Meu ex-marido vai ser pai e eu me senti trocada outra vez – 27/05/2026 – Amor Crônico

Pai e mãe usam as mãos em volta dos pés de um bebê para fazer um coração

Antes de julgar o incômodo que aparece com a chegada do novo filho de seu ex-marido como amor mal resolvido, inveja ou imaturidade, te convido a acolher os velhos traumas que vêm à tona com o bebê. Certos acontecimentos não criam dores inéditas, reativam dores antigas.

Há ecos de ausência e lutos familiares presentes nesse embrião. Por isso, antes de moralizar o que sente, talvez seja importante olhar com compaixão para seus fantasmas.

Num país marcado por ausências paternas, —dos pais que nunca reconheceram seus filhos aos que mantiveram visitas protocolares quinzenais, sem intimidade real— talvez você seja uma dessas filhas da falta. Filhas que sentiram que, quando o homem se separou da mãe, separou-se delas também. Porque, muitas vezes, a separação conjugal levou também a um distanciamento físico e emocional do pai. E são anos de terapia tentando elaborar a presença dessa ausência.

Ao constituir sua própria família, há um desejo silencioso de reparação: construir para os filhos a experiência emocional que faltou para você. Não apenas ser a mãe amorosa que talvez não teve, mas também construir um lar com um pai afetivamente disponível e presente. Esse era o plano de vocês dois. Essa foi a tentativa.

Até que vocês entenderam que insistir numa relação desgastada só iria criar novos traumas em nome da manutenção do formato antigo. De forma madura, mas não sem dor, comunicaram aos filhos que famílias também podem existir em outros formatos. A casa da mamãe. A do papai. O amor possível dentro da realidade possível.

E, de fato, o novo arranjo trouxe a esperança de uma nova paternidade possivel: Que aquele homem finalmente se implicasse mais na vida das crianças, criasse intimidade, construísse pequenos rituais, hobbies compartilhados. Agora, metade do tempo é só ele e os filhos —um solo fértil para que se implique. Assim, por algum tempo, a dor do fim do casamento convive com a paz de ver os filhos felizes em dois lares mais calmos.

É bonito perceber que o conceito de família não precisa estar restrito à convivência diária. Isso até você imaginar que o pai que faltou no seu cotidiano —e inevitavelmente também falta em parte do cotidiano de seus filhos— talvez agora ocupe, em outra família, a presença que você desejou a vida inteira (como filha e como mãe). Porque uma coisa é aceitar o fim da fantasia da “família feliz pra sempre”. Outra é vê-la acontecendo com outra mulher e outros filhos.

Surge aqui a fantasia: talvez “com esse bebê ele seja o pai que não conseguiu ser aqui”. Afinal, agora ele está mais maduro, mais disponível emocionalmente. Com essa criança, ele talvez jante todos os dias, acompanhe as pequenas histórias da escola, ensine a andar de bicicleta numa terça, leia livros que acalme pesadelos. E é justamente a banalidade dessas cenas que dói.

O medo aqui é que seus filhos revivam a dor que você conheceu tão bem: a sensação de que o amor paterno foi embora para outro lugar. Que sofram não só com a falta do pai na terça à noite, mas com a sensação de perder espaço nessa nova casa que agora se reorganiza em torno do bebê.

Nesse looping fatalista, a chegada da criança fertiliza fantasias das quais você mesma talvez não se orgulhe: a madrasta má, a diferença de tratamento, os presentes desiguais, a nova família perfeita. Surge um misto de proteção, raiva, rivalidade e vigilância permanente.

Acolha todo esse incômodo. Mas, assim como acolhemos o filho assustado depois do pesadelo, lembre-se de que projeções não são profecias. Grande parte do seu sofrimento vem menos pela nova realidade e mais pela velha novela psíquica construída em torno dela.

Ainda que este pai não esteja todos os dias com seus filhos, qualidade de presença e interesse genuíno são vivenciados mais como amor do que a simples contagem de horas sob o mesmo teto.

Digo isso também a partir da minha história. Sou filha de um pai viúvo que trabalhava muito, viajava com frequência numa época em que o cartão postal chegava depois dele. Mas, quando estava com a gente, estava inteiro com curiosidade, escuta e presença. Aprendi cedo que amor se constrói na experiência profunda de se sentir importante para alguém. E também que nos sentimos importantes quando podemos desabar sem medo de parecermos excessivos, ingratos ou inadequados.

Se seus filhos tiverem ciúmes, raiva ou medo, deixe-os sentir. Não diga que é besteira ou que eles precisam amar o novo irmãozinho. Dar nome às emoções difíceis já cria contorno para o que parecia ameaçador demais. Crianças não precisam de pais que eliminem todos os conflitos. Precisam de adultos que consigam sustentar emocionalmente a existência deles.

Que este novo arranjo possa ser mais um convite à vivência de um amor que existe com faltas —na rotina, na exclusividade de atenção, na desigualdade de horas dedicadas. A ausência não é necessariamente abandono. É justamente na morte dos ideais que o amor pode nascer real, com todas suas faltas e ambivalências.

E se você também tem um dilema ou uma dúvida sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta aqui.



Fonte ==> Folha SP

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