Peça ‘O Caso Lorena’ subverte true crime; entenda – 30/06/2026 – Mise-en-scène

Peça 'O Caso Lorena' subverte true crime; entenda - 30/06/2026 - Mise-en-scène

Em julho de 1994, uma mulher chamada Lorena Casales pegou um pedaço de vidro e cortou a garganta de uma desconhecida no meio de uma quermesse na zona norte de São Paulo. Ela confessou o ato, mas guardou o motivo até a morte. A vítima acabou enterrada sem nome. Três décadas depois, esse mistério se transforma no estopim de “O Caso Lorena”, espetáculo em cartaz no Sesc Ipiranga que marca a estreia de Carolina Manica na direção e de Julia Ianina na dramaturgia.

A peça usa o formato do fake true crime para subverter as expectativas do público. Em vez de focar em descobrir quem é o assassino, a história se concentra em decifrar a identidade da vítima e a razão do crime. Esse enigma consome Paula, uma mulher casada que desenvolve uma fixação pelo caso, mergulhando em pesquisas e arquivos antigos até perder as fronteiras da sua própria identidade.

A encenação de Carolina Manica aposta no minimalismo para construir esse suspense psicológico, escalando apenas três atores que se desdobram em cena. A própria dramaturga, Julia Ianina, interpreta Paula com uma contenção verbal que traduz o esgotamento da personagem. Camila Raffanti vive Lorena e a internauta Joana, sugerindo que as duas figuras funcionam como projeções da mente da protagonista. Já Rodrigo Bolzan assume todos os papéis masculinos da trama (o marido, o psiquiatra e o policial), representando as diferentes faces de uma força que tenta catalogar o comportamento humano.

A produção ganha contornos de pesadelo visual através do cenário e figurinos de Kleber Montanheiro, que utiliza apenas preto, branco e cinza para simular a frieza de um arquivo judicial. A iluminação de Gabrielle Souza trabalha com sombras e penumbras, exigindo que a plateia se esforce para acompanhar a ação no palco, enquanto a preparação corporal de Roberto Alencar desenha movimentos tensos.

O clima ganha força com a trilha sonora original executada ao vivo pelo contrabaixista Arthur Decloedt, preenchendo os silêncios das cenas e reagindo em tempo real ao ritmo dos atores. O resultado final é um jogo de espelhos que convida o espectador a questionar a veracidade da memória e os limites das próprias obsessões.

Três perguntas para…

… Carolina Manica

Como surgiu o desejo de estrear na direção encenando justamente essa história e como foi o processo de transição do seu trabalho como atriz para o comando da cena?

Dirigir para mim foi um caminho inevitável. Já vinha procurando uma história que me desafiasse nesse lugar. Idealizo meus projetos desde 2009 e busco histórias que se comunicam com o tempo que vivemos. Como atriz, sempre busco compreender a arquitetura da cena como ponto de partida para a construção da personagem.

Na direção, esse exercício de comunhão com a estética – dramaturgia, cenário, figurino, som – é muito prazeroso. Acredito que a arte precisa se conectar com a subjetividade do outro, criar um ponto de encontro entre o que me afeta e as questões da experiência coletiva. “O Caso Lorena” me tocou nesse lugar coletivo do fascínio que vivemos como sociedade da espetacularização.

O texto me remete ao conceito lacaniano do real porque nos coloca diante daquilo que escapa à explicação racional. Uma dramaturgia que investiga o desejo e a identidade, pois nos desafia a encontrar no outro a justificativa para o ato de um crime. O espetáculo prega “uma peça” quando parte da plateia vai ao teatro tentando associar a um fato verídico, mesmo que tudo seja ficção.

Esse seria o caminho mais satisfatório para a inquietação que a história provoca, pois é natural buscarmos respostas rápidas. Fico feliz quando vejo o público mergulhar na encenação e se entregar ao fato de que as ações humanas não são explicáveis por uma cadeia racional de motivos, mas emergem justamente onde o simbólico fracassa.

A peça lida de forma bem evidente com a projeção e o duplo. Como foi o trabalho de direção para que o elenco minimalista desse conta desse jogo de espelhos sem cair em excessos?

A peça trabalha com a ideia do duplo e da projeção não como um efeito psicológico, mas como uma experiência do olhar. Me interessava que o espectador fosse colocado na mesma posição da Paula: alguém que acredita estar olhando para o outro e, aos poucos, percebe que também está sendo olhado.

O crime é apenas o dispositivo que desencadeia esse desmoronamento da imagem de si. Em vez de ilustrar o duplo, procurei criar uma linguagem em que tudo funciona como um mesmo organismo. A coreografia, as repetições, os movimentos circulares, a iluminação, a direção de arte e a música ao vivo não aparecem como linhas independentes, mas como uma única dramaturgia.

A quebra da quarta parede também nasce dessa necessidade. Em vários momentos, o espectador deixa de ser apenas observador e passa a ocupar o lugar desse outro que olha e que também é convocado a se reconhecer na cena. Por isso trabalhei muito a contenção. Quanto menos os atores representassem uma ideia, mais espaço haveria para o público projetar suas próprias imagens.

O objetivo nunca foi ilustrar uma realidade, mas produzir um estado de presença. A peça acontece nesse espaço de relação entre quem está em cena e quem assiste, onde as identidades deixam de ser fixas.

O público é provocado a preencher lacunas e a imaginar o que está no escuro. Qual é o papel que você espera que o espectador assuma diante dessa narrativa?

“O Caso Lorena” não é estruturado como um thriller ou uma investigação policial. Sua lógica é a do sonho – mais especificamente, do pesadelo. Num sonho, não existe continuidade causal, mas associativa. Objetos banais tornam-se carregados de vínculo. O sonho nunca mostra diretamente aquilo que dói; ele desloca.

O escuro não representa apenas a ausência de luz, mas a suspensão da realidade objetiva. Busquei na encenação realizar a estrutura de um pesadelo: não porque abandona a lógica, mas porque substitui a lógica da causa e efeito pela lógica da angústia. As imagens não ilustram uma história; elas são significantes do que é traumático e irrepresentável.

O espectador é levado a experimentar o mesmo que Paula: em vez de resolver um mistério, é convocado a habitar um espaço onde o sentido vacila, as identidades se condensam e o olhar do outro retorna como um espelho. A peça não apenas representa um pesadelo, ela procura traduzir um sonho lúcido reproduzindo formalmente o modo como o inconsciente trabalha.

Sesc Ipiranga – rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, região sul. Sexta e sábado, 20h (exceto 13/6 e 11/7, com sessões às 15h; não haverá sessão em 19/6). Domingo, 18h (exceto 5 e 19/7). Sessões extras: 2, 16 e 23/7, 20h. Sessão com intérprete de Libras: 17/7. Até 26/7. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 18 (credencial plena) em sescsp.org.br



Fonte ==> Folha SP

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