Dificuldade para compreender conversas, aumento do volume da televisão e isolamento social estão entre os sinais que justificam uma avaliação especializada, explica a fonoaudióloga Ariane Bonucci
A perda auditiva não compromete somente a capacidade de perceber sons. Quando não é identificada e tratada, ela pode interferir na comunicação, reduzir o convívio social e aumentar o esforço realizado pelo cérebro para compreender as informações sonoras.
O problema torna-se mais frequente com o avanço da idade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 25% das pessoas com mais de 60 anos convivem com perda auditiva incapacitante. A condição também aparece entre os fatores associados ao aumento do risco de demência, embora isso não signifique que toda pessoa com dificuldade auditiva desenvolverá a doença.
Para Ariane Bonucci, fonoaudióloga, especialista em Audiologia Clínica, mestre em Ciências Médicas e sócia-fundadora do Espaço da Audição, o cuidado com a audição deve integrar as estratégias voltadas a um envelhecimento mais saudável.
A especialista explica que a relação entre audição e saúde cerebral ganhou maior atenção nos últimos anos. A perda auditiva não tratada é considerada um fator de risco modificável, ou seja, uma condição sobre a qual é possível intervir por meio de avaliação, acompanhamento e tratamento adequados.
Cérebro trabalha mais quando o som não chega com clareza
Quando uma pessoa apresenta dificuldade para ouvir, o cérebro precisa dedicar mais recursos para preencher as informações sonoras que não foram percebidas claramente.
Durante uma conversa, por exemplo, o indivíduo pode escutar que alguém está falando, mas não conseguir distinguir todas as palavras. Para acompanhar o diálogo, precisa recorrer ao contexto, à leitura facial e a outras pistas. Esse esforço auditivo constante pode disputar recursos mentais envolvidos em funções como atenção e memória.
Outro impacto importante aparece na vida social. À medida que acompanhar conversas se torna mais cansativo, algumas pessoas passam a evitar encontros familiares, restaurantes, festas, cursos e outras atividades coletivas.
Esse afastamento pode ser interpretado pela família como desinteresse ou mudança de personalidade. Em algumas situações, porém, o comportamento tem origem na dificuldade e no constrangimento de não conseguir compreender o que os outros dizem.
A redução das interações também diminui os estímulos sociais e cognitivos recebidos ao longo do dia. Por isso, cuidar da audição representa uma maneira de ajudar a pessoa a permanecer conectada ao ambiente, às relações e às atividades que fazem parte de sua rotina.
Perda auditiva costuma avançar silenciosamente
A perda auditiva relacionada ao envelhecimento geralmente se desenvolve de forma gradual. Como a mudança acontece aos poucos, o próprio indivíduo pode demorar para perceber o problema.
Muitas vezes, são os familiares que identificam os primeiros sinais. Pedir repetidamente para que uma frase seja dita novamente, aumentar excessivamente o volume da televisão, apresentar dificuldade para conversar ao telefone e não conseguir acompanhar diálogos em grupo são comportamentos que merecem atenção.
A afirmação “eu escuto, mas não entendo” também pode indicar uma alteração auditiva, especialmente quando a dificuldade aparece em ambientes ruidosos ou em situações nas quais várias pessoas falam ao mesmo tempo.
Além desses sinais, sintomas como zumbido, tontura, dor ou sensação de ouvido tampado justificam a procura por avaliação profissional. Mudanças comportamentais, como evitar eventos e demonstrar cansaço durante conversas, também devem ser observadas.
Tratamento auditivo pode ajudar a preservar comunicação e autonomia
Pesquisas vêm investigando de que maneira o tratamento da perda auditiva pode influenciar a saúde cognitiva dos idosos.
O estudo clínico ACHIEVE acompanhou adultos mais velhos com perda auditiva durante três anos. Considerando todos os participantes, a intervenção auditiva não provocou diferença significativa no declínio cognitivo. Entretanto, entre os idosos que já apresentavam maior risco, o tratamento esteve associado a uma redução próxima de 48% na velocidade desse declínio.
O resultado não permite afirmar que aparelhos auditivos previnam a demência em todos os casos. Ele reforça, contudo, a importância de não negligenciar a perda auditiva, sobretudo entre pessoas mais vulneráveis ao declínio cognitivo.
Quando indicados após avaliação profissional, os aparelhos podem melhorar o acesso aos sons e facilitar a comunicação. Isso ajuda o paciente a participar das conversas, manter vínculos sociais e preservar maior independência em suas atividades.
O tratamento também envolve adaptação. Depois de passar muito tempo recebendo informações sonoras de maneira limitada, o cérebro precisa reaprender a lidar com estímulos que antes estavam reduzidos. Por isso, a escolha do dispositivo e o acompanhamento de um profissional são etapas importantes do processo.
Diagnóstico não deve esperar que a dificuldade se agrave
Um erro recorrente é procurar ajuda somente quando a perda auditiva já compromete de maneira significativa a rotina. O diagnóstico precoce permite investigar as causas da alteração, avaliar sua intensidade e definir a conduta mais adequada para cada pessoa.
Quanto mais cedo o problema for reconhecido, maiores serão as possibilidades de preservar a comunicação, a convivência social, a autonomia e a qualidade de vida.
Ariane recomenda que a avaliação auditiva seja incorporada aos cuidados periódicos, especialmente a partir da meia-idade ou quando surgirem sintomas e fatores de risco.
É comum que as pessoas acompanhem regularmente a pressão arterial, o colesterol, o coração e a visão, mas permaneçam muitos anos sem verificar a audição. Essa ausência de acompanhamento contribui para que alterações progressivas sejam descobertas somente em fases mais avançadas.

fonoaudióloga Ariane Bonucci
Cuidados preventivos devem começar antes da terceira idade
A proteção da audição precisa ser construída ao longo de toda a vida. Entre os principais cuidados estão controlar o volume dos fones de ouvido, reduzir o tempo de exposição a sons intensos e utilizar proteção auditiva em ambientes muito ruidosos.
Também não se recomenda introduzir hastes flexíveis ou outros objetos no canal auditivo. Diante de dor, zumbido, tontura, ouvido tampado ou percepção de redução da audição, a orientação é buscar atendimento especializado.
A saúde geral também pode repercutir na audição. Condições como diabetes e hipertensão estão associadas a alterações auditivas, enquanto a prática de atividades físicas e o acompanhamento da saúde cardiovascular contribuem para um envelhecimento mais saudável.
Outro desafio é superar o preconceito relacionado ao uso de aparelhos auditivos. Os modelos atuais estão mais discretos e contam com recursos tecnológicos avançados, mas precisam ser selecionados e ajustados conforme as características e necessidades de cada paciente.
Cuidar da audição na terceira idade significa preservar mais do que a capacidade de escutar. Significa favorecer conversas, relações, participação social, aprendizagem e independência. Para Ariane Bonucci, envelhecer com qualidade também depende da possibilidade de continuar conectado às pessoas e ao mundo por meio dos sons.