Somente Lula, Flávio e Renan Santos possuem militância própria – 25/05/2026 – Encaminhado com Frequência

Três homens aparecem em retratos individuais alinhados horizontalmente. O primeiro, à esquerda, é um homem mais velho com barba branca, usando chapéu branco e camisa branca, com a mão no rosto em gesto pensativo. O segundo, ao centro, é um homem de meia-idade com cabelo curto e escuro, vestindo camisa branca e paletó cinza, olhando para a direita. O terceiro, à direita, é um homem mais jovem com cabelo castanho escuro e barba rala, usando camisa branca, olhando diretamente para a câmera.

Apenas três pré-candidatos à Presidência da República operam com militância digital própria em 2026: Lula, Flávio Bolsonaro e Renan Santos. É o que mostram os dados de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp monitorados em tempo real pela Palver em uma amostra de mensagens entre os dias 6 e 24 de maio. Os outros dois nomes hoje cogitados como alternativas à direita, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, dependem de mobilizações emprestadas ou apostam em modelos políticos tradicionais sem componente digital autônomo. Em um país onde a opinião política se forma cada vez mais pela internet, ter base militante orgânica é variável estratégica de primeira ordem.

A militância do PT precede a era digital e fez com que o partido sobrevivesse a diversas crises, desde o Mensalão, à Lava Jato, ao impeachment de Dilma Rousseff, à prisão de Lula em 2018 e à derrota para Bolsonaro. Isso acontece porque a militância continuou existindo mesmo quando o partido enfrentou seus piores momentos. Mesmo com rejeição estrutural alta no universo do WhatsApp monitorado, com sentimento negativo oscilando em torno de 70% das mensagens, a militância petista segue mobilizada.

Um contraponto evidente da história recente é Ciro Gomes. Teve militância orgânica forte por duas décadas, foi a terceira força mais consistente do Brasil nos últimos ciclos eleitorais. O PDT abrigou Ciro durante esse período, mas racharam quando Lula voltou ao poder em 2022. Sem casa institucional para abrigar a militância, ela se desidratou. Hoje Ciro é figura sem campo, e seu eleitorado se diluiu entre quem voltou ao PT, quem migrou para a direita antipetista e quem desistiu da política. A lição é que militância sem partido é frágil, e, pelo mesmo motivo que o novo trabalhismo perdeu espaço, o PT conseguiu se manter coeso.

O bolsonarismo resolveu o problema de outro jeito. Não tem partido institucional próprio, mas opera o que o filósofo Marcos Nobre, da Unicamp e do Cebrap, chama de partido digital. Nobre descreve o fenômeno como um ecossistema político que não depende de estrutura partidária tradicional. Funciona como um partido sem as obrigações de um partido, e captura a estrutura formal de Valdemar Costa Neto sem precisar negociar cada decisão com ela.

Após o vazamento dos áudios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em 13 de maio, a militância bolsonarista produziu defesa coordenada em quatro linhas narrativas distintas e simultâneas: negação direta, distinção entre financiamento privado e público, vazamento seletivo contra o senador e puxam Lula para dentro do escândalo. Tudo isso sem ordem visível do PL, nas mensagens analisadas nesta semana. A militância de Flávio trata Valdemar e o Centrão como inimigos internos que capturaram a direita autêntica. Aceitam a aliança, mas não gostam dela.

Renan Santos opera de forma distinta. Com partido recém-criado, a Missão, e militância autêntica, embora não hegemônica. Possui identidade própria, vocabulário identificável e propostas concretas. Nos grupos, a base do Renan fala em industrializar o Nordeste, combater as facções, cortar gastos do Judiciário e anexar municípios que não cumprirem metas de desenvolvimento. É uma militância mais jovem e mais aguerrida. Atacada simultaneamente por bolsonaristas, que chamam o MBL de “MBLixo” e “didireita”, e por petistas, que classificam Renan como “ameaça fascista”. Missão e o PT são os únicos partidos com pré-candidaturas hoje na disputa em que partido institucional e militância orgânica coincidem.

Já Romeu Zema é o caso negativo mais claro da quinzena. Vinha em ascensão até 13 de maio, com sentimento positivo em torno de 75% e crescimento sustentado. Postou um vídeo no Instagram naquela tarde atacando Flávio Bolsonaro pelo áudio do Vorcaro. Em 24 horas, o sentimento despencou para mais de 73% negativos. A própria militância bolsonarista, que aplaudia quando Zema atacava o STF, virou-se contra ele, classificando-o como traidor e oportunista.

Sem militância orgânica própria, Zema não conseguiu revidar nem absorver o golpe. Sua percepção positiva era emprestada da base bolsonarista, que via nele um aliado. Já Ronaldo Caiado, que também não possui militância própria, conseguiu evitar o pior quando não realizou um ataque direto a Flávio. E recebeu elogios, aumentando menções positivas, também emprestadas por apoiadores de Flávio Bolsonaro.

Nenhuma força política sobrevive no longo prazo sem militância. Foi a militância que segurou o PT na travessia entre 2016 e 2022. É a militância digital bolsonarista que sustenta Flávio mesmo quando ele enfrenta crises com áudio de Vorcaro, e é a militância nascente do Renan Santos que o faz crescer mesmo sem hegemonia. Em outubro de 2026, vão para as urnas candidaturas que chegam com naturezas diferentes de capital político. A pesquisa eleitoral mede intenção de voto, mas não captura essa assimetria estrutural. Quem tem militância pode perder a eleição e continuar existindo. Quem não tem, perde a eleição e corre o risco de desaparecer.



Fonte ==> Folha SP

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