Trump está passando os EUA para trás – 11/07/2026 – Thomas L. Friedman

Homem de terno azul escuro e gravata azul está parado entre colunas brancas altas, com arbustos verdes ao redor. Ele olha para frente com expressão neutra.

Quando o sol brilhava, e eu passeava

E os campos de trigo ondulavam, e as nuvens de poeira rolavam

Enquanto a neblina se dissipava, uma voz cantava:

Esta terra foi feita para você e para mim.

Woody Guthrie, em “This Land Is Your Land”

Nosso país é construído sobre documentos escritos —a Declaração de Independência, a Constituição e a Carta de Direitos, para citar os mais importantes. Então, para celebrar o 250º aniversário dos Estados Unidos, minha esposa, Ann, organizou um evento especial no Planet Word, o museu imersivo de linguagem que ela fundou em Washington para promover a alfabetização.

O cantor e compositor Nolan Williams Jr. puxou um coro junto com clássicas canções americanas, incluindo, é claro, “This Land Is Your Land”, de Woody Guthrie. Apesar do calor de quase 38°C, uma multidão notavelmente diversa de 300 pessoas lotou o salão principal do museu, e jovens e idosos cantaram juntos com entusiasmo.

Havia tanta alegria e camaradagem no ambiente —e tantos participantes saindo e dizendo uns aos outros o quanto gostariam que o país inteiro pudesse refletir essa mesma harmonia todos os dias. Tantas pessoas perguntaram depois: “Por que não estamos cantando essas músicas juntos no National Mall?”

O que me leva —lamento dizer— a uma variação bem diferente de “This Land Is Your Land” ouvida no National Mall mais tarde naquela noite. Na minha cabeça, era a versão Trump, com letras que diziam: “Esta terra é minha terra, esta terra é minha terra / Da Califórnia à ilha de Nova York / Da minha criptomoeda ao 747 do Qatar / Esta terra pertence a mim e aos meus”.

Uma coisa sobre o presidente Donald Trump: ele é consistente. Ele nunca te surpreende positivamente. Ele nunca esteve remotamente interessado em ser o presidente de todo o povo, apenas de sua base. Ele nunca tenta vencer somando, apenas dividindo —apenas por nós contra eles.

Como meu colega de redação Shawn McCreesh relatou do Mall: “Trump usou o aniversário da nação para espalhar medo sobre os democratas quatro meses antes das eleições de meio de mandato (ele falou muito novamente sobre ‘comunismo’) e exigir que o Congresso aprovasse uma lei que dificultaria o voto“.

Shawn continuou: “O que deveria ser a peça central da celebração do 250º aniversário da nação foi, de certa forma, apenas mais um comício de Trump”.

Neste mesmo 4 de Julho, dois outros colegas de redação, Eric Lipton e David Yaffe-Bellany, relataram que quase “1 milhão de pessoas que compraram a memecoin do presidente Trump perderam dinheiro até o final de junho, de acordo com um relatório da empresa de análise de criptomoedas Nansen. Suas perdas totalizam US$ 3,81 bilhões“.

Meus colegas apontaram que o cálculo veio depois que Trump assinou uma declaração financeira revelando que a mesma aposta em cripto lhe rendeu um pagamento de US$ 636 milhões. No total, seus empreendimentos comerciais lhe renderam pelo menos US$ 2,2 bilhões em 2025.

Esta é uma grande história, e meu instinto me diz que Trump também sente que isso pode ser uma grande história: de como ele passou para trás seus próprios apoiadores!

Desde o início do segundo mandato de Trump, tem sido amplamente noticiado que ele vem explorando a Presidência para ganho financeiro, mas a história precisava de um número real e vítimas reais. Agora tem ambos —US$ 2,2 bilhões em ganhos totais para Trump e pelo menos US$ 3,81 bilhões em perdas para seus investidores.

Isso é um slogan de campanha. Trump sabidamente se gabou de que poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida e seus apoiadores ainda estariam com ele. Eles também continuarão com ele quando ele os lesar?

E, não tenha dúvida, ele estava mirando neles, como o New York Times também relatou: “Três dias antes de sua posse, Trump revelou um segundo investimento da marca Trump —a memecoin $Trump, um tipo de moeda comemorativa com pouco valor prático. ‘É hora de celebrar tudo o que defendemos: VENCER!’, Trump escreveu nas redes sociais. ‘Junte-se à minha comunidade Trump muito especial. PEGUE SEU $TRUMP AGORA!’ Mas isso acabou sendo um mau conselho”.

Trump certamente está apavorado com a possibilidade de os democratas ganharem a Câmara ou o Senado ou ambos e lançarem investigações sobre o quanto ele usou seu cargo, e explorou seus próprios apoiadores, para ganho pessoal grotesco.

Portanto, na minha opinião, os temas certos para os democratas nas midterms são dois: se vencerem, vão expor o quanto Trump tem lesado seus próprios apoiadores; e se vencerem, farão da união do país uma prioridade.

Acredito que a busca pela unidade nacional é a força política mais subestimada no país hoje. Não é por acaso que a CNN relatou no mês passado que “quase metade dos americanos dizem que não se consideram parte de nenhum dos dois principais partidos políticos, o maior nível de independência partidária medido pelas pesquisas da CNN em mais de uma década”.

Tenho certeza de que isso é verdade porque ouvi o melhor analista político que conheço fazer a mesma observação. Seu nome é Barack Obama. O que me leva a uma terceira variação de “This Land Is Your Land”. Foi o discurso de Obama na cerimônia de inauguração de seu Centro Presidencial em Chicago, à qual compareci. Minha passagem favorita de Obama foi esta:

“À medida que os algoritmos continuam nos alimentando com um fluxo constante de distração e indignação, à medida que apenas as vozes mais altas e mais extremas recebem atenção, alimentando nossos preconceitos, apelando para nossos instintos mais básicos e tribais, é tentador ceder ao cinismo e até ao desespero, parar de tentar”, disse o ex-presidente.

“Começamos a pensar que apelos à democracia e à participação cívica são bregas, antiquados, chatos e ingênuos, que a própria ideia de trabalhar em prol do bem comum é uma aposta de otário, e que para ganharmos, alguém tem que perder”, continuou.

“Eu entendo. Não sou imune à raiva ou à dúvida, mas sei disso: quando perdemos a fé uns nos outros, quando paramos de acreditar que votar importa, que a cidadania importa, que nossas vozes coletivas importam, que como tratamos uns aos outros não importa mais, e entregamos nosso poder de decidir nossos próprios futuros, abrimos a porta para os mais implacáveis, ou os mais descuidados, ou os mais temerosos entre nós, que veem alguns grupos e algumas pessoas como mais iguais que outros, e veem o governo como nada mais do que uma forma de dividir os despojos e punir inimigos e manter aqueles que são diferentes em seu lugar.”

O fato é, porém, como Obama disse, “não acredito que essa seja a história da América que prevalece no final. (… ) Continuo convencido de que a esmagadora maioria dos americanos não está procurando raiva e divisão perpétuas. Eles estão procurando justiça e bom senso e respeito mútuo, que no fundo de nosso ser queremos encontrar uma maneira de nos voltarmos uns para os outros novamente, não mais para longe”.

Então, democratas, vocês têm sua missão. É não deixar Trump atraí-los para uma raiva cega e ideias extremistas. Ele se alimenta disso. Apenas foquem em quanto ele tem lesado todos nós enquanto nos divide. E em quanto os democratas pretendem unir o país inteiro.

Porque esta terra foi feita para você, e para mim.



Fonte ==> Folha SP

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