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O setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração está bem posicionado em um mundo que precisa avançar em segurança climática, inovação tecnológica e desenvolvimento econômico.
Referência global em bioeconomia, a indústria dá origem a bioprodutos capazes de substituir aqueles de origem fóssil. A produção alia-se à sustentabilidade, à proteção da biodiversidade, à conservação dos recursos hídricos e à remoção de carbono da atmosfera. A questão hoje é como garantir que as árvores plantadas no presente sejam capazes de prosperar no clima de amanhã —incerto e em rápida transformação.
São evidentes os impactos das mudanças do clima sobre setores dependentes da natureza. Esses impactos estão relacionados ao estresse hídrico e térmico, além da ocorrência de pragas e doenças, que podem reduzir o suprimento de madeira. Eventos climáticos também podem interromper operações industriais e logísticas, estreitar janelas de colheita, elevar custos de prevenção e colocar em risco trabalhadores. Cai também a confiança em investimentos que dão retorno em muitos anos.
Adaptar-se a tamanhas mudanças é uma questão não apenas de competitividade, mas de perenidade dos negócios. Para isso, é fundamental cultivarmos árvores mais resilientes.
A história desse setor é, em grande medida, uma história sobre ciência aplicada. São décadas de pesquisa e desenvolvimento em melhoramento genético, mecanização e aperfeiçoamento das práticas silviculturais.
O próximo salto exige que as pesquisas avancem no ritmo da transformação do clima. O tempo, nesse contexto, é o maior obstáculo. Programas de melhoramento de árvores operam em ciclos longos, enquanto as condições climáticas se transformam em ritmo acelerado.
Nesse sentido, as biotecnologias, incluindo a edição e a modificação gênica, podem ajudar, viabilizando o desenvolvimento de características de resiliência mais difíceis de obter por métodos convencionais. Para ilustrar, já existem árvores geneticamente modificadas aprovadas para uso com maior resistência a lagartas, o que reduz a necessidade de defensivos.
Explorar esse potencial passa pelo engajamento de grandes sistemas de certificação. Tais estruturas estabelecem parâmetros, dão transparência às práticas de manejo e ajudam a construir confiança entre produtores, consumidores e sociedade.
Atualmente, porém, as regras restringem o uso de biotecnologias com base no princípio da precaução. Essas diretrizes foram construídas diligentemente no contexto de sua época, a década de 2000, mas dialogam pouco com a realidade atual.
Desde então, a ciência expandiu a compreensão sobre mecanismos de biossegurança. Há revisões da literatura publicadas em periódicos como Nature Biotechnology, com evidências acumuladas ao longo de décadas de ensaios de campo com árvores geneticamente modificadas em diferentes partes do mundo.
Discutir o papel das biotecnologias na adaptação climática não deveria significar, para os sistemas de certificação, uma quebra de confiança, mas uma oportunidade de submeter essas tecnologias ao escrutínio dos stakeholders e construir condições para que a inovação possa, justamente, fortalecer os resultados ambientais, sociais e econômicos.
É com esse espírito que a Ibá promove, em São Paulo, o “Executive Roundtable on Biotechnology for Climate-Resilient Forests”, encontro internacional que reunirá lideranças do setor de árvores cultivadas e pesquisadores. A programação inclui discussões sobre os impactos do clima nas florestas, as ferramentas de engenharia genética e seu potencial, os marcos regulatórios e as políticas de certificação, além da percepção da sociedade sobre essas tecnologias.
O debate a ser aprofundado parte de um consenso: é preciso garantir que áreas de produção florestal permaneçam saudáveis e capazes de prestar serviços ambientais em um planeta em convulsão. O setor de árvores cultivadas tem diante de si uma equação problemática: pressão climática e aumento da demanda global por madeira e produtos renováveis, para não mencionar as ambiciosas metas de restauração do país. Resolvê-la desafiará a indústria não apenas no campo tecnológico, mas também nos âmbitos regulatório e institucional. A inação não é uma resposta à altura dos tempos atuais.
Camilla Marangon
Gerente de Sustentabilidade da Ibá
Horacio Lafer Piva
Presidente do Conselho da Ibá
Paulo Hartung
Economista
José Carlos da Fonseca Jr.
Embaixador
TENDÊNCIAS / DEBATES
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Fonte ==> Folha SP