Check-ups preventivos da pele ajudam a identificar precocemente o câncer e outras doenças dermatológicas

Check-ups preventivos da pele ajudam a identificar precocemente o câncer e outras doenças dermatológicas

A consulta ao dermatologista, tradicionalmente associada ao tratamento de doenças de pele ou a procedimentos estéticos, também vem ganhando espaço como parte dos cuidados preventivos de saúde. Mesmo sem apresentar sintomas ou lesões suspeitas, a avaliação periódica pode contribuir para identificar precocemente alterações na pele, incluindo sinais de câncer, doenças inflamatórias e infecções. O avanço de tecnologias de diagnóstico e a maior preocupação da população com a qualidade de vida estão entre os fatores que impulsionam esse movimento.

Para a médica dermatologista catarinense Débora Cadore, que atende em Florianópolis (SC), a mudança acompanha uma transformação mais ampla na maneira como as pessoas cuidam da saúde. Em vez de procurar atendimento apenas quando surge algum problema, cresce o interesse por consultas capazes de identificar alterações antes que elas provoquem sintomas.

“Estamos saindo de uma medicina que tratava a doença, em que o paciente só vinha para tratar a doença, e caminhando para uma medicina voltada à prevenção. Isso acontece em todas as especialidades”, explica a especialista, que possui formação em Dermatologia pela Santa Casa de São Paulo e em Oncologia Cutânea pelo A.C.Camargo Cancer Center.

Segundo Débora, a pele, por ser o maior órgão do corpo humano, também precisa fazer parte dessa rotina de acompanhamento. A avaliação dermatológica permite examinar toda a superfície corporal, inclusive regiões que o próprio paciente dificilmente consegue observar, como as costas e o couro cabeludo.

Durante a consulta, o médico investiga a presença de lesões suspeitas de câncer de pele ou com potencial de transformação maligna, além de alterações que podem indicar infecções fúngicas, dermatites, doenças inflamatórias e condições autoimunes. Unhas e cabelos também podem ser avaliados conforme a necessidade de cada paciente.

Tecnologia permite acompanhar mudanças nas lesões ao longo do tempo


Entre os recursos utilizados na avaliação preventiva estão a dermatoscopia digital e o mapeamento corporal, técnicas que auxiliam na identificação e no acompanhamento de lesões cutâneas.

A dermatoscopia permite visualizar estruturas da pele que não são perceptíveis a olho nu, oferecendo informações adicionais para a análise de pintas e outras alterações. Já o acompanhamento por imagens possibilita comparar a aparência das lesões em diferentes consultas, identificando modificações que podem passar despercebidas em uma avaliação isolada.

“A gente vê estruturas que não consegue enxergar a olho nu. Quando temos essas ferramentas diagnósticas, conseguimos identificar lesões inflamatórias e cânceres de pele muito antes”, afirma Débora.

A especialista ressalta que a evolução de uma pinta pode fornecer informações importantes para o diagnóstico. Alterações no tamanho, na coloração ou no formato de uma lesão ao longo do tempo podem indicar a necessidade de uma investigação mais detalhada.

Esse acompanhamento é particularmente relevante na identificação precoce do melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer de pele. Segundo a dermatologista, a utilização dessas tecnologias, associada à interpretação de um profissional capacitado, aumenta a sensibilidade diagnóstica.

“As tecnologias contribuem para a identificação precoce. Quando o exame é realizado por um médico que sabe interpretá-lo, a sensibilidade diagnóstica aumenta. Isso é comprovado”, destaca.

Quem precisa fazer check-ups dermatológicos?


Embora qualquer pessoa possa se beneficiar de uma avaliação dermatológica preventiva, alguns grupos apresentam maior risco de desenvolver câncer de pele e, por isso, necessitam de acompanhamento individualizado.

Entre os fatores considerados pela especialista estão a presença de mais de 50 pintas no corpo, histórico pessoal ou familiar de câncer de pele, episódios repetidos de queimaduras solares e características como pele clara, cabelos ruivos e sardas.

Débora recomenda que pessoas sem fatores de risco realizem uma avaliação dermatológica anual. Para pacientes com maior predisposição ao câncer de pele, o intervalo entre as consultas pode ser reduzido para três ou seis meses, dependendo das características individuais e da avaliação médica.

“Todo mundo deveria fazer o acompanhamento anual da sua pele. Mas existem grupos, principalmente aqueles que têm uma chance maior de desenvolver câncer de pele, que precisam de um acompanhamento mais próximo”, orienta.

A médica também observa que a preocupação com a prevenção tem alcançado diferentes faixas etárias, incluindo crianças, que podem receber uma avaliação inicial da pele durante as consultas pediátricas.

Autoexame continua sendo importante


Apesar dos avanços tecnológicos, a observação da própria pele permanece como uma medida importante de prevenção. O hábito de examinar pintas, manchas e outras alterações ajuda o paciente a reconhecer mudanças e procurar atendimento médico quando necessário.

Para áreas de difícil visualização, como as costas, a dermatologista recomenda contar com a ajuda de outra pessoa. O autoexame, entretanto, não substitui a avaliação profissional nem os exames complementares quando indicados.

“O autoexame faz com que o paciente tenha o hábito de se olhar ou de pedir para o companheiro olhar. Isso contribui para um diagnóstico muito mais precoce”, explica.

A especialista destaca que o acompanhamento médico, a observação cotidiana e os cuidados de proteção da pele devem funcionar de maneira complementar.

Falta de informação ainda dificulta a prevenção


Apesar do aumento da procura por avaliações preventivas, Débora avalia que a dermatologia ainda não recebe a mesma atenção dedicada a outras especialidades quando o assunto é prevenção.

Na percepção da médica, a falta de conhecimento sobre os benefícios de uma consulta dermatológica periódica é um dos principais obstáculos. Muitas pessoas ainda associam o atendimento exclusivamente ao tratamento de doenças já instaladas ou a procedimentos estéticos.

A especialista considera que ampliar o acesso à informação pode ajudar a modificar esse comportamento, especialmente em regiões como o Sul do Brasil, onde há uma parcela significativa da população com características de pele associadas a maior sensibilidade à radiação solar.

Além da identificação precoce de doenças, o acompanhamento permite orientar os pacientes sobre hábitos de cuidado, escolha de produtos adequados e medidas de proteção solar. A avaliação também pode evitar intervenções desnecessárias em lesões benignas, quando o acompanhamento clínico é suficiente.

“Eu acho que falta conhecimento, saber dessa oportunidade e de todos os benefícios que ela pode trazer. O dermatologista vai orientar o que você deve fazer, qual é o melhor filtro solar, o melhor sabonete e a melhor forma de cuidar da sua pele”, conclui.

Sobre a especialista

Débora Cadore é médica dermatologista, CEO e diretora técnica da Cadore Clínica Dermatológica, em Florianópolis (SC). Graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), possui especialização em Dermatologia pela Santa Casa de São Paulo e em Oncologia Cutânea pelo A.C.Camargo Cancer Center. Realizou aperfeiçoamentos internacionais em dermatoscopia digital, microscopia confocal, cabelos e unhas em instituições da Itália e dos Estados Unidos. É membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e atua como preceptora da residência médica em dermatologia no Ambulatório de Cabelos e Unhas da UFSC.



Fonte ==> Semanario-SC

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