Um filme coreano conseguiu, em apenas seis meses, levar um terço da Coreia do Sul aos cinemas. Quase 17 milhões de pessoas foram ver “O Guardião do Rei”, que narra a amizade improvável entre um rei deposto e um camponês encarregado de vigiá-lo. Com o número impressionante, o longa se tornou o segundo mais visto na história do cinema do país asiático e a maior bilheteria até hoje.
O blockbuster estreia no Brasil no Koff (Korean Film Festival), mostra gratuita de cinema coreano que percorre o país. Com ingressos esgotados, ele abre a etapa de São Paulo, nesta quinta (1º). O festival segue até o dia 7 na capital paulista.
“O Guardião do Rei” é inspirado num capítulo bem conhecido pelos coreanos, o chamado Gyeyujeongnan. Em 1452, Danjong se tornou o sexto governante da dinastia Joseon (1392-1910), aos 11 anos. No ano seguinte, ele sofreu um golpe e foi destronado pelo tio, o grão-príncipe Suyang, que se tornaria o rei Sejo. O adolescente foi enviado ao exílio num vilarejo remoto nas montanhas e morto aos 16, a mando do tio.
O diretor Jang Hang-jun reimagina a tragédia com ficção, numa produção meio comédia, meio drama, pensada para fazer o público chorar no final.
Heung-do é o líder trapalhão e interesseiro de uma vila pobre isolada no meio das montanhas. Com ciúmes da vila vizinha, que enriqueceu após hospedar um nobre, ele faz de tudo para que Cheongnyeongpo seja escolhida para abrigar outra figura do alto escalão. A hospedagem fica numa península cercada por rios e penhascos, acessível apenas de balsa, funcionando como uma prisão natural.
Ninguém ali sabe que se trata do monarca. Os moradores simples o tratam de forma normal e ficam indignados quando o hóspede recusa as refeições que preparam com tanto esmero. Danjong faz greve de fome para se juntar àqueles que foram mortos por servi-lo. Quando finalmente aceita uma refeição, começa a se abrir à comunidade.
O líder é incumbido de vigiar o jovem e reportar tudo ao palácio. Mas, com o tempo, o coração de Heung-do amolece e ele desenvolve afeto pelo garoto destituído de seu título. Em meio a isso, grupos tentam organizar um contragolpe para restaurar Danjong ao trono.
Não há, no entanto, registros históricos que comprovem a relação pessoal das duas figuras reais. O camponês é vivido por Yoo Hae-jin, ator que participou de outros blockbusters coreanos, como “O Motorista de Taxi” (2017) e “Exhuma” (2024).
Um nome popular entre os fãs de k-pop interpreta o rei: Park Ji-hoon, integrante do grupo Wanna One. Ele também ganhou destaque ao participar de k-dramas como “Classe dos Heróis Fracos”. Sua escalação ajudou a impulsionar o longa nas redes sociais e levou uma geração de jovens ao cinema.
O filme de época estreou em 4 de fevereiro deste ano e, um mês depois, batia 10 milhões de espectadores. É como se 330 mil pessoas fossem ao cinema todos os dias para ver “O Guardião do Rei”. O número chegou a 16 milhões em abril e atingiu o pico, de 16,9 milhões, em julho. A população sul-coreana é de 51,6 milhões.
Em comparação, “Ainda Estou Aqui” (2024), vencedor do Oscar de melhor filme internacional e quinta maior bilheteria nacional, atraiu 5,8 milhões de pessoas em cinco meses em cartaz no Brasil —que tem população de 214 milhões.
Ao considerar a arrecadação, a dramédia histórica se tornou a maior bilheteria do cinema coreano. Foram 163,3 bilhões de wons (aproximadamente R$ 623 milhões) em venda de ingressos.
Também virou um fenômeno cultural e movimentou o turismo de locais ligados ao rei Danjong. Cinco séculos após o caso, milhares de coreanos foram até Yeongwol, onde está seu túmulo real, declarado Patrimônio Mundial da Unesco em 2009, prestar solidariedade.
Em 1698, Danjong foi restaurado postumamente ao trono. O endereço onde passou os últimos dias de vida, Gwanpungheon, também viu um aumento repentino de visitantes. Ele ainda existe em Yeongwol, cercada por edifícios no centro da cidade.
Na mesma província é realizado há 59 edições o Festival Cultural do Rei Danjong, evento que encena um cortejo fúnebre ao jovem, que não teve direito a um funeral oficial. No filme, o líder arriscou a própria vida ao recuperar o corpo de Danjong e sepultá-lo de forma digna.
Por outro lado, páginas na internet relacionadas ao túmulo de Sejo, considerado um eterno traidor, receberam uma onda de insultos.
A Coreia do Sul tem um histórico de filmes nacionais liderando as salas de cinemas, ultrapassando blockbusters hollywoodianos. Tramas que revisitam momentos da história da própria nação se destacam entre eles. Conheça a seguir o top 10, em número de espectadores.
Os 10 filmes mais vistos na Coreia do Sul
- “O Almirante: Correntes Furiosas” (2014) – 17,616.661
- “O Guardião do Rei (2026) – 16,926.333
- “Trabalho Extremo” (2019) – 16,266.641
- “Along with the Gods: The Two Worlds” (2017) – 14,414.658
- “Ode ao Meu Pai” (2014) – 14,265.007
- “Vingadores: Ultimato” (2019) – 13,977.602
- “Frozen 2” (2019) – 13,747.792
- “O Veterano” (2015) – 13,414.484
- “Avatar” (2009) – 13,351.368
- “12.12: O Dia” (2023) – 13,126.578
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Fonte ==> Folha SP