Queda de Maduro deu vantagem para os EUA na crise energética

Queda de Maduro deu vantagem para os EUA na crise energética

Desde o início da guerra contra o Irã, os EUA vivem um momento de alta na exportação de petróleo bruto, estando perto de atingir um nível recorde em abril. Dados do governo americano estimam que o país chegará a exportar 5,2 milhões de barris diariamente, principalmente para a Ásia e Europa, cerca de um terço a mais do que o registrado em março.

Parte desse “sucesso” se deve à operação realizada em janeiro na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, que agora enfrenta acusações de vínculo com o narcotráfico na Justiça americana. Essa ação abriu caminho para a reinserção de Caracas no mercado internacional de energia.

O movimento mais recente realizado pelos americanos se deu dias atrás, com a suspensão de sanções ao Banco Central venezuelano, visando reativar o setor de petróleo do país. Essa medida tem como finalidade aliviar gargalos econômicos e liberar negociações com empresas internacionais do setor, o que se alinha ao plano do presidente Donald Trump de elevar rapidamente a produção de petróleo bruto do país.

Com os acordos sendo construídos entre os países, o aumento das importações de petróleo bruto da Venezuela para os EUA acabou impulsionando as exportações americanas.

Susan Bell, analista do grupo de pesquisa Rystad, disse ao jornal britânico Financial Times que a tendência tem sido o aumento das importações da Venezuela, o que se acredita que forçará a saída do petróleo doméstico americano, o West Texas Intermediate (WTI), para exportação.

Nas últimas semanas, a empresa de energia Chevron, sediada nos EUA, e a espanhola Repsol anunciaram acordos para retomar as atividades em ritmo acelerado na Venezuela.

Como a reativação do setor petrolífero venezuelano ajudou os EUA

O analista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil, descreveu a política externa dos EUA como uma “jogada de mestre”.

“Ao permitir que petroleiras como a Chevron expandissem suas operações na Venezuela, os EUA garantiram um fluxo constante de petróleo pesado para as refinarias do Golfo, o que liberou o petróleo leve e doce americano — extraído via fracking — para inundar o mercado internacional, alcançando níveis recordes de exportação”, disse à Gazeta do Povo.

Essa manobra, segundo ele, não apenas fortaleceu a balança comercial dos EUA, mas também criou uma rede de segurança energética que permitiu a Washington adotar uma postura muito mais assertiva e punitiva contra o Irã, sabendo que qualquer remoção de barris iranianos do mercado seria compensada pela produção crescente nas Américas.

O internacionalista João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ressalta que essa jogada permitiu aos EUA aliviar a corrida global por petróleo, provocada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz, mas não substituí-la integralmente.

Segundo o analista, Washington está produzindo em torno de 6 milhões de barris de petróleo por dia para exportação, perto de sua capacidade máxima. Desta forma, as petrolíferas do país podem ampliar a oferta ao mercado – os EUA se aproximaram de virar exportador líquido de petróleo bruto pela primeira vez desde 1943 – mas já estão operando perto do teto logístico, com limitações de terminais, disponibilidade de navios e custo de frete.

“Isso significa que os EUA são parte importante da solução, mas não têm folga suficiente para compensar sozinhos uma ruptura prolongada em Ormuz”.

EUA podem pressionar o Irã por um acordo semelhante ao da Venezuela?

Os especialistas em política internacional têm considerado os cenários da Venezuela e do Irã muito diferentes em seus objetivos.

Na visão de Coimbra, os EUA demonstraram uma capacidade resiliente de liderar a corrida por suprimentos globais, sustentada por uma infraestrutura logística sem precedentes. Ainda assim, é improvável, segundo ele, acordos semelhantes com o Irã no curto prazo.

Enquanto Washington busca ampliar acesso a recursos por meio de presença empresarial e rearranjo regulatório na Venezuela, com o Irã a disputa é coercitiva, envolvendo guerra, sanções, bloqueio marítimo e controle de um gargalo energético mundial, explica Nyegray.

Choque de oferta pode prejudicar a economia americana

Ao mesmo tempo em que os EUA surgem como um possível fornecedor global de referência, a concorrência da Ásia e os impactos do bloqueio no Estreito de Ormuz podem trazer prejuízos para a economia interna americana.

Embora os EUA tenham se tornado uma superpotência exportadora, o preço da gasolina nos postos de combustível do país ainda é ditado por parâmetros de referência globais, como o Brent. Portanto, o fechamento de Ormuz gera um “choque de oferta” que inflaciona os custos de transporte e bens de consumo nos Estados Unidos, mesmo que as petrolíferas americanas lucrem bilhões com as exportações em alta.

Para o governo Trump, isso representa um desafio político duplo: por um lado, ele pode reivindicar o sucesso da sua agenda de dominância energética ao mostrar que o país é agora o porto seguro do suprimento mundial, usando os lucros das exportações para fortalecer o dólar e o setor industrial. Por outro lado, a inflação energética interna é um ponto sensível que a oposição utiliza para desgastar a popularidade do governo.

Atualmente, a média nacional do preço da gasolina é de US$ 4,09 por galão (cerca de 3,8 litros) e US$ 5,61 por galão de diesel, segundo a Associação Automobilística Americana.

O Banco Central americano (Federal Reserve) deve atualizar nos próximos dias a nova taxa básica de juros dos EUA, em meio a incertezas geradas pela guerra no Oriente Médio. A previsão é que ela se mantenha entre 3,50% e 3,75%, enquanto a inflação se mantém acima da meta de 2% há mais de cinco anos – em março, registrou o maior aumento mensal em quase quatro anos, chegando a 0,9% mensal e 3,3% na comparação anual.

Na quinta-feira, Trump minimizou o aumento de preços dizendo que “não estão muito altos”. Segundo ele, o mercado deve se estabilizar abaixo dos níveis pré-guerra assim que um acordo for alcançado com o Irã.

Alguns parlamentares da oposição, porém, avaliam propostas para banir a exportação de petróleo americano. Uma delas é do deputado Brad Sherman, representante da Califórnia, que anunciou o projeto de lei Ato de Proibição das Exportações de Petróleo dos EUA durante a Guerra ao Irã, cuja finalidade é “priorizar” os consumidores americanos, garantindo que os recursos energéticos permaneçam no país.

O governo Trump, por sua vez, já descartou aprovar uma proibição à exportação, visto que isso afetaria a produção das refinarias americanas.



Fonte ==> UOL

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