Ser útil à sociedade resolvendo problemas e gerando valor. Essa é a resposta do empresário Tallis Gomes ao questionamento sobre por que trabalha. Moldado pela disciplina, não pretende se aposentar.
Aos 39 anos, conseguiu o que muitos empreendedores desejariam: criou e vendeu a Easy Taxi, startup avaliada em R$ 1 bilhão. Integrou a primeira edição da Forbes Under 30 Brasil e, em 2017, o MIT o elegeu entre os empreendedores mais inovadores do mundo. Atualmente, preside a G4, plataforma de soluções empresariais que deve chegar a R$ 1 bilhão em receita no próximo ano.
A disciplina militar é a base do sucesso
Na infância, morou no quarto junto com a avó, empregada doméstica. Não se considera especial. “Eu gostava muito mais de esporte do que de estudar”, afirma. A receita de seu êxito veio de uma criação nos moldes militares. Todos os homens da família seguiram o caminho da caserna. Isso lhe conferiu uma característica fundamental: a disciplina. “Eu tenho uma disciplina muito maior do que a média das pessoas”, pontua.
Essa disciplina o preparou para as escolhas difíceis que marcaram sua trajetória. “Quando a sorte me encontrou, eu estava preparado. E o que me fez estar preparado é ser disciplinado”, disse à Gazeta do Povo.
Visão de longo prazo
Preferiria ligar o videogame. Mas, em 95% das vezes, escolhe ler um livro — a opção menos confortável, mas que traz resultados. “São decisões ruins no curto prazo e boas no longo prazo, e eu faço isso por muitos anos”, avalia.
Sobre sua rotina: trabalha todo o tempo em que está acordado. “Eu trabalho muito duro todos os dias e eu realmente gosto do trabalho. Eu não vejo o trabalho como boa parte da sociedade vê, infelizmente, como algo que é ruim”, afirma.
Crítica à escala 6×1 e entraves trabalhistas
É crítico ao fim da escala 6×1. Avalia-a como uma discussão eleitoreira. “O PT está no poder há anos e só agora vem discutir isso? Por quê?”, questiona. Para ele, é equivocada a visão de que o governo pode criar regras com uma canetada. “O mercado é líquido, ele se adapta”, defende.
Se a nova regra for aprovada, o resultado será o aumento da informalidade. Setores que dependem de muitos funcionários — comércio, serviços e pequenas fábricas — sofrerão mais. Suas margens de lucro são baixas. Alguns negócios se adaptarão; outros falirão.
Automação e IA transformam o futuro do trabalho
A redução da jornada forçará as empresas a contratar mais pessoas. Muitas recorrerão à automação e à inteligência artificial. Segundo Tallis, a IA traz as melhores oportunidades de adaptação da história. O problema: essa transformação acelera sem preparar o trabalhador, que é quem mais perderá.
Ele também critica as regras para entregadores de aplicativos, outro projeto da gestão Lula. Ao pedir delivery, conversa com entregadores sobre a situação geral do país. Muitos rejeitam regulamentações porque os encargos reduziriam sua renda.
Sua crítica à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é ainda mais severa. A lei engessa o setor. Profissionais que prestam serviços pontuais — jardineiros, por exemplo — ficam sem trabalho se não atuarem na informalidade ou se tornarem MEI. “Para cada R$ 1 que eu quero pagar a um empregado, eu preciso pagar outros R$ 0,80 para o governo”, comenta. “O Estado ganha mais dinheiro do que o trabalhador na relação trabalhista. Isso é muito disfuncional. Existe um desincentivo em gerar emprego formal no Brasil”, avalia.
Startups que transformaram o mercado
Não por acaso, suas duas primeiras iniciativas foram voltadas para trabalhadores autônomos. Em junho de 2011, fundou a Easy Taxi durante a Startup Weekend no Rio de Janeiro. A plataforma conectava clientes a motoristas de táxi — timing perfeito, já que a Uber estava começando. O negócio prosperou: chegou a ter 500 mil motoristas e 20 milhões de usuários, superando a própria Uber. Em 2017, foi vendida por R$ 1 bilhão para a Cabify.
Seu segundo projeto foi a Singu (2015), aplicativo que conecta clientes a profissionais de beleza, saúde e bem-estar. A Natura a adquiriu cinco anos depois para digitalizar seu negócio.
G4 e a meta de gerar um milhão de empregos
Em 2019, nasceu sua terceira startup de sucesso: a G4. Ele e dois amigos — Alfredo Soares e Bruno Nardon — uniram conhecimentos para ajudar outros empreendedores a crescer.
Em seis anos de existência, a G4 atendeu 87 mil empresas. Em 2025, faturou R$ 508 milhões. Para 2030, a meta é ambiciosa: ajudar a gerar um milhão de empregos por meio das empresas que assessora. Até agora, já são 764 mil.
Insegurança institucional trava investimentos e inovação
Ele não se exime de falar o que pensa. Sobre o policiamento constante nas redes e as investidas contra a liberdade de expressão, vê mais uma preocupação. Os empresários deixam de se concentrar exclusivamente na inovação e em entender o que está sendo desenvolvido no mundo.
Precisa se preocupar constantemente se, em algum momento, o Ministério Público considerará que teve uma fala “antidemocrática”. Cita o livro “1984”, de George Orwell, para abordar o risco de conceitos vagos como esse. “O principal problema é que se cria uma espécie de ‘Ministério da Verdade’. Mas então, quem observa o observador?”, comentou.
Instabilidade regulatória é obstáculo ao desenvolvimento
A instabilidade institucional e regulatória no Brasil é o principal obstáculo ao empreendedorismo, na sua visão. As empresas fazem planejamentos de longo prazo, economicamente viáveis, com base em determinadas regras. Mas não podem ter certeza de que elas serão mantidas. Essa dúvida reduz a iniciativa e os investimentos.
Algumas companhias atendidas pela G4 foram afetadas pelas mudanças nas regras do Perse (programa de auxílio a eventos e serviços). Lançado na gestão Bolsonaro para auxiliar negócios durante a pandemia, as medidas foram reduzidas e praticamente extintas em 2024 e 2025 pela gestão Lula.
Como estaria sua empresa sob o modelo fiscal do governo
Quando conversou com a Gazeta do Povo, estava prestes a embarcar para Los Angeles para participar de um evento do Milken Institute. Um dos temas levados para discussão é a competitividade nos países em desenvolvimento e como um Estado que gasta demais gera distorções que dificultam a criação de grandes empresas inovadoras.
Questionado sobre como estaria sua companhia se a gestão fiscal se assemelhasse à do governo atual, não hesitou. “É simples”, disse. “O Brasil hoje tem uma dívida equivalente a 80% do PIB e, nos próximos cinco anos, deve chegar a 100%. Nessas condições, minha empresa estaria literalmente em recuperação judicial.”
Leia Também:
- Desemprego, inflação e informalidade: governo ignora danos econômicos de fim da escala 6×1
- Estudos alertam: fim da escala 6×1 pode gerar danos mais graves que recessão da era Dilma
Fonte ==> UOL