, famílias tendem a reduzir consumo, adiar investimentos e enfrentar maior dificuldade para lidar com despesas inesperadas.
Quanto o Brasil cobra em comparação a outros países?
Em comparação internacional, o Brasil aparece em uma posição intermediária quando se observa a carga tributária convertida em dias de trabalho. Com base em dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) referentes a 2023, o estudo do IBPT indica que brasileiros trabalham naquele ano, em média, 122 dias do ano para pagar tributos nesse critério.
Países como Bélgica e Áustria lideram o ranking, com 156 dias, enquanto na Dinamarca o número chega a 153. Já economias como Estados Unidos (101 dias), Japão (98) e México (62) apresentam carga significativamente menor quando medida dessa forma.
Para o trabalhador, há poucas margens de manobra para escapar dos impostos, mas o planejamento financeiro pode ajudar a reduzir impactos. “Sempre que possível, o trabalhador deve verificar, dentro da sua realidade, o caminho que permita pagar o menor tributo possível por meio de planejamento”, orienta Olenike.
Isso inclui organização de rendimentos, atenção a deduções legais, escolha adequada de regimes tributários para autônomos e microempreendedores e controle mais rigoroso do consumo.
O que muda com a reforma tributária em 2026?
Segundo Olenike, a reforma tributária em discussão no Brasil busca alterar a lógica do sistema, reduzindo a tributação sobre o consumo e ampliando a progressividade.
Um dos pontos mais debatidos foi a criação da Cesta Básica Nacional com alíquota zero, que inclui itens como arroz, feijão, carnes, leite e pão francês. Outro destaque é o cashback tributário, mecanismo que prevê a devolução de parte dos impostos pagos por famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.
Também está previsto o chamado Imposto Seletivo, que incidirá sobre produtos considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas e refrigerantes, o que tende a encarecer esses itens.
Fonte ==> UOL