CREA-SC: Martha Gabriel destaca a integração entre inteligência humana e tecnologia no futuro dos negócios

CREA-SC: Martha Gabriel destaca a integração entre inteligência humana e tecnologia no futuro dos negócios

Editado por: Jornalista Diego Oliveira

Colaborador: Henrique Nunes

Gestão de imagens: Paula Moreira

Referência em inovação, tecnologia e transformação digital, Martha Gabriel ministrou, na noite desta terça-feira (13/10), a palestra magna de abertura da 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), realizada até a próxima sexta-feira, no Centro de Convenções AM Malls, em Aracaju. Ao abordar as habilidades, as possibilidades e os limites da convivência entre seres humanos e inteligência artificial, a palestrante concluiu sua apresentação com uma afirmação que, embora pareça evidente, foi construída a partir de uma série de reflexões: “O futuro é um híbrido de humanos e de tecnologias”. Para ela, esse cenário depende de conhecimentos, habilidades e atitudes.

Antes de chegar a essa conclusão, a futurista, formada em engenharia civil e com especializações em diferentes áreas, incluindo futurismo, destacou que a complexidade do mundo atual exige capacidade de adaptação e aprendizado contínuo. Com uma trajetória que passa pela Unicamp e pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Martha afirmou que “a humanidade adota a automação desde sempre. A tecnologia não tira a relevância de ninguém, e sim a falta de adaptabilidade”.

Na avaliação da especialista, a inteligência humana precisa ser valorizada por características como a capacidade de desenvolver múltiplas habilidades simultaneamente, autonomia, compreensão de ambiguidades, pensamento crítico e emoção. Ela também observou que muitas escolas têm manifestado interesse em promover aulas sem tecnologia e apresentou pesquisas comparativas entre usuários frequentes e menos frequentes de inteligência artificial. Sua orientação foi direta: “Pensar primeiro, IA depois”.

Martha defendeu que aspectos como riscos, reversibilidade, incertezas, autonomia, impacto humano e dependência sejam analisados com mais profundidade antes de se considerar apenas os benefícios proporcionados pela inteligência artificial. “O pensamento crítico é o mantra”, afirmou ao final da apresentação.

A declaração contrasta com o cenário apresentado por ela durante a Soea realizada em Goiânia, em 2021, quando o foco estava na aceleração digital, na agilidade e na implementação de sistemas ágeis pelas organizações.

Ao mencionar seu livro mais recente, A (R)evolução das Habilidades para o Futuro do Trabalho na Era da Inteligência Artificial, semifinalista do Prêmio Jabuti deste ano, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, a autora best-seller ressaltou a importância de saber formular perguntas. Para ela, essa capacidade está relacionada ao chamado ceticismo amável, que consiste em buscar compreender em que pontos o próprio pensamento pode estar equivocado.

Outros elementos essenciais são a superação dos vieses cognitivos, estimulada pelo convívio com pessoas diferentes, e o desenvolvimento conjunto da lógica, da argumentação e da retórica. Martha também destacou a importância de manter um repertório próprio, mesmo diante da facilidade de acesso a informações por meio da inteligência artificial, além de preservar valores e atitudes morais e éticas.

Antecipar é preciso

A relação entre seres humanos e máquinas revela-se cada vez mais complexa, reunindo aspectos objetivos e subjetivos. Com sua experiência no campo do futurismo, cuja principal referência nos anos 1970 era Alvin Toffler, Martha Gabriel destacou as vantagens de antecipar cenários e tendências, inclusive com o apoio das tecnologias.

“Fomos educados para reagir, e não para antecipar. Nosso biológico não enxerga a mudança. Nosso cérebro não tem a velocidade da máquina. Só reagindo, continuamos fazendo muito bem o que não precisa ser feito. Se for possível automatizar, automatizo e vou fazer o que a máquina não faz. Para navegar o futuro, usamos instrumentos, como a inteligência artificial. Se tem uma tecnologia que nos ajuda a resolver problemas complexos é a IA”, afirmou.

Para acompanhar as tendências e compreender as transformações em curso, a especialista defendeu a importância do letramento de futuros e do estudo do futurismo.

“Temos que olhar para a tendência, mas precisamos navegar as pendências. Pé na pendência, cabeça na tendência”, explicou. Segundo ela, a construção de cenários permite visualizar diferentes possibilidades de futuro, preparar-se para mudanças, ampliar a capacidade de análise e evitar problemas. Enquanto os cenários negativos ajudam a identificar o que deve ser evitado, os positivos contribuem para apontar caminhos e oportunidades.

Essa abordagem também permite superar o pensamento de curto prazo. “Os dados mudam. Eu preciso me antecipar ao que vai acontecer para tomar decisões de longo prazo, outra vantagem do futurismo. Temos possibilidades de futuro, certezas relativas. Se não souber para onde estou indo, tenho menos possibilidades de sucessos. Preciso de pensamento estratégico de futuros para mitigar riscos”, afirmou a especialista, que orienta formações empresariais em todo o país e atua com inteligência artificial desde 2017.

Identificar os sinais de mudança

Na avaliação de Martha Gabriel, ser ágil já não é suficiente se as decisões não estiverem direcionadas ao caminho correto. É necessário identificar sinais de mudança e compreender os movimentos que podem transformar a sociedade e os negócios.

“Precisamos identificar sinais de mudanças. Não é adivinhação, é método. No presente, identificamos sinais de mudança. É aquele fato que dá um frio na barriga. Ela te mostra que o mundo pode mudar naquela direção. Podemos identificar os futuros possíveis e nos prepararmos. Temos que olhar para onde a bola está indo”, afirmou.

Durante a palestra, ela apresentou exemplos de avanços tecnológicos recentes e de previsões anunciadas há décadas. Também chamou a atenção para a transformação na comunicação entre pessoas e máquinas. “Até poucos anos, falávamos a linguagem da máquina. Agora, ela fala a nossa linguagem, o nosso sistema operacional. Quem domina a linguagem domina o nosso sistema operacional”, observou.

Aspectos sociais e humanos superam os econômicos para a convivência entre humanos e máquinas, na visão de mundo da pesquisadora

A especialista questionou a possibilidade de retirar o ser humano do processo de ensinar e orientar a própria humanidade, alertando para o risco de uma atuação restrita aos aspectos técnicos. Ao comentar o receio de substituição profissional pela inteligência artificial, destacou que as novas tecnologias também podem ampliar as capacidades humanas.

“Todos estão com medo de ser substituídos. Temos jogado melhor porque agora temos jogadas de xadrez que nunca vimos na vida”, acrescentou. Em seguida, propôs uma reflexão sobre o papel das pessoas diante dos avanços tecnológicos: “Nosso desespero tem que ser: o que eu não consigo fazer, se a máquina não conseguir fazer mais?”.

Martha também ressaltou que os robôs já desempenham funções ativas e estratégicas, ocupando posições cada vez mais relevantes na sociedade. Para ela, o futuro será marcado pela presença crescente de seres digitais e por uma expansão acelerada das habilidades e dos conhecimentos disponíveis.

“Vamos começar a ver uma ascensão de seres digitais junto com a gente. Uma hiperinflação de habilidades e conhecimento. Preciso de quem tem habilidades para usar esse conhecimento, numa reconfiguração total do trabalho entre humanos e máquinas”, afirmou.

A palestrante lembrou que, antes da inteligência artificial generativa, produzir conteúdo para redes sociais exigia investimentos elevados. Agora, segundo ela, o desafio não está apenas na produção, mas também na validação das informações, na compreensão dos conteúdos e na autenticidade.

“Fomos educados para executar, não para discernir. Qualquer competência tem três pilares: conhecimento, habilidade e atitude. Hoje temos acesso a conhecimentos de qualquer área, mas saber usar o conhecimento requer atitude”, destacou.

Novos modelos para os negócios

Os eixos de transformação, os sinais de mudança e seus impactos serão determinantes para o futuro dos negócios. Entre os fatores essenciais, Martha Gabriel destacou a confiança, especialmente diante dos desafios relacionados à disseminação de notícias falsas (fake news).

“As novas fronteiras trazem eixos emergentes com possibilidades de termos novos modelos. Os negócios do futuro saem de estruturas centradas em lucro, eficiência e controle do passado para ecossistemas inteligentes que evoluem”, afirmou.

Nesse cenário, deverão se beneficiar as organizações e os profissionais capazes de utilizar a inteligência artificial agêntica, tomar decisões em tempo real e aproveitar recursos como automação cognitiva, integração de dados e ecossistemas colaborativos.

Por outro lado, aqueles que não acompanharem essas transformações poderão enfrentar riscos tecnológicos, organizacionais e sociais. A mensagem central da palestra foi a de que o futuro não depende apenas do avanço das máquinas, mas da capacidade humana de desenvolver habilidades, exercer o pensamento crítico, agir com responsabilidade e transformar conhecimento em decisões e resultados.



Fonte ==> Semanario-SC

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