Flávio agora tem tudo para jogar parado – 04/10/2026 – Opinião

À esquerda, homem de barba branca usa chapéu palha e camisa branca, com fundo azul. À direita, homem sorridente veste camisa clara com adesivo de campanha eleitoral número 22, fazendo sinal de paz com a mão.

As eleições de 2026 ganharam características próprias quando comparadas aos dois pleitos anteriores entre o petismo e o bolsonarismo.

Em 2018, com Lula preso, a retórica bolsonarista trazia um tom missionário ao exaltar pautas como o combate à corrupção e a defesa de valores morais e religiosos como prioridades, deixando o petismo, recém-saído da Lava Jato, na defensiva. Em 2022, após sucessivos conflitos do governo Jair Bolsonaro com o STF, que desencadearam o receio de uma ruptura institucional, os petistas investiram na construção de uma frente ampla em defesa da democracia, o que parecia enfraquecer o bolsonarismo enquanto grupo político —sobretudo após o episódio de 8 de janeiro.

A agenda eleitoral de 2026 foi sequestrada por fatores alheios aos comandos das campanhas, como o caso Master, as investigações sobre Lulinha e os escândalos do STF, além de questões pontuais relacionadas à Nossa Senhora e à relação do Brasil com os EUA, entre outras. Nesta disputa, Flávio e Lula não puderam contar com o tema da corrupção para alimentar a guerra entre eles. Ao contrário: passaram mais tempo criando narrativas para se defenderem dos supostos malfeitos que os envolviam diretamente ou que traziam seus familiares para o centro do debate.

Não houve espaço para propostas sobre o futuro do país em relação às políticas públicas e, menos ainda, para discutir as prioridades de governo. Com isso, a decisão do voto neste primeiro turno parece ter se baseado mais em evitar a eleição de um deles do que em escolher pelo mérito de cada um. Entretanto, teremos um segundo turno em 20 dias, período muito curto para levar o eleitor a mudar de posição. Assim, tanto os estrategistas de Flávio Bolsonaro quanto os de Lula terão pouco tempo para buscar novos aliados que possibilitem, no caso do senador, ampliar a votação em 2% a 3% e, no caso do presidente, alcançar ao menos mais 6%. Um caminho é identificar com quem se pode contar, sobretudo nos estados mais populosos.

Nesse caso, Flávio sai em grande vantagem. Não haverá segundo turno para governador em dois dos estados mais populosos: São Paulo e Minas Gerais. Em ambos, aliados do bolsonarismo saíram vitoriosos com votações expressivas e certamente terão disponibilidade para uma forte campanha antipetista.

Todavia, Lula poderá contar com Eduardo Paes no Rio de Janeiro. Antes favorito, Paes chega ao segundo turno em condição de desvantagem e com pouca força para arregimentar votos para o petista. Nos estados do Sul, o pleito também foi resolvido no primeiro turno, com o PT sendo derrotado de forma avassaladora nas disputas para os governos estaduais e o Senado.

Resta a Lula tentar ampliar seu desempenho na Bahia, em Pernambuco, no Piauí e no Ceará, onde, além de ter eleito governadores petistas —exceto em Pernambuco—, também teve senadores aliados eleitos. Entretanto, sem diminuir a diferença no Sul/Sudeste e no Centro-Oeste/Norte, o esforço pode ser em vão.

O que explicaria o baixo desempenho de Lula e a súbita arrancada de Flávio Bolsonaro? Um conjunto de fatos. Primeiro, o caso Lulinha trouxe novamente o tema da corrupção para o governo e o PT e foi um importante elemento de desgaste, explorado de forma intensa pelo principal adversário. Assim, afugentou eleitores que haviam deixado de votar no PT e tinham retomado o voto no partido em 2022.

A recusa em participar do último debate, que parecia ter pouco impacto eleitoral, acabou também sendo intensamente explorada por Flávio no exato momento em que a candidatura de Lula começava a se descolar da de seu adversário no primeiro turno, três dias antes do pleito. Flávio, mesmo tendo seu nome envolvido diretamente no caso Master e vendo circular denúncias sobre sua vida íntima, acabou evitando comentar tais casos e viu seu prestígio eleitoral crescer mais pelo descrédito de seu principal competidor do que por propostas e méritos de sua atividade pública.

Agora resta saber se Flávio participará de debates ou se repetirá o que seu competidor fez quando liderava as pesquisas. Por fim, a sociedade brasileira merece candidatos que tragam propostas para o país, que digam como querem superar os desafios cotidianos da vida pública e que falem de futuro. Até o momento, não houve debate nem apresentação de propostas de maneira que um pudesse se diferenciar do outro.

Ser honesto ou parecer honesto deveria ser uma obrigação e não uma excepcionalidade. Caso não haja debate efetivo de propostas, a tendência é que Flávio seja eleito mais pelo antipetismo já enraizado em diversos grupos sociais do que por seus méritos.


TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.



Fonte ==> Folha SP

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + 4 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.

Últimas Notícias

[the_ad id="48"]