Após infância violenta, coletora de lixo ganha nova vida na corrida e coleciona pódios em SC

Após infância violenta, coletora de lixo ganha nova vida na corrida e coleciona pódios em SC

Após infância violenta, coletora de lixo ganha nova vida na corrida e coleciona pódios em SCFoto: @angelapoderosa2024/Instagram

Uma coletora de lixo de Navegantes, no Litoral Norte de Santa Catarina, ganhou uma nova vida após começar a correr. Moradora de Santa Catarina há oito anos, Maria Ângela Costa trabalha como coletora de lixo, conquistou a casa própria, soma cerca de 100 corridas no currículo e coleciona pódios em provas de rua.

Quando ela olha para trás, enxerga uma sequência de feridas que poderiam ter definido sua história. A acreana de 37 anos perdeu o pai e dois irmãos para a violência, saiu de casa ainda criança, enfrentou fome, viveu cercada pelo tráfico de drogas dentro da própria família, conviveu com a depressão, tentou tirar a própria vida na adolescência e cresceu acreditando que talvez nunca encontrasse um lugar no mundo. Hoje, porém, a realidade é outra.

A pista de treinamento dela não é uma assessoria esportiva nem um centro de alto rendimento. É o percurso diário percorrido correndo atrás do caminhão de coleta. “Quando eu estou triste, eu saio para correr. Foi o esporte que me tirou da depressão”, resume.

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Infância marcada por perdas e violência

Natural de Rio Branco, no Acre, Maria Ângela cresceu em uma família numerosa (era ela e mais nove irmãos) e enfrentou dificuldades desde muito cedo. Ela conta que saiu de casa ainda criança e passou parte da infância vivendo entre casas de parentes, vizinhos e conhecidos. “Trabalhava para os outros por um prato de comida”, relembra. Enquanto isso, via a família ser consumida pela violência e pelas drogas.

Ao longo dos anos, perdeu o pai, uma irmã e um irmão, todos assassinados. “Minha mãe ficou sozinha para criar os filhos. Meus irmãos entraram para o mundo das drogas. Eu via tudo aquilo e dizia para mim mesma que não queria aquele caminho”.

As marcas emocionais se acumularam e ela mergulhou em uma depressão profunda durante a adolescência. “Eu tinha 14 anos quando tentei me matar. Fiz aniversário de 15 anos dentro da UTI. Quando saí de lá, era remédio de depressão em cima de remédio. Eu não via mais saída”, relembra.

O treinador que mudou sua vida

A virada começou quando um corredor chamado Floriano cruzou seu caminho. Segundo Ângela, ele a encontrou chorando em uma praça e insistiu para que ela desse uma chance ao esporte. “Ele falou para mim: ‘Deixa eu te fazer uma atleta’. Eu mostrei os remédios que tomava e ele perguntou: ‘Tu quer isso para tua vida? Tu é uma menina bonita, tem futuro pela frente. Deixa eu te levar para o mundo dos esportes’.”

Floriano foi o treinador de Ângela e, hoje, ela honra a memória e os ensinamentos dele na pistaFoto: @angelapoderosa2024/InstagramFloriano foi o treinador de Ângela e, hoje, ela honra a memória e os ensinamentos dele na pistaFoto: @angelapoderosa2024/Instagram

Felizmente, Ângela aceitou, e o treinador passou a buscá-la diariamente para os treinos. “Ele não desistia de mim. Todo dia ia me buscar em casa, me levava para correr em outros municípios. Foi ele quem me fez acreditar que eu podia ter uma vida diferente”, relembra.

Mesmo após a morte do mentor, Ângela diz que continua seguindo os ensinamentos deixados por ele. “Tudo o que ele me ensinou eu tenho comigo até hoje. Antes de morrer, ele dizia para eu não desistir dos meus sonhos”.

Mas a coleta ainda enfrenta outro desafio, uma condição pouco conhecida do público que a acompanha: “Eu tenho dislexia. Eu sei ler um pouco, mas tenho dificuldade para escrever. É mais uma luta que eu enfrento todos os dias”, conta.

Mas, para ela, a maior vitória não está nas medalhas. “Quem me tirou da depressão foi o esporte. Se não fosse a corrida, eu não sei se estaria viva hoje. “A ferida sarou, mas a cicatriz não. Deus deixou essa cicatriz do passado em mim para eu lembrar de tudo o que vivi e nunca desistir”.

A mudança para Santa Catarina

Há cerca de oito anos, ela decidiu deixar o Acre ao lado do marido, com quem está há 15 anos. Sem conhecer ninguém, chegou ao litoral catarinense em busca de trabalho e de um novo começo. “Eu precisava sair daquele ambiente. Tinha muita violência, muita droga, muita tristeza. Eu precisava recomeçar”.

O recomeço não foi fácil. Ela conta que trabalhava por diárias, enfrentou preconceito e ouviu de algumas pessoas que jamais conseguiria se destacar no esporte. “Quando eu contava que era corredora, tinha gente que ria de mim. Diziam que para correr tinha que ser atleta profissional”.

Mas Ângela não se deixou abalar, e a resposta para essas pessoas veio nas pistas. “Eu dizia para mim mesma: vou dar a volta por cima”.

Gari de SC que venceu a depressão correndo atrás de caminhão de lixo busca pódio no atletismoFoto: @angelapoderosa2024/InstagramGari de SC que venceu a depressão correndo atrás de caminhão de lixo busca pódio no atletismoFoto: @angelapoderosa2024/Instagram

Correndo atrás do caminhão do lixo

Já em terras catarinenses, nasceu outra paixão. Ao ver uma equipe de coleta trabalhando, decidiu que queria fazer parte dela. “Eu olhei para aquele caminhão e pensei: é ali que eu vou esquecer dos meus problemas”.

A oportunidade surgiu em Itajaí. Depois de muito insistir, conseguiu uma vaga na coleta de resíduos. “Falaram que não era serviço para mulher. Eu respondi: só me deem uma oportunidade para mostrar meu trabalho”. Ela foi a primeira mulher da equipe e, desde então, nunca mais saiu da função.

Hoje Ângela mora em Itajaí e trabalha em Navegantes. Todos os dias, percorre 10 quilômetros de bicicleta para chegar até o trabalho e, quando começa o expediente, percorre muitos quilômetros atrás do caminhão.

“Meu treinador hoje é o caminhão do lixo”, diverte-se. A frase, repetida por ela em entrevistas e nas redes sociais, resume a rotina que ajudou a transformar sofrimento em resistência física.

Dois empregos para realizar um sonho

Durante quatro anos, Ângela manteve uma rotina exaustiva. Trabalhava durante a madrugada na coleta de lixo e, durante a tarde e às vezes à noite, em um posto de combustíveis. Dormia poucas horas por dia, mas com um objetivo maior: “A minha meta era sair do aluguel”.

O esforço deu resultado. Ela conseguiu comprar a própria casa em Itajaí. “Meu marido é vendedor, ele trabalhava de um lado e eu do outro. Foi muito difícil, mas conseguimos”.

“Meu treinador hoje é o caminhão do lixo”, diverte-seVídeo: @angelapoderosa2024/Instagram

A maior preocupação da atleta e coletora de lixo

Apesar da distância, a mãe continua ocupando espaço central em sua vida. Morando no Acre, ela enfrenta problemas graves de saúde, incluindo um tumor na tireoide. Mesmo carregando lembranças dolorosas da infância, Ângela faz questão de ajudá-la financeiramente.

“Eu perdoei minha mãe. Tudo o que ela precisa, eu faço o máximo para ajudar”. Recentemente, a mãe pediu um presente simples, mas caro para a situação atual da atleta: um fogão novo. Mesmo assim, Ângela não hesitou. “Ela falou: ‘Minha filha, o que eu quero de presente é um fogão’. Eu fui lá na Havan e comprei o melhor fogão pra ela. A fatura veio em quase dois mil reais, mas dei o fogão para ela”.

Todos os meses, quando sobra algum dinheiro, Ângela envia ajuda. “Meu sonho é dar uma vida melhor para minha mãe. Eu trabalho pensando nisso”.

Mesmo com essa meta no coração, a coletora admite que ainda tem dificuldade em conversar com a mãe, pois a cicatriz de tanta dor do passado volta em todo o tempo. “Quando escuto a voz dela falando que está doente, contando dos meus irmãos, da situação que vivem, eu começo a chorar.  Quando eu tenho condições, mando um dinheirinho pra ela. Mas não sou de ligar muito, eu escuto minha mãe falando e começo a ficar triste mesmo, e começo a chorar. Dá medo de voltar aquela depressão”.

"Quem tem objetivo tem que correr atrás, porque sonho não tem perna, mas a gente tem", declarou a atleta, pelas redes sociaisFoto: @angelapoderosa2024/Instagram“Quem tem objetivo tem que correr atrás, porque sonho não tem perna, mas a gente tem”, declarou a atleta, pelas redes sociaisFoto: @angelapoderosa2024/Instagram

Corrida contra a depressão

A relação de Ângela com a corrida vai muito além da competição. Ela afirma que continua correndo para manter distância da depressão. “Quando estou triste, saio para correr”.

Segundo ela, muitas pessoas que acompanham sua história não imaginam que ainda existam dias difíceis. “Tem dia que eu não estou bem, não estou 100%, mas eu coloco Deus em primeiro lugar e tento seguir em frente, para ajudar outras pessoas para elas não passarem pelo que eu passei”, diz Ângela, que já se torna exemplo por onde passa.

A atleta também faz questão de compartilhar mensagens de incentivo nas redes sociais. “Se a minha história ajudar uma pessoa a não desistir da vida, já valeu a pena”.

Sonhos que continuam correndo

Um dos momentos mais difíceis da trajetória recente de Ângela aconteceu em 2024, quando ela sofreu uma fratura na tíbia. O problema começou durante o trabalho na coleta de lixo. Segundo ela, a perna bateu na plataforma do caminhão durante a rotina acelerada da coleta, mas a dor inicial pareceu suportável e foi confundida com uma simples canelite. “Estava sempre correndo, com ‘sangue quente’, e não sentia tanta dor”, conta.

Sem imaginar a gravidade da lesão, continuou trabalhando e treinando por cerca de três meses. A fratura só se revelou de forma definitiva durante uma corrida, quando faltava aproximadamente um quilômetro para a chegada. “Eu estava voando nos treinos. Quando chegou perto do fim da prova, a tíbia quebrou de vez”, relembra.

Os médicos recomendaram cirurgia, mas ela optou por um tratamento conservador, ficou afastada das competições por meses e precisou recomeçar praticamente do zero. “Achei que nunca mais ia voltar a correr como antes. Engordei, fui alvo de piadas, mas continuei treinando sozinha. Quando voltei, voltei mais forte”, afirma.

Após se sentir mais forte, resolveu voltar a treinar. E sozinha. “Me mandei para a rua. Corria em rua sem saída, rua de chão batido, e também treinei no caminhão de lixo, enquanto trabalhava”.

Ângela já participou de mais de 100 competições e, hoje, coleciona pódios, troféus, medalhas e históriasFoto: @angelapoderosa2024/InstagramÂngela já participou de mais de 100 competições e, hoje, coleciona pódios, troféus, medalhas e históriasFoto: @angelapoderosa2024/Instagram

Depois de mais de 100 corridas disputadas, uma lesão na tíbia, preconceitos e desafios financeiros, Maria Ângela garante que ainda está longe de cruzar sua linha de chegada.

“O meu objetivo é seguir em frente. Não vou parar”. E repete a frase que se tornou sua marca registrada: “Sonho não tem perna. Mas a gente tem”.

“O meu objetivo é seguir em frente. Não vou parar”, afirma Ângela, com a convicção de quem já superou inúmeros obstáculos do destinoVídeo: @angelapoderosa2024/Instagram

Próximo desafio já tem data

Agora, o foco está voltado para uma corrida noturna marcada para agosto, em Navegantes. Para a prova, Ângela iniciou uma nova fase de preparação, com acompanhamento de treinador especializado em velocidade e ajustes ainda mais rigorosos na alimentação.

O principal desafio, segundo ela, é conciliar os horários das competições com a escala de trabalho para não perder benefícios conquistados pela assiduidade no emprego.

Apesar das dificuldades, a motivação segue a mesma que a ajudou a vencer a depressão anos atrás. “Eu amo correr. Conseguir ajuda para pagar minhas corridas já é tudo. E eu sou bem dedicada”, afirma.

Quem quiser apoiar a atleta financeiramente pode entrar em contato direto pelo telefone (47) 99151-7137.





Fonte ND Mais

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