Preciso me fazer de difícil para conquistar uma mulher? – 15/07/2026 – Amor Crônico

A ilustração mostra uma pessoa sentada em um sofá durante a noite, com o corpo curvado para frente e a cabeça baixa, transmitindo cansaço ou introspecção. O ambiente é uma sala com tons azulados e iluminação baixa. Ao fundo, há uma porta ou janela aberta para uma varanda, decorada com luzes amarelas em formato de cordão e fogos de artifício no céu noturno, além da silhueta de uma palmeira. À frente da pessoa, uma mesa baixa sustenta uma garrafa, um prato com comida e um livro fechado. A cena cria um contraste entre a atmosfera festiva do lado de fora e o clima silencioso e solitário do interior.

Durante décadas a interdição do afeto foi ensinada às mulheres como estratégia de conquista. “Não seja muito disponível”, “não demonstre interesse”, “faça ele correr atrás de você”.

Clichês que perpetuam uma lógica de caça e caçador e que, infelizmente, não vêm só das tias caretas —são vendidos como método por coaches e jogados na sua cara como lição de moral da amiga femme fatale que problematiza seu excesso de carinho quando uma relação termina. Como se carinho fosse sinônimo de carência. Não é. E já antecipo que se fazer de difícil não é a saída nem para mulheres, nem para homens. Todos cansamos da guerra dos sexos, do jogo de quem se importa menos.

A pergunta do leitor revela uma sociedade que não apenas segue culpando o afeto feminino pelo desafeto do outro como passa a replicar a mesma lógica sobre o afeto masculino. E há nos homens uma dupla crítica, a autocrítica e a crítica velada às mulheres.

Com a autocrítica ele questiona se seu afeto foi pesado demais em tempos de demanda de relações leves, se ultrapassou limites ao extrapolar as linhas da mensagem com elogios e declarações. Com a crítica velada às mulheres ele as considera eternas insatisfeitas: “Não era um cara carinhoso que vocês queriam?! Eu fui e vocês não quiseram… suas dissimuladas!” E lá vão eles relembrar a ex-mulher do Kaká, que ao se separar teria dito que ele era bonzinho demais.

Muitos homens estão só agora experimentando falar de sentimentos e demonstrar afeto. Estão começando a praticar, ainda com medo, ainda com o eco das vezes em que, desde a infância, demonstraram emoção e tiveram a masculinidade questionada. E aqui mora uma armadilha, ele foi ensinado que emoção é fraqueza e só se abriu porque pediram —pelo menos é o que vai defender racionalmente, ainda que saibamos (e ele saiba) que também não via a hora de baixar a guarda e trocar ataque e defesa por mais carinho.

Então baixou a guarda. Disse “senti sua falta” primeiro. Perguntou “o que a gente é?” antes de saber se podia. Foi quem se importou mais. E quando ela saiu, ficou com a sensação de ter apanhado num ringue, de ter sido diminuído por uma mulher que se sentiu mais poderosa no jogo. “Melhor voltar para o modo luta e fuga”, pensam. Mas ela não te nocauteou. Ela saiu do ringue. Que nem ringue era. Ela saiu do enlace, não quis mais brincar, teve outros desejos —que não dependem do que você fez ou deixou de fazer.

Trago verdades duras, mas libertadoras (e carinhosas): a questão não é o seu carinho. Não é você. É o desejo dela. Ela não te desejou, não quis seguir, se desinteressou. Não porque você foi carinhoso, disponível ou bonzinho demais. Amor não é meritocracia afetiva.

Problematizar a bondade e a disponibilidade não é bom para ninguém. Mas o clichê é uma forma de se defender do risco numa espécie de “tratamento paliativo” que, num primeiro momento, até alivia e previne o sofrimento. Porém, mais do que paliativo, percebo quase um efeito placebo: há um breve alívio dos sintomas de insegurança e rejeição, mas não se trata as causas do mal-estar afetivo, a carência, a frustração e o desamparo que aparecem quando ela desaparece.

O mundo já está complicado demais para batalharmos por alguém difícil. Estamos todos machucados, inseguros e sozinhos, e foi exatamente isso que encontrei ao ouvir mil brasileiros. A pesquisa Raio X da Vida Afetiva, que fiz com a psicanalista Camila Holpert, mostra que o maior obstáculo para uma relação é o oposto do excesso de afeto, é o excesso de medo —4 em cada 10 temem se machucar de novo; 3 em cada 10, não serem suficientes; 3 em cada 10, serem abandonados ou traídos.

A maioria de nós já insistiu em alguém indisponível, romantizou migalhas e se machucou. É por isso que hoje a ausência de carinho tem muito mais chance de ser lida como rejeição do que como afrodisíaco. Fazer-se de difícil não é sedutor, é ansiogênico, angustiante e retraumatizante.

É frustrante ser carinhoso e disponível e não ser escolhido? Claro. Fique triste, perdido… viva o luto do início de uma história e da projeção de um “amor tranquilo com sabor de fruta mordida”. Mas não se perca achando que se tornar amargo e de casca dura é o que tornará seu fruto mais interessante.

No fundo, nunca saberemos por que ela ou ele não quiseram seguir conosco. Permita-se sentir o fim sem tentar entendê-lo. Em vez de buscar novas estratégias de jogo, busque novas companheiras para novas brincadeiras. Será mesmo que o que você quer ainda é uma relação de controlador e controlada? Ou a exposição dos próprios sentimentos já faz parte daquela experiência deliciosamente descontrolável que é amar a dois, e não a mando?

Ouse ser mais interessado do que interessante. O amor também se exercita como músculo. Ainda que a história não siga, manter-se aberto a se encantar alarga a alma e te faz mais potente, mais vivo.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 - 3 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.