na saúde, o SUS é gigante, mas o paciente segue esperando demais

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Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, atende pelo SUS e mantém filas constantesFoto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Na saúde, o Brasil vive uma de suas maiores contradições. O SUS (Sistema Único de Saúde) é, em tese e em alcance, um dos maiores sistemas públicos universais do mundo.

Em 2026, a saúde contará com R$ 271,3 bilhões no orçamento federal, acima dos R$ 254,1 bilhões de 2025, segundo a própria comunicação oficial do governo sobre a Lei Orçamentária Anual.

O problema é que volume de recursos e garantia constitucional não têm sido suficientes para eliminar o drama diário das filas, da demora e da superlotação.

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A fila é justamente um dos pontos mais sensíveis. O Ministério da Saúde mantém o Programa Nacional de Redução das Filas, criado para ampliar o acesso a cirurgias eletivas, exames complementares e consultas especializadas, o que por si só já mostra o tamanho do gargalo.

Em 2025, o SUS realizou 14,7 milhões de cirurgias eletivas, recorde histórico, e o governo atribuiu esse resultado às políticas de redução de filas. Ainda assim, a necessidade de manter e ampliar o programa revela que a demanda reprimida continua alta e longe de solução definitiva.

Tempo de espera no SUS não acompanha o tempo da doença

É aí que entra a realidade nua e crua do usuário. O brasileiro sabe que consulta com especialista, exame mais complexo e cirurgia nem sempre acontecem no tempo da doença. E a doença não espera. Ela avança. Em muitos casos, o atraso entre o pedido e o atendimento não significa apenas desconforto: significa agravamento clínico, perda de qualidade de vida e, às vezes, a diferença entre viver e morrer.

Essa leitura é uma inferência apoiada no próprio desenho do programa federal de redução de filas e na recorrência de atrasos no acesso à atenção especializada.

Fila no Hospital da Criança, em ChapecóFoto: Ezequiel Marsango/NDV ChapecóFila no Hospital da Criança, em ChapecóFoto: Ezequiel Marsango/NDV Chapecó

A estrutura hospitalar também ajuda a explicar o problema. Segundo dados do Banco Mundial baseados na OMS, o Brasil tinha 2,5 leitos hospitalares por mil habitantes no dado mais recente disponível. O número é baixo para um país com mais de 200 milhões de habitantes e forte pressão sobre o sistema público, e fica bem abaixo de referências internacionais mais robustas.

A própria OCDE mostra que muitos países desenvolvidos operam com disponibilidade maior de leitos e com redes mais preparadas para absorver internações, cirurgias e cuidados prolongados.

Quando a comparação internacional se amplia, o contraste continua. O Brasil gastava 9,14% do PIB em saúde no dado mais recente do Banco Mundial/OMS, percentual que não parece baixo à primeira vista.

Hospital São José, em Criciúma, também já registrou superlotaçãoFoto: Divulgação/Hospital São José/ND MaisHospital São José, em Criciúma, também já registrou superlotaçãoFoto: Divulgação/Hospital São José/ND Mais

Mas o indicador agregado esconde diferenças importantes: países da OCDE combinam gasto elevado com maior capacidade instalada, mais eficiência média, melhor acesso oportuno e resultados superiores em atendimento e qualidade. Em outras palavras, o Brasil até mobiliza recursos relevantes para a saúde, mas ainda transforma esse esforço em desempenho aquém do necessário para a população.

Isso ajuda a entender por que as cenas de pacientes em macas improvisadas, corredores lotados e espera prolongada continuam se repetindo. O SUS é essencial e evita um colapso social muito maior. Sem ele, o quadro seria dramaticamente pior. Mas reconhecer sua importância não obriga ninguém a fingir que ele funciona como deveria em toda a linha de cuidado.

O sistema é grande, indispensável e civilizatório, mas ainda insuficiente para entregar, com regularidade, o tempo de resposta que o paciente precisa. Essa é uma inferência baseada na combinação entre orçamento crescente, programas de redução de filas e limitações de capacidade hospitalar.

Passar o Brasil a limpo na saúde é admitir exatamente isso: temos um bom conceito de sistema, mas uma execução ainda falha para milhões de pessoas. O país investe muito, o SUS cobre muito, mas o cidadão ainda espera demais. E, em saúde, esperar demais quase nunca é um detalhe.

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Fonte ==> NDMais

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