Precisamos olhar para as pessoas ao invés dos celulares, diz livro de Ronaldo Lemos

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Após mais de 25 anos falando sobre tecnologia, o especialista Ronaldo Lemos resolveu trazer a ‘velha humanidade’ para explicar nossa relação atual com dispositivos eletrônicos. Segundo ele, vivemos em um momento em que é preciso resistir às tentações da tecnologia. “Antes, no começo da internet, nós escolhíamos clicar nos links que nos interessavam. Agora o algoritmo é feito para maximizar o tempo de tela e para que fiquemos mais tempo possível naquela plataforma”, disse durante um painel realizado no dia de abertura do Rio Innovation Week, nesta terça-feira (4).

O também professor, apresentador e um dos criadores do Marco Civil da Internet apresenta essa tese em seu novo livro “O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas”.

Durante a exposição, Lemos defendeu que o livro causa reflexões para que as pessoas não se tornem “prisioneiros” da tecnologia. “A gente é anestesiado para fazer isso (mexer no celular). Seu coração está capturado pelos estímulos e fica anestesiado ao ficar 9 horas por dia olhando para esse objeto”, afirmou lembrando uma pesquisa que mostrou a média de uso diária do smartphone pelos brasileiros.

O especialista argumentou que as plataformas estão de olho na nossa atenção porque ela é o nosso bem mais precioso. Ao dedicar atenção e tempo para redes sociais nossa mira está focada para ver anúncios de marcas, por exemplo.
 

“No momento que você larga a tela você se sente péssimo e se questiona o que fez com o próprio tempo. Isso é uma relação do seu coração por estar desperdiçando a sua atenção”, defendeu.

Ronaldo Lemos (Foto: Carlos Palmeira/TecMundo)

Tomar “as rédeas” da própria vida

Lemos lembrou que seu novo livro não é um manifesto contra a tecnologia. Ele ressaltou que a ideia é falar sobre caminhos para se tornar dono novamente das próprias decisões. Na publicação, ele usa a analogia dos líderes espirituais justamente para tratar como a tecnologia não é somente o nosso comportamento. Nessa comparação, o monge representa as relações com as emoções, o faquir com o corpo e o iogue com a mente.

Ele utiliza essas referências citando a capacidade de monges tibetanos ficarem horas e horas seguidas de ponta cabeça ou deitados em camas com pregos.

Durante a palestra, ele brincou que os monges ficariam surpresos com a nossa dedicação de ficar em média 9 horas olhando para a tela do celular.

A conversa com Ronaldo Lemos foi conduzida por Iona Szkurnik, que é CEO e fundadora da Education Journey, uma plataforma de educação corporativa. 

azendo complementos importantes ao debate, ela ressaltou sobre a importância de nos inspirarmos pelos líderes espirituais para direcionar a atenção para as pessoas para as coisas corretas. “Estamos dando tudo de nós para a máquina e não recebemos nada de volta”, pontuou Iona.

Nesse sentido, Lemos disse que o livro é uma anatomia de como resistimos às tentações da tecnologia para voltarmos a falar com as pessoas que amamos e que importam para a gente.

O especialista defendeu que além do olhar individual, precisamos de leis e regulações que imponham limites nas novas tecnologias.

A IA não pode nos ensinar a sentir

A obra “O Monge, o Iogue e o Faquir: Corpo, Coração e Mente no Tempo das Máquinas” trata, como não poderia deixar de ser, sobre a revolução causada pelas inteligências artificiais. De maneira crítica, ele cita os principais riscos da tecnologia.

“O objetivo do livro também é nos preparar para o mundo da IA, já que estou muito preocupado. A IA traz desafios novos e chega em um momento difícil. Ela não chega em um momento em que todo mundo está feliz, descansado, e querendo algo novo. Nós estamos cansados, esgotados e não dando conta do que temos agora, daí temos que lidar com a IA também”, afirmou.

Lemos afirmou que a IA é uma ferramenta muito poderosa e, quando bem usada, pode resolver muitas coisas na vida e no trabalho. Do outro lado, quando mal usada ela tem importantes efeitos negativos.

Ele citou o caso de pessoas que usam IA para bater papo como se fossem um terapeuta, amigo, namorado, namorada. “As relações humanas são cheias de atritos, desencontros, frustrações e a IA não traz nada disso. Não devemos desabafar com a IA. Não vale a pena antropomorfizar a IA”.

Outro problema citado foi delegar processos cognitivos para a IA. Lemos contou que seu livro comenta sobre a diferença entre usar a IA para ajudar a pensar e usar a IA para pensar completamente por você. “A gente quando olha as redes sociais vê dezenas de publicações de textos feitas por IA como se fossem as pessoas que tivessem escrito”, destacou.

Por último, o autor defendeu que precisamos ter um olhar voltado principalmente para as crianças e adolescentes, já que elas cresceram nessa nova realidade dominada pela inteligência artificial.

“O problema não é proliferação das máquinas, mas as pessoas se acostumando desde criança somente o que as máquinas podem dar”, pontuou.
O Rio Innovation Week começou nesta terça-feira no Píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro (RJ). A edição 2026 terá mais de 3 mil palestrantes que falarão sobre assuntos que tangenciam o tema central do evento: “Simbiose: o futuro não acontece isolado”. O evento será realizado até a próxima sexta-feira (7) e o TecMundo estará presente cobrindo os principais painéis sobre tecnologia, inovação e IA.

 



Fonte TecMundo

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