Yôga como estratégia de liderança: por que mulheres de alta performance estão mudando a forma de performar

Mais do que estética ou relaxamento, a prática vem sendo adotada por executivas e empreendedoras como ferramenta de autorregulação emocional, clareza na tomada de decisão e performance sustentável.

O yôga está deixando de ser associado exclusivamente à flexibilidade ou ao descanso e passa a ocupar um espaço estratégico na rotina de mulheres líderes. Em um cenário de sobrecarga constante, múltiplos papéis e alta exigência por resultados, a prática surge como instrumento de preparo emocional e mental para sustentar a performance no longo prazo.

A cultura da produtividade baseada em tensão tem cobrado um preço alto das mulheres que acumulam responsabilidades profissionais e pessoais. A ideia da mulher que dá conta de tudo reforça um modelo de liderança sustentado por esforço contínuo, rigidez e desgaste silencioso. “A mulher líder foi ensinada a ser forte o tempo todo, mas não foi ensinada a regular o próprio estado emocional. Sem essa regulação, qualquer decisão nasce com o reflexo da tensão”, explica Isabelle de Luna.

Segundo ela, alta performance não significa viver em aceleração permanente. “Alta performance não é viver acelerada, sem pausas. É saber equilibrar intensidade e recuperação através da autoconsciência e autopercepção. O yôga ensina exatamente isso.” A proposta é substituir a performance baseada em tensão por uma performance sustentada por consciência corporal e equilíbrio do sistema nervoso.

Com formação em Administração e especializações em Psicologia Organizacional, Coaching e Neurociência, Comunicação e Desenvolvimento Humano, Isabelle direciona sua atuação para mulheres que não podem parar. Após 15 anos de experiência no mercado corporativo, ela integrou conhecimento técnico e prática corporal, para desenvolver um método voltado à regulação emocional aplicada à vida real.

“Muitas profissionais chegam até mim com sucesso externo, mas buscando sobreviver ao caos interno. O trabalho começa quando elas entendem que presença é uma habilidade treinável”, afirma. Para ela, o corpo funciona como um termômetro de esgotamento. “O corpo sempre sinaliza antes de parar. Quando aprendemos a escutar esses sinais, evitamos decisões impulsivas e relações profissionais desgastadas.”

Cada vez mais mulheres em cargos de gestão e em transição profissional buscam esse tipo de suporte para fortalecer a autoeficácia e reduzir a reatividade emocional diante de pressões externas. “Uma liderança feminina sustentável não se constrói apenas com técnica ou estratégia de mercado. Ela exige estabilidade emocional para sustentar pressão sem perder clareza”, conclui Isabelle.

Além da sobrecarga visível, existe um esgotamento mais silencioso que afeta mulheres em posições de liderança: a hiper-responsabilidade emocional e a autocobrança. Muitas assumem o papel de resolver conflitos, sustentar equipes, mediar tensões e, ao mesmo tempo, performar com excelência técnica. Esse acúmulo gera um estado constante de alerta, que impacta diretamente a qualidade das decisões e a capacidade de visão estratégica.

Isabelle de Luna

Isabelle observa que esse padrão não é apenas comportamental, mas fisiológico. “Quando o sistema nervoso opera em modo de sobrevivência, a tendência é decidir a partir da urgência, não da estratégia. A regulação emocional e a autoconsciência devolvem essa capacidade de fazer escolhas conscientes.” Segundo ela, o yôga aplicado de forma estruturada e direcionada atua justamente nesse ponto: reduz a reatividade e amplia o espaço interno entre estímulo e resposta.

Essa mudança tem reflexo direto na forma como mulheres conduzem negociações, lideram equipes e se posicionam no mercado. Ao desenvolver consciência corporal, elas passam a reconhecer sinais sutis de tensão, insegurança ou medo antes que esses estados assumam o controle da comunicação. “Presença não se trata de algo místico, é treino. Quando a mulher aprende a reconhecer e sustentar o próprio eixo, ela comunica segurança sem precisar endurecer”, explica.

Outro ponto central da abordagem é a coerência entre discurso e estado interno. Muitas profissionais sabem exatamente o que precisam dizer em uma reunião ou negociação, mas o corpo comunica ansiedade, pressa ou hesitação. Essa incoerência impacta credibilidade e autoridade. O trabalho corporal, segundo Isabelle, fortalece a integração entre pensamento, emoção e ação, permitindo que a liderança seja percebida de maneira mais consistente.

A busca por esse tipo de prática também está ligada a um movimento maior de revisão de modelos de sucesso. Cada vez mais mulheres questionam se o crescimento profissional precisa necessariamente vir acompanhado de exaustão. O esgotamento deixou de ser símbolo de dedicação e passou a ser sinal de desequilíbrio. Nesse contexto, o yôga surge como ferramenta preventiva, não corretiva.

Isabelle reforça que não se trata de transformar executivas em praticantes isoladas da realidade corporativa. “Eu não trabalho para que mulheres fogem da pressão. Trabalho para que elas ampliem a capacidade de se sustentar essa pressão sem se desorganizar internamente.” Essa diferença redefine a relação com o trabalho e com o próprio desempenho.

Outro aspecto relevante é o impacto nas transições profissionais. Mulheres que assumem novos cargos, mudam de área ou empreendem relatam aumento significativo de insegurança e autocrítica. A prática sistematizada de regulação emocional fortalece a autoeficácia e reduz a dependência de validação externa. Ao desenvolver estabilidade interna, a profissional passa a agir com mais clareza e menos medo de julgamento.

A longo prazo, a integração entre corpo e mente influencia também a cultura organizacional. Líderes mais reguladas tendem a criar ambientes menos reativos, com comunicação mais objetiva e relações mais saudáveis. O resultado não é apenas individual, mas coletivo. Equipes que operam sob liderança emocionalmente estável apresentam maior foco, menor rotatividade e melhor capacidade de adaptação.

Para Isabelle, a mudança mais significativa é simbólica. Durante décadas, a mulher no mercado foi incentivada a provar competência pelo excesso. Hoje, surge um novo modelo, baseado em consciência, sustentabilidade e inteligência emocional aplicada. O yôga, nesse cenário, deixa de ser tendência e passa a ser estratégia.

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