A democracia da repulsa é doente e produz políticos fracos – 05/10/2026 – João Pereira Coutinho

Demônio sentado em um trono segurando tridente com auréola flutuando sobre seus chifres de bode. A imagem se repete invertida verticalmente, como carta de baralho

Todos odeiam o adversário. Poucos amam seu candidato.

Assim está o Brasil, incapaz de encontrar uma terceira via para sossegar os espíritos. Sociedades polarizadas têm esse preço.

Entretanto existe outro, que pude comprovar em minhas conversas com brasileiros em Portugal. Muitos estariam dispostos a quebrar certas regras para impedir que o adversário chegue ao poder. Regras? A própria ideia é bizantina. Guerra é guerra.

Eis a democracia da repulsa, que está longe de ser exclusividade brasileira e que tem fascinado os cientistas políticos que estudam a polarização. Nas democracias saudáveis, queremos que nosso candidato vença por seus méritos —e que o adversário perca por seus deméritos.

Não é assim nas democracias doentes. Aqui, a derrota do inimigo é mais importante que a qualidade do candidato que apoio. Aliás, meu candidato pode ser mediano, medíocre ou potencialmente autoritário. Que importa? A alternativa é o demônio.

Como lembra Milan Svolik, um especialista em autoritarismo, quanto mais dividida está uma sociedade, mais custa mudar de lado; e quanto mais custa mudar de lado, mais dispostos estamos a fechar os olhos para os abusos do nosso lado.

As consequências dessa cegueira autoinfligida oscilam entre o indigesto e o catastrófico.

Podem ser indigestas quando esvaziam o centro moderado e impedem a renovação do próprio sistema político e partidário. No monopólio dos extremos, a racionalidade não tem vez.

Além disso, quando os eleitores se acomodam ao “mal menor”, continuam elegendo um mal —políticos fracos, sem programa e sem responsabilização, que se limitaram a ser a negação do outro. O país inteiro paga a conta.

A catástrofe acontece quando a democracia da repulsa não poupa as instituições supostamente neutras. Cedo ou tarde, tribunais, justiça eleitoral, mídia ou institutos de pesquisa são sugados pelo mesmo vórtice.

Sem falar no óbvio: quando damos carta branca ao nosso candidato para esmagar a oposição, duas coisas podem acontecer.

Em caso de derrota, a recusa fatal em aceitar o resultado da eleição. Em caso de vitória, uma escalada autoritária sempre com a mesma justificativa: ou eu, ou o caos.

Não houve autocrata eleito na história moderna que não tenha legitimado seus abusos com esse expediente. No fundo, o mesmo expediente que presidiu à sua eleição.

Quando os eleitores de um país aceitam a lógica da repulsa, aceitam a lógica da guerra. E, nesse quesito, o clichê é verdadeiro: sabemos como as guerras começam, mas nunca como acabam.

2.

A democracia da repulsa tem outra consequência: depois de algum tempo, já nem precisamos ouvir o adversário. Sabemos de antemão o que ele pensa. Ou julgamos saber.

Exemplo: Israel também vai às urnas em outubro —e, segundo as pesquisas, a maioria dos israelenses acredita que os palestinos não querem a paz, muito menos negociações com a “entidade sionista”.

Ironicamente, os palestinos dizem o contrário. Três responsáveis pelo Arab Barometer —um dos principais institutos de pesquisas no mundo árabe— publicaram na Foreign Affairs alguns números surpreendentes que desmentem os radicais de ambos os lados.

Comecemos pelo básico. Em que ponto está a velha ideia dos dois Estados?

Morta e enterrada, dirão os apressados. Viva e ativa, na imaginação dos palestinos. Em Gaza e na Cisjordânia, o apoio cresceu quando comparado ao barômetro de 2023. É hoje majoritário.

A defesa de um único Estado “binacional” —um eufemismo para um Estado árabe do mar Mediterrâneo ao rio Jordão, muito apreciado pela “intelligentsia” ocidental— está reduzida ao mínimo (7% na Cisjordânia, 5% em Gaza). A opção pela luta armada também caiu na Cisjordânia —e caiu muitíssimo em Gaza, depois da destruição dos últimos anos. Hoje é minoritária.

Pormenores relevantes: o apoio à solução dos dois Estados e o abandono da violência são especialmente fortes entre os palestinos com menos de 30 anos.

Más notícias para quem, em Israel, jura que não há parceiro para a paz. Há, e até responde a pesquisas.

E os supostos representantes? Hamas e Fatah saem mal na foto. Em hipotéticas eleições legislativas, a maioria se abstém ou recusa qualquer um dos dois: só 19% apoiam o Hamas; só 16% o Fatah.

Se tivesse de apostar, diria que essa revelação seria um choque para muitos departamentos de “ciências sociais” na Europa ou nos Estados Unidos. É a diferença entre quem vive na pele o conflito —e quem sinaliza sua virtude à distância.

Por último, os palestinos em Gaza querem ficar no território e, para a fase transitória, a opção mais escolhida é o governo tecnocrático proposto por Donald Trump.

Moral da história?

Amigos e inimigos gostam de falar em nome dos palestinos. Entende-se: quando os palestinos falam, só atrapalham.



Fonte ==> Folha SP

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