IA coloca decisões humanas no centro dos debates sobre governança no 1º dia de congresso do IBGC

IA coloca decisões humanas no centro dos debates sobre governança no 1º dia de congresso do IBGC

A inteligência artificial deixou de ser uma discussão restrita às áreas de tecnologia e passou a ocupar o centro das decisões de liderança, estratégia e governança das organizações.

Essa foi uma das principais discussões do primeiro dia do congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que reuniu executivos, conselheiros e especialistas para debater os impactos da tecnologia, a pressão sobre as lideranças e os desafios para empresas de diferentes gerações, nesta quarta-feira, dia 7 de outubro.

Na abertura, Antônio Bizzo, presidente do conselho de administração do IBGC, lembrou que o congresso começou em 2000 e, desde então, busca colocar em discussão temas atuais e que geram inquietações para as organizações. Em 2026, a inteligência artificial ganhou protagonismo.

“A IA vem transformando negócios e isso impacta nas lideranças. Discutimos esses desafios e como vai impactar e, além disso, como preservar princípios humanos num mundo tão acelerado”, afirmou.

Ele também citou uma declaração recente de Bill Gates sobre os riscos associados ao uso da inteligência artificial por pessoas mal-intencionadas para reforçar a necessidade de ampliar a discussão sobre responsabilidade e governança da tecnologia.

IBGC anuncia parceria com Google Cloud para aplicação de IA

Para Valéria Café, diretora-geral do IBGC, a capacidade da inteligência artificial de processar e analisar grandes volumes de informações não elimina a responsabilidade humana sobre as decisões.

“Temos a IA para analisar dados, mas quem decide é o humano. Tudo isso testa a capacidade da governança, mas também serve para auxiliar a gestão”, destacou.

Durante a abertura, o IBGC anunciou uma parceria com o Google Cloud para desenvolver uma aplicação de inteligência artificial para o instituto.

“Para atingirmos mais qualidade e segurança nesse contexto, contamos com o Google Cloud como parceiro dessa jornada”, afirmou Valéria.

Eduardo Lopez, presidente do Google Cloud na América Latina, destacou que a capacitação dos executivos será uma das peças importantes para transformar as ferramentas disponíveis em melhores práticas dentro das organizações.

“IA não é mais um assunto só tecnológico, é um processo de transformação nas empresas”, afirmou.

Pensamento crítico ganha importância na era da IA

A relação entre tecnologia e capacidade humana também esteve no centro da palestra da neurocientista cognitiva Heather Collins, responsável por abrir a programação de palestras do primeiro dia.

Para ela, quanto maior a capacidade das máquinas de produzir respostas, maior será a importância de competências humanas relacionadas à análise e à tomada de decisão.

“Pensamento crítico será ainda mais importante na era da IA. A tecnologia pode produzir respostas rapidamente, mas cabe ao ser humano questionar, avaliar pressupostos e decidir se uma resposta realmente faz sentido”, destacou.

Ela chamou atenção ainda para dois possíveis efeitos da utilização da tecnologia sobre a capacidade cognitiva: o que definiu como brain gain e brain drain.

“A tecnologia pode ampliar nossa capacidade cognitiva ou fazer com que terceirizemos tanto o pensamento que nossas próprias capacidades sejam menos exercitadas.”

A discussão reforçou uma das ideias que atravessou diferentes painéis do evento: a IA pode assumir cada vez mais tarefas, mas julgamento, pensamento crítico e responsabilidade permanecem nas mãos das pessoas.

Liderança sob pressão exige capacidade de filtrar decisões

Os desafios humanos também apareceram no painel sobre liderança sob pressão. Ciro Possobom, presidente e CEO da Volkswagen Brasil, destacou que a pressão faz parte da rotina de quem ocupa posições de liderança, principalmente diante de decisões que impactam diretamente as pessoas.

“Sempre há pressão. Mas a maior é a interna, desde fechar um turno, demitir pessoas, enfim, fazer reestruturação. Querendo ou não, no fim do dia, é sobre segurar um pouco e saber filtrar o que será passado para a equipe”, afirmou.

No mesmo painel, Miguel Setas, CEO da Motiva, defendeu que a tecnologia deve ser utilizada para ampliar capacidades humanas e assumir atividades que não precisam continuar sendo executadas por pessoas.

“Trabalhos administrativos passarão para a máquina. E, nesse sentido, as pessoas precisam se adaptar e requalificar. Mas qualquer decisão tecnológica precisa ser centrada no ser humano. O principal é robotizar e automatizar, principalmente, trabalhos que colocam o humano em risco.”

Taís Moriyama acrescentou outra perspectiva à discussão ao questionar não apenas a existência da pressão, mas o propósito por trás dela:

“A questão não é sobre a gente sofrer a pressão, mas o porquê disso. Se você está cansado demais, se pergunte se o que você está fazendo está sendo valoroso.”

Empresas centenárias colocam governança no centro da longevidade

A capacidade de adaptação também apareceu no painel dedicado às empresas centenárias. Lourdes Maria Duarte, presidente da Minancora, marca fundada em Joinville, destacou a transformação da relação entre empresas e consumidores.

“Hoje você conversa com o consumidor e não impõe mais o produto.”

A executiva assumiu a empresa dos avós e atualmente é sua principal acionista. Durante o painel, destacou o processo de reinvenção da companhia, incluindo automação de processos e da produção.

A governança também foi apontada como um dos elementos importantes para sustentar o crescimento do Cornélio Brennand, grupo empresarial com mais de 100 anos, sediado em Recife (PE) e com atuação principalmente em energia renovável, fabricação de vidros planos e desenvolvimento imobiliário.

Bernardo Brennand Campos, acionista do Cornélio Brennand, destacou que a estrutura de conselhos contribuiu para aumentar a disciplina das decisões.

“Hoje temos mais disciplina de investimentos e decisões, muito por conta da concorrência nacional e internacional, mas o Nordeste continua sendo um mercado para ser abraçado. Outro lado bom também é que participando de vários conselhos conseguimos ser ouvidos em vários campos do negócio”, afirmou.

Banco do Brasil já utiliza mais de 2 mil agentes de IA

A escala da inteligência artificial nas grandes organizações apareceu no painel com Taciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil, ao lado de Antônio Bizzo.

“Quando falamos de IA, os desafios são grandes. A questão que fica é: qual o papel do humano nisso?”, questionou o presidente do conselho do IBGC.

No Banco do Brasil, que possui 85 milhões de clientes, pelo menos 35 milhões já interagem exclusivamente pelos canais digitais. Segundo os dados apresentados durante o evento, a instituição conta atualmente com mais de 2 mil agentes de inteligência artificial atuando em diferentes processos.

A adoção mostra como a discussão sobre IA já ultrapassa projetos experimentais e começa a chegar à operação de grandes organizações.

“IA pensa, humano decide”

Encerrando outra discussão sobre decisões digitais e responsabilidade humana, Guilherme Horn, head do WhatsApp no Brasil, definiu a inteligência artificial como uma transformação que ultrapassa o ambiente corporativo.

“A IA é uma revolução civilizatória. Sou otimista nesse assunto, até porque defendo no meu livro que a IA pensa, humano decide. Então o humano vai continuar sendo fundamental.”

Para o executivo, as organizações precisam evitar utilizar as novas ferramentas apenas para reproduzir processos já existentes.

“A IA não é sobre automatizar o passado, mas redesenhar o futuro.”

As discussões do primeiro dia do congresso do IBGC apontaram justamente para essa mudança. À medida que a inteligência artificial assume tarefas, analisa dados e participa de processos corporativos, governança e liderança passam a lidar com uma questão que vai além da adoção tecnológica: definir quais decisões podem ser delegadas às máquinas e quais responsabilidades precisam continuar essencialmente humanas.



Fonte ==> EconomiaSC

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