protesto em SC que enfrentou o regime

Novembrada em Florianópolis

Para Wedekin, Novembrada “foi, acima de tudo, um ato de bravura e coragem”Foto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND Mais

“Novembrada”, o nome dado aos confrontos entre o presidente João Figueiredo, os estudantes universitários e parte da população, no dia 30 de novembro de 1979, está inserido no calendário político nacional por vários motivos.

Conheça a história da ‘Novembrada’

Em primeiro lugar, com apenas 11 meses de gestão, o general João Batista Figueiredo, o último presidente militar, viu-se obrigado a sepultar a nova política de comunicação defendida por seu ministro Said Farah: circular pelos pontos mais populares das cidades, tomar um cafezinho e buscar o contato direto com o povo. O slogan era “João, o presidente do povo”.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Segundo, além do protesto contra o regime militar, que se exauria, os três graves eventos registrados na Capital tiveram outra motivação: a ausência do governo federal com obras e serviços há muito tempo reivindicados pelos catarinenses. No caso concreto da visita, a falta de qualquer sinal do Planalto de apoio ao projeto de criação da Sidersul (Usina Siderúrgica Catarinense) no Sul do Estado, grande área produtora de carvão.

Os três momentos críticos tiveram fatos diferentes. Em primeiro lugar, o presidente Figueiredo, xingado pelos estudantes quando estava na sacada do Palácio Cruz e Sousa, decidiu descer, ameaçador: “Xingaram a minha mãe, eu não admito! Vou lá embaixo resolver isso na porrada”.

Em seguida, a decisão do presidente de, mesmo após a confusão na praça, manter a agenda e tomar um café no antigo Ponto Chic.

Por fim, a prisão de cinco estudantes e seu enquadramento na Lei de Segurança Nacional, que provocou um protesto na Catedral Metropolitana que, mesmo vetado pelas autoridades de segurança, contou com a participação de uma multidão, além de parlamentares, advogados, líderes de partidos e instituições da sociedade civil.

Estudantes arrancaram a placa em homenagem a FlorianoFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND MaisEstudantes arrancaram a placa em homenagem a FlorianoFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND Mais

Entenda as causas do protesto

Figueiredo fazia sua primeira visita oficial ao Estado naquele dia, acompanhado de ministros e deputados. O clima, porém, não era tranquilo. O regime militar estava nos estertores, com a sociedade externando descontentamento. Nos supermercados, o povo reagia à elevação do custo de vida. Dias antes da visita, a gasolina ficou 58% mais cara.

Figueiredo – que na semana anterior dissera preferir “o cheiro de cavalo ao cheiro do povo” – enviou uma placa em homenagem a Floriano Peixoto, até hoje rejeitado pela população pelos sangrentos episódios da Revolução Federalista e a chacina de Anhatomirim. A placa foi arrancada da Praça XV por populares.

Também havia contrariedade com um banquete ao presidente para 5.000 pessoas no galpão da Celesc, em Palhoça. Nem mesmo a canção “João da Conciliação”, composta pelo cantor Luiz Henrique, hoje falecido, que tocou nas emissoras de rádio, angariou simpatia pelo general.

Por fim, as autoridades de segurança não previam o descontrole pessoal de Figueiredo e a disposição de enfrentar os manifestantes no braço.

Centro Histórico virou praça de guerra em ato contra a prisão dos estudantesFoto: Divulgação/ND MaisCentro Histórico virou praça de guerra em ato contra a prisão dos estudantesFoto: Divulgação/ND Mais

‘Xingaram minha mãe’

A comitiva presidencial conversava nas sacadas do Palácio Cruz e Sousa. Na calçada em frente, com faixas e cartazes, os estudantes protestavam. Em coro, gritavam “abaixo a ditadura” e “O povo não tem medo, abaixo Figueiredo”. E faziam um convite aos populares “Não fique aí parado, você é explorado!”. Então, elevaram o tom: “Cavalo! Cavalo! Fascista, fascista!”

Figueiredo aceitou o desafio. Na sacada, estendeu a mão e aproximou o polegar do indicador, sinalizando que o grupo era pequeno. O gesto foi entendido como obsceno. A resposta veio na hora: “Um, dois, três/ quatro, cinco mil/ queremos que Figueiredo vá pra puta que o pariu!”

Em depoimento ao jornalista Luiz Gutemberg, 20 anos depois, Jorge Bornhausen lembrou das palavras em tom belicoso do irritadíssimo presidente:

– Bornhausen, você é testemunha para a história! Xingaram minha mãe. Isso eu não admito!

Bornhausen e os seguranças tentaram acalmá-lo, sem êxito. Figueiredo precipitou-se em direção à escada, brabo:

– Vou lá embaixo resolver na porrada!

O governador e o comandante do 5º Distrito Naval, logo atrás, tentaram segurar o general. Nada! Os seguranças, apavorados, também nada puderam fazer. Bornhausen tentou impedi-lo novamente, cancelando o resto do programa e oferecendo o carro oficial para o banquete de Palhoça.

– Não, nada disso. Vamos cumprir o programa – disparou. E foram todos, presidente, governador, ministros, seguranças e assessores, para o segundo e mais grave confronto, no Senadinho do Calçadão.

Sucessão de equívocos desaguou nos atos

A leitura feita nos últimos anos pelos que participaram e analisaram os acontecimentos da Novembrada indica que o governo federal cometeu uma sucessão de equívocos, complementada com iniciativas estaduais. A ausência de obras do governo federal em Santa Catarina, complementada com iniciativas dos que organizaram a recepção, formaram um cenário fértil às manifestações.

Se a Casa Militar da Presidência não tivesse determinado a imediata prisão dos estudantes, o episódio teria se encerrado nas manifestações da Praça XV e do Ponto Chic. Foram as detenções que provocaram o protesto do dia 4 de dezembro, dia em que o Centro Histórico foi transformado numa verdadeira praça de guerra.

O clima já era totalmente desfavorável ao presidente Figueiredo e seu governo porque, dias antes, o ministro da Indústria e Comércio, Camilo Pena, reuniu-se com a bancada federal e despejou um balde de água fria: a Sidersul, aspiração de 20 anos, não sairia.

O próprio governador Bornhausen ressentia-se da falta de apoio do governo central. A construção da BR-282, entre Lages e Florianópolis, espinha dorsal da economia, não saíra do papel. E a BR-406, entre São Joaquim e Tubarão, considerada vital para as duas regiões, foi riscada das prioridades federais.

Um quadro, portanto, muito parecido com os últimos anos, marcados por um clima de medo da população com a ditadura do Judiciário, prisões, asilados políticos, bloqueio de contas bancárias, suspensão de redes sociais e outras arbitrariedades de um lado; e, de outro, promessas federais não cumpridas, como tem enfatizado o governador Jorginho Mello.

E repetiu esta semana a um grupo de prefeitos e empresários, destacando que há Estados do Nordeste que enviam R$ 100 de impostos e recebem R$ 700 de retorno, enquanto Santa Catarina manda R$ 100 e recebe apenas R$ 10.

Figueiredo e Bornhausen (à dir.) na sacada do PalácioFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND MaisFigueiredo e Bornhausen (à dir.) na sacada do PalácioFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND Mais

Absolvição

Os conflitos de Santa Catarina permaneceram na mídia nacional até o dia 17 de fevereiro de 1980, quando a Justiça Militar de Curitiba decidiu absolver os estudantes por três votos a dois.

A defesa dos universitários presos foi feita na 5ª Região Militar pelos advogados Nelson Wedekin, Roberto Motta, Renê Dotti, José Carlos Dias, Heleno Fragoso, Modesto da Silveira e Marcelo Cerqueira.A partir da “Novembrada”, João Figueiredo cancelou visitas aos centros históricos para cafezinho.

E Jorge Bornhausen amargou uma queda de prestígio, exatamente quando celebrava os melhores índices de popularidade, pelas medidas iniciais de apoio aos professores e à educação.

Multidão se aglomerou em protesto contra o regime militar e a presença de João FigueiredoFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND MaisMultidão se aglomerou em protesto contra o regime militar e a presença de João FigueiredoFoto: AGECOM/UFSC/Divulgação/ND Mais

Repercussão nacional da ‘Novembrada’

Todos os jornais de circulação nacional, as redes de rádio e televisão, com sede no Rio de Janeiro e em São Paulo, deram a mais ampla divulgação da chamada “Batalha do Calçadão”, o local onde a altercação foi maior. O ministro Cesar Cals, o orelhudo, recebeu um tapa, outros ministros foram empurrados, e assessores feridos.

As manchetes foram impactantes:

  • Carlos Chagas (Estadão): “Parem para Pensar”
  • Hélio Fernandes (Tribuna): “O Gladiador de Florianópolis”
  • Samuel Wainer (Folha de S. Paulo): “Provocações em Marcha”
  • Alberto Dines: “Briga de Rua”
  • Jornal da República: “As Advertências de Florianópolis”
  • Carlos Eduardo Novaes (JB): “O Coral de Baixo Calão”

Novembrada, quando o povo diz ‘basta!’

Nelson Wedekin, ex-senador e advogado dos estudantes presos

Nos idos de 1979, ao redor da Novembrada, nunca esteve tão claro o impasse entre o velho que insiste em ficar e o novo que pede passagem para se instalar – o regime dava sinais de exaurimento, as forças democráticas flanavam as suas bandeiras cheias de esperança.Um episódio que era para ficar no rodapé da história mudou o curso dos acontecimentos.

O regime militar tinha posto em andamento um plano de tornar o ditador – general João Batista Figueiredo – uma figura popular.Um dos primeiros eventos desse novo personagem, um general meio irascível, da arma da Cavalaria, que se trasmuda em líder popular, foi programado para Florianópolis – recepção triunfal, solenidades e banquetes, povo na rua, e uma suposta aclamação do novo líder.

Deu tudo errado. E quem inverteu toda a programação, todas as expectativas, foram os estudantes da UFSC, com a significativa adesão de populares – era um tempo difícil, inflação, carestia, esgotamento de um modelo, uma ‘malaise’ ampla que não encontrava resposta para as suas aflições.

O fato é que 40 estudantes, se tanto, da Universidade Federal, com uma dose incrível de fé democrática e coragem cívica, quase irresponsabilidade, romperam os limites estritos, e a festança pensada nos mínimos detalhes, com fartos rega-bofes e fogos de artifício, desandou em um protesto histórico: todos os analistas apontam a Novembrada como uma ruptura, um momento de inflexão do regime.

Se uma plêiade de jovens estudantes confronta a força bruta, o ‘establishment’ político e militar dominante, e o regime que, no primeiro momento, assiste a tudo perplexo e impactado; se presidente sai aos tapas com a população irada nas calçadas de Florianópolis, então o tigre, se não era de papel, estava com os dentes podres.Então a Novembrada foi, acima de tudo, um ato de bravura e coragem de Marize, Ligia, Rosângela, Adolfo, Newton, Amilton, Geraldo, para citar apenas os protagonistas presos e processados.

Eles e centenas de manifestantes anônimos da Praça XV, no seu momento mais glorioso, entoaram, sem medo e a plenos pulmões, palavras de ordem da época, pedindo o fim da ditadura, paz, justiça e liberdade. Enfim, foi um daqueles momentos mágicos em que o povo pede a palavra e diz ‘basta!’ a uma conjuntura de mentira e opressão, um brado ensurdecedor em favor dos direitos humanos, das liberdades civis e democráticas.

Para ter ideia da importância da Novembrada em relação à quadra histórica em que ela se inscreve, quando o regime imaginou uma resposta vigorosa pelo atrevimento, processando os estudantes na Lei de Segurança Nacional, a reação da sociedade civil foi constituir a mais formidável bancada de advogados jamais reunida no país: Heleno Fragoso, José Carlos Dias, Mário Simas, Dalmo de Abreu Dallari, Renê Dotti, Marcelo Cerqueira, Modesto da Silveira, Acácio Bernardes.

Esses pró-homens, atores de primeira grandeza no mundo jurídico e nas lutas pela liberdade, grandes brasileiros, um a um, sem exceção, atuaram ‘pro bono’. Cada um deles custaria uma pequena fortuna se fosse para contratá-los para uma causa comum. Como a causa era a liberdade, não cobraram um só centavo, e tinham orgulho do papel que desempenharam. 



Fonte ==> NDMais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 + 5 = ?
Reload

Please enter the characters shown in the CAPTCHA to verify that you are human.