Como transformei quilômetros de corrida em uma empresa de R$ 1 milhão

Fundadora da Peak Beauty, Adriana Gomide conta como a experiência como ultramaratonista ajudou a identificar um mercado ainda pouco explorado no Brasil e transformar problemas vividos por quem corre em uma oportunidade de negócio.

Já passei 27 horas correndo.

Foram 108 quilômetros em uma única prova, tempo suficiente para descobrir que, em uma ultramaratona, os grandes desafios nem sempre são aqueles que imaginamos antes da largada.

Depois de muitas horas em movimento, pequenos incômodos ganham outra dimensão. O suor, o atrito, o calor, a exposição ao sol. Aquilo que funciona perfeitamente na rotina nem sempre responde da mesma maneira quando o corpo permanece horas em atividade.

Durante muito tempo, lidei com isso como praticamente todo corredor amador: improvisando.

Até começar a fazer outra pergunta: por que tantos problemas recorrentes de quem pratica esporte ainda eram tratados como algo que simplesmente fazia parte da corrida?

Foi dessa pergunta que nasceu uma empresa.

Quando um problema pessoal começa a parecer mercado

Antes de empreender, fui nutricionista esportiva. A corrida já fazia parte da minha vida e, ao longo dos anos, vieram treinos, provas, maratonas e ultramaratonas.

Eu conhecia aqueles problemas porque os vivia.

Mas experiência pessoal não é mercado.

Era preciso descobrir se outras pessoas enfrentavam os mesmos incômodos, com que frequência e se buscavam soluções melhores para eles.

A resposta começou a aparecer nas conversas com outros corredores. Suor, atrito, assaduras, proteção solar, cabelo e produtos que não performavam bem nas condições do esporte surgiam repetidamente.

Não era uma necessidade criada por uma campanha de marketing. Eram problemas que já existiam e para os quais muita gente havia aprendido a improvisar.

Foi dessa observação que nasceu a Peak Beauty, empresa brasileira de cosméticos esportivos criada para desenvolver produtos pensados para as condições enfrentadas por corpos em movimento.

A ideia parecia simples.

Construir uma empresa a partir dela não foi.

A distância entre uma boa ideia e uma empresa

Desenvolver produtos foi apenas uma parte do processo.

Precisei aprender sobre fornecedores, embalagens, produção, estoque, registros, precificação, margem, logística, marketing, vendas e aquisição de clientes.

Em outras palavras, precisei aprender uma nova profissão enquanto já a exercia.

Ao longo desse processo, investi mais de R$ 250 mil na construção da empresa.

E talvez esse número revele uma parte pouco mostrada do empreendedorismo.

Antes do crescimento, alguém precisa investir quando o resultado ainda é apenas uma hipótese. Antes do reconhecimento, existem testes. Antes da escala, existem erros, correções e decisões tomadas sem todas as respostas.

Foi também quando percebi que não bastava lançar produtos. Estávamos entrando em um mercado que ainda precisava explicar por que determinados problemas mereciam soluções específicas.

Quem corre submete o corpo a uma combinação particular de suor, calor, exposição solar, movimento repetitivo e atrito. Nosso caminho foi partir desses problemas para pensar os produtos, e não pegar cosméticos convencionais e simplesmente associá-los ao esporte.

Foi aí que entendi algo que se tornou central na construção da Peak:

muitas vezes, o primeiro concorrente de uma nova categoria não é outra empresa. É o improviso.

O que uma planilha não conta

Mesmo com o crescimento das vendas digitais, faço questão de continuar nos eventos esportivos.

Eu mesma fico no estande, atendo e converso com corredores.

Ali aparecem informações que dificilmente chegam prontas em um relatório.

A pessoa que pergunta imediatamente se um produto aguenta suor está revelando uma preocupação. Quem conta que já tentou diferentes soluções e nenhuma funcionou está mostrando uma oportunidade. Quem volta em outro evento para comprar novamente está dando uma informação ainda mais valiosa.

Essas conversas se transformaram em uma espécie de pesquisa de mercado permanente.

Não substituem dados, métricas ou testes técnicos. Mas ajudam a responder uma pergunta fundamental para qualquer empresa: estamos resolvendo um problema que realmente importa para alguém?

Estar dentro da própria comunidade também mudou minha relação com o consumidor.

Eu não preciso imaginar como é terminar uma prova debaixo de sol, passar horas suando ou descobrir um atrito quando ainda faltam muitos quilômetros.

Eu também estou lá.

De uma dor individual para um negócio

Talvez uma das maiores viradas tenha acontecido quando percebi que aqueles problemas já não pertenciam apenas à minha experiência.

Quando muitas pessoas reconhecem uma mesma dor, existe uma necessidade.

Quando estão dispostas a pagar para resolvê-la, começa a existir um mercado.

Quando compram novamente, indicam e passam a associar uma empresa àquela solução, começa a existir uma marca.

Parece simples quando escrito assim.

Na prática, essa construção acontece cliente por cliente, produto por produto e decisão por decisão.

É muito parecido com aquilo que aprendi correndo longas distâncias.

Quando alguém vê uma ultramaratonista cruzando a linha de chegada, vê alguns segundos.

Não vê os meses de treinamento. Não vê o quilômetro em que o planejamento precisou mudar. Não vê os problemas resolvidos no caminho nem os milhares de passos que vieram antes daquela fotografia.

Com empresas acontece algo parecido.

Quando aparecem os resultados, é fácil imaginar uma trajetória linear.

Raramente é.

Hoje percebo que a corrida não me deu apenas a ideia para criar um negócio.

Ela me colocou perto o suficiente de um problema para enxergá-lo primeiro como consumidora e, depois, como empreendedora.

Transformar quilômetros em uma empresa não aconteceu em uma grande decisão.

Aconteceu em centenas de pequenas decisões tomadas ao longo do caminho.

Talvez seja justamente essa a parte mais interessante de construir alguma coisa: quando finalmente conseguimos enxergar a distância percorrida, quase tudo que realmente importou aconteceu nos quilômetros que ninguém viu.

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