País novo-rico graças à exploração de enormes reservas petrolíferas em alto-mar, a Guiana elegeu a agricultura um setor estratégico e prioritário para os próximos anos — e, para isso, sonha com a parceria de produtores brasileiros. Como diferencial, o governo guianense oferece terras de graça aos agricultores, exigindo apenas que sejam cultivadas. O “match” perfeito, contudo, ainda não aconteceu.
Até agora, foram poucos os parceiros dispostos a aproveitar o potencial inexplorado de 300 mil hectares para cultivo de grãos como milho e soja. Não há entraves ambientais: o plantio ocorrerá em áreas de savana (como o Cerrado brasileiro ou o Lavrado de Roraima), sem tocar nos 86% do território cobertos por floresta.
“Isso aqui é outro mundo, é oportunidade única. Fui chamado de louco quando vim para cá. O que me convenceu foi a facilidade que temos para trabalhar, não há tantos empecilhos em questões ambientais”, conta o paranaense Emílio Araújo, criado em Rondônia e empreendedor no Amazonas.
Araújo deixou Manaus após enfrentar seguidos entraves ambientais no governo Lula. Em apenas três safras no país, expandiu sua operação de 500 hectares para 4 mil, em sociedade com um produtor guianense.
Idioma e falta de georreferenciamento ainda são entraves
As dificuldades, porém, começam pela barreira do idioma — a Guiana é o único país sul-americano de língua inglesa — e passam pela ausência de um mapa georreferenciado das terras agricultáveis, pela falta de análises pluviométricas e por uma formatação ainda incipiente do modelo de parceria proposto pelo governo guianês.
A rodovia de 680 km que ligará Lethem, na fronteira com o Brasil, ao porto de Georgetown, avança rapidamente, mas ainda faltam 400 km de asfalto, obra que deve levar de três a quatro anos.
Para atrair produtores, a Guiana oferece concessão de terras por períodos de até 99 anos, renováveis e sem custo. O interessado precisa apresentar um projeto e arcar com investimentos em operação, máquinas, sementes e insumos.
“Eles não querem ‘lisos’ por lá, quem chega sem um centavo no bolso, pega terra, pega dinheiro, pega tudo. Tem que chegar lá e gastar também, dividir as despesas, dividir as broncas. Eles querem gente que vá produzir”, explica Alair Gonçalves, pecuarista e corretor especializado em áreas rurais em Roraima.
De fato, segundo John Edghill, diretor da agência de investimentos da Guiana, há 20 anos alguns estrangeiros pegaram terras para cultivar abacaxi e citrus e não fizeram nada. As áreas acabaram retomadas pelo governo.
“Vocês, brasileiros, têm a experiência”, diz ministro da Agricultura
Em encontro com visitantes brasileiros em Georgetown, acompanhados pela reportagem da Gazeta do Povo, o ministro da Agricultura da Guiana, Zulfikar Mustapha, expôs as ambições agrícolas do país: reduzir as importações de alimentos em 25% até 2030 e transformar a Guiana em um hub de exportação agropecuária para os 15 membros da Comunidade do Caribe (Caricom).
Para alcançar a autossuficiência, o ministro sinalizou interesse na experiência brasileira com commodities agrícolas. “Vocês, brasileiros, têm produzido commodities como milho e soja em larga escala e por muitos anos. Vocês têm a experiência”, disse Mustapha.
Ele também destacou o potencial da pecuária industrial voltada ao abate halal, mercado favorecido pela proximidade cultural e religiosa da Guiana com outros países, já que cerca de 40% da população é descendente de indianos e 7% seguem o islamismo. Além disso, apontou oportunidades em aquicultura, produção de água de coco, frutas e hortaliças.
A urgência, contudo, está no cultivo de grãos. A Guiana precisará de muita soja e milho para expandir a produção de frango, proteína mais consumida no Caribe.
Richard Blair, conselheiro e representante do governo junto ao Caricom, assegurou que o país está estruturando um banco de investimentos, no modelo do BNDES brasileiro, para injetar recursos no financiamento da agricultura. Um produtor já radicado na Guiana revelou que paga 0,5% de juros por ano na linha de crédito de apoio à agropecuária.
Guiana propõe parceria com produtores locais
Além de ceder as terras por uma espécie de comodato, a Guiana não cobra impostos sobre maquinários agrícolas nem sobre a produção rural. Uma solução rápida para quem não quer qualquer burocracia é se associar a fazendeiros locais.
“Podemos ligar vocês com os produtores que têm a terra, daí já podem começar a produzir imediatamente. Façam a proposta, façam o projeto, e a Guiana vai tratar com muita atenção. Somos um lugar aberto para investir e trabalhar”, enfatizou o ministro Mustapha.
“Precisamos de propostas para poder trabalhar, e sem burocracia. Nossa intenção é acelerar as coisas”, completou.
Apesar dos convites e acenos, restam obstáculos relevantes. Não há, no país, nenhuma grande trading agrícola nem esmagadora de soja, para extração de óleo e farelo, o que gera um impasse: vale plantar antes de ter para quem vender?
Para o empresário de transportes Pedro Thiago Acordi, esse é um gargalo que não pode ser negligenciado. “Dois produtores de Roraima que pensaram em plantar soja aqui viram que a Guiana não teria para quem vender o farelo. Eles falam em construir aviários, mas isso não se faz do dia para a noite”.
E acrescenta: “Eles querem o investidor agrícola, mas não podem tratar o brasileiro como funcionário deles, dando terra e querendo mandar em tudo. A gente vê o poder de realização das obras, mas, em contrapartida, é um país cooperativista. Eles querem ser donos da situação e estar no centro”.

“Se fizer uma esmagadora, vai todo mundo”, diz produtor
A preocupação com ausência de tradings ou esmagadoras — indústrias que processam grãos como soja para extrair óleo e farelo — não será impedimento para a agricultura avançar no país, segundo o economista e conselheiro do governo da Guiana, Richard Blair.
“Entendemos a necessidade dessas empresas. Mas à medida que os investimentos maciços ocorrerem, haverá impulso para essas oportunidades, e elas certamente virão”, disse.
Blair admitiu não saber precisar a quantidade de terras disponíveis para cultivo de grãos, mas comprometeu-se a fazer o levantamento.
Tantas dúvidas, ao mesmo tempo que aparentam ser entrave, podem representar também uma oportunidade para quem chegar primeiro. “Temos que ajudá-los nesse começo. O caminho é mapear as áreas produtivas, ver onde chove bem e se há terra disponível. Alguns investidores planejam fazer uma esmagadora por lá. Se fizer a esmagadora, daí vai todo mundo. Onde vai um ou dois produtores, vão logo três e vai todo mundo”, diz Alair Gonçalves.

Ambição de ser mais do que um corredor logístico
Localizada numa área remota próxima a Linden, a fazenda do paranaense Emílio Araújo está estrategicamente às margens do Rio Berbice. “Esse rio para nós é tudo. É um corredor por onde recebemos insumos do Egito, da Rússia e da República Dominicana. Toda nossa produção de soja ou farelo também será escoada por ele”, destaca Araújo.
O potencial logístico, porém, ainda não é plenamente aproveitado: o assoreamento em alguns trechos limita a navegação a pequenas barcaças, obrigando a fazenda a armazenar 11 mil toneladas de soja em silos construídos pelo governo.
Mesmo assim, o produtor mantém o otimismo: “Acredito que a Guiana nos próximos anos será um corredor logístico e também irá alimentar todo esse Caribe.
Incertezas e falta de estrutura dividem avaliação de produtores
As percepções dos brasileiros que visitaram a Guiana estão divididas. Enquanto alguns se preocupam com a ausência de projetos claros de desenvolvimento, outros enxergam na boa vontade do governo e na capacidade de investimento impulsionada pelos petrodólares, uma espécie de garantia de que as coisas acabarão avançando, cedo ou tarde.
Um dos organizadores da visita, o ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera, que também é produtor rural, encara as dúvidas e hesitações com naturalidade.
“Foi uma expedição exploratória. Mas entendo que é nessas dificuldades que aparecem realmente as grandes oportunidades. No médio prazo, existem dificuldades, como terminar o asfalto e acertar acordos aduaneiros internacionais, mas as fronteiras devem se abrir”, diz Cabrera.

As conversas com o governo guianense precisarão de novas rodadas antes que mais produtores se convençam de que vale a pena plantar do outro lado da fronteira.
“Está faltando um projeto claro e objetivo que apresente as áreas agricultáveis do país, que elenque e planilhe esses quantitativos. Só o dinheiro (do petróleo) não resolve”, sublinha Anderson Walcz, dono da Plantar, consultoria para projetos e soluções ambientais com sede em Boa Vista, Roraima.
Produtor de Roraima diz que dará “o primeiro passo”
Já Alair Gonçalves ficou com poucas dúvidas. Trata-se, segundo ele, de oportunidade que não se encontra em outro lugar. Além disso, a nova rodovia transamazônica, da fronteira do Brasil até o porto de Georgetown, está em plena execução, e o petróleo garante que não faltarão os recursos.
Diante do desafio, o pecuarista já se convenceu: irá buscar grupos de investidores para retornar à Guiana, dessa vez já levando na bagagem propostas concretas.
“Eu vi um grande futuro ali na área do café, de fruticultura, com melancia, abacaxi, manga, banana, hortaliças e temperos, e ainda queijo e leite. Investimentos de pequenos também vão para frente”, diz.
“Vamos nos colocarmos à disposição para ajudar no georreferenciamento para definir as áreas com aptidão agrícola e mostrar aos brasileiros algo já mapeado”, conclui Alair.
- O jornalista viajou a convite da Associação dos Produtores de Soja de Roraima (Aprosoja-RR)
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Fonte ==> UOL