LEONARDO SANCHEZ
CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Scarlett Johansson talvez seja uma das personalidades hollywoodianas mais versáteis de sua geração. Atriz desde os dez anos de idade, ela acumula papéis tanto em filmes pequenos e autorais -como os de Woody Allen e Wes Anderson-, quanto em megaproduções, caso dos nove longas da Marvel em seu currículo.
Hoje aos 41 anos, ela assume um papel ainda inédito em sua trajetória -o de diretora de longas. Se há cerca de 15 anos ela acompanhou a maré de estrelas americanas que se convertiam em produtores, agora ela faz sua estreia como cineasta com menos sucesso, é verdade, mas nem por isso com menos glamour.
Dono de algumas das sessões mais concorridas do último Festival de Cannes, “A Incrível Eleanor” chega ao Brasil envolto em menos expectativa do que aquela gerada no evento francês, onde integrou a mostra Um Certo Olhar, dedicada a cineastas emergentes.
A estreia nos cinemas brasileiros foi marcada de forma abrupta e não dá para dizer que houve uma campanha de marketing, aqui e lá fora, à altura de um nome como o de Scarlett Johansson -ela era a atriz de maior bilheteria da história de Hollywood até o mês passado, quando foi destronada por Zoe Saldaña, afinal.
Ainda assim, pelo simples fato de ter a americana em seus créditos, “A Incrível Eleanor” é um acontecimento no mundo cinematográfico, e os aplausos efusivos na sessão de estreia de Cannes deixaram isso claro. Mesmo num auditório repleto de críticos e cinéfilos não tão facilmente impressionáveis, Johansson arrancou suspiros e gritinhos.
“Foi tudo uma questão de tempo. Dirigir um filme é algo que te consome muito, de várias maneiras. Você realmente não pode fazer nada em paralelo, não tem vida familiar, não tem tempo para nada”, diz Johansson, acostumada a emendar projetos exigentes e tão díspares quanto “Um Panorama Visto da Ponte”, peça de Arthur Miller que lhe rendeu um Tony em 2010, e “Homem de Ferro 2”, que no mesmo ano apresentou sua Viúva Negra aos nerds.
“Não é uma questão de dar um outro rumo para a minha carreira, mas não acho que eu poderia ter feito este filme, com segurança, há dez anos. Foi uma questão de me sentir confortável para assumir a direção”, continuou ela, em conversa com jornalistas após a première em Cannes.
Ser diretora é uma ideia que orbita sua mente desde os 20 e poucos anos, ela conta. Johansson sabia que o faria em algum momento, mas isso significaria perder papéis para poder se dedicar integralmente à função por um tempo razoável.
Duas indicações ao Oscar, algumas franquias multimilionárias -como “Vingadores” e “Jurassic World”- e muitas parcerias com cineastas de grife depois, ela enfim sentiu que estava pronta. Quando o roteiro de “A Incrível Eleanor” chegou à sua produtora, a These Pictures, foi como se a última peça do quebra-cabeça se encaixasse.
“Muitos diretores de primeira viagem nunca passaram horas e horas num set de filmagem, enquanto eu, como atriz, passei milhares. Então eu não sabia executar o trabalho de todo mundo, mas eu sabia o que cada um precisava para cumprir sua função. Essa preocupação [de não entender as outras funções] eu não tive. Tudo foi como uma extensão do trabalho que eu já faço como atriz há muito tempo”, diz Johansson.
Nem por isso ela foi a veterana em seu set de filmagem. Este era o papel de sua protagonista, a atriz June Squibb, que no auge de seus 95 anos parecia uma debutante enquanto dava entrevista num quarto de hotel de Cannes. Ao lado de Johansson, falava empolgada sobre a festa num barco da noite anterior -“ela ficou parada estrategicamente perto da cozinha”, brincou Johansson.
“Foi um sonho, porque pude trabalhar com alguém que dedicou 70 anos da sua vida ao ofício de ator. Minha última preocupação era com a June”, diz a atriz-diretora sobre a veterana, que estreou nas telonas justamente com Woody Allen, em 1990, com “Simplesmente Alice”. Antes disso, Squibb construiu a carreira nos palcos da Broadway.
Em “A Incrível Eleanor”, ela interpreta uma mulher que divide o apartamento na Flórida com a melhor amiga. Quando a nonagenária morre, Eleanor é obrigada a se mudar para a gélida Nova York, onde divide um apartamento com a filha. Em passeios por parques e restaurantes de fast-food, ela tenta lidar com o luto, mas, incapaz, recorre a um grupo de apoio para pessoas que perderam entes queridos.
Como uma boa dramédia noventista, de onde Johansson buscou inspiração para o tom do filme, Eleanor vai parar, por acidente, num grupo repleto de sobreviventes e descendentes de vítimas do Holocausto. Ela, então, compartilha a história de vida da melhor amiga morta, que viveu num campo de concentração, como sua. A mentira comove e começa a tomar proporções que fogem de seu controle.
É um filme pequeno, mas nem por isso fácil de fazer. Johansson conta que nenhum dos envolvidos fez “A Incrível Eleanor” pensando no dinheiro que ganhariam com o projeto. Pelo contrário -ela é grata à fama de atriz por ter lhe dado uma agenda de contatos vasta o suficiente para sair pedindo favores para filmar em um canto ou outro de Nova York.
Algo facilitado também por sua ligação pessoal com a cidade. Johansson nasceu lá, na ilha de Manhattan, em 1984. A atmosfera noventista que tenta capturar em seu filme é a mesma que foi cenário para a sua infância e juventude.
Apesar de Johansson não ter escrito “A Incrível Eleanor” -o roteiro é da estreante Tory Kamen-, o filme se amarra à sua história pessoal de outras várias formas. Seu pai é dinamarquês e a mãe, judia, tem ascendência polonesa e russa. Há cerca de dez anos, ela descobriu no programa televisivo Finding Your Roots, que vasculha o passado de celebridades, que parte de sua família morreu no Gueto de Varsóvia.
E, em Eleanor, ela vê ainda a própria avó, que cuidou dela depois do divórcio dos pais. Foi com seu apoio que Johansson começou a fazer aulas de sapateado e atuação. Já aos nove anos, participou de uma esquete no talk show Late Night with Conan O’Brien, que emendou com uma série de pequenos papéis no cinema.
A grande virada veio assim que atingiu a maioridade, em “Encontros e Desencontros”, de Sofia Coppola. É curioso que seu primeiro grande trabalho tenha sido sob a batuta de uma diretora, já que Johansson é voz ativa na defesa dos direitos das mulheres -mesmo que, no ano passado, tenha reiterado seu apoio a Woody Allen, acusado de abuso sexual e agora engalfinhado às polêmicas de Jeffrey Epstein.
“A Incrível Eleanor”, mesmo que inofensivo, também dá as mãos a esse ativismo feminista. Em tempos de discussão sobre etarismo, e sobre como ele atinge homens e mulheres de maneira desigual, a personagem de Squibb briga com a família para reconquistar sua independência.
Eleanor quer voltar à Flórida, onde tomava sol e cuidava de si própria, em vez de ficar tricotando em casa. Numa das conversas do filme, ela fala até de sua vida sexual, algo raro para uma nonagenária diante de uma câmera.
“A melhor maneira de mudar esse desequilíbrio, principalmente nesta indústria, é simplesmente ouvir e considerar as ideias das mulheres. Essa é a melhor forma de apoiar diretoras”, diz Johansson, em alusão também à sua nova carreira -sim, ela pretende dirigir mais no futuro.
Ela só não promete constância. “Há uma parte ruim de ser diretora. Você está sempre trabalhando. Quando a filmagem acaba, todo mundo sai para comer pizza junto, menos você, porque ainda tem que planejar o dia seguinte. É um pouco triste, não vou negar.”
Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto