Violência na Colômbia põe em xeque favoritismo da esquerda

Violência na Colômbia põe em xeque favoritismo da esquerda

Mais de 30 atentados em dois dias que deixaram pelo menos 20 mortos. Esse foi o saldo até o momento de uma nova onda de violência que assola a Colômbia a poucos dias das eleições presidenciais.

Além do pânico público, a nova crise de segurança está gerando preocupações de políticos devido a uma possível mudança no jogo político, que atualmente dá vantagem à esquerda no pleito.

Pesquisas eleitorais recentes apontam Iván Cepeda, apoiado pelo atual governante Gustavo Petro e que chegou a se encontrar com o presidente Lula (PT) em março, como favorito nas eleições, seguido por Abelardo de la Espriella e Paloma Valencia, ambos de direita. O termômetro eleitoral indica, até o momento, um segundo turno em que os candidatos terão que forjar alianças para garantir a vitória.

Assim como em outros países da América Latina, a segurança se tornou uma prioridade dos eleitores colombianos antes da votação. Com os recentes ataques violentos ligados a guerrilhas, após o fracassado plano de “paz total” do governo Petro, a direita pode ganhar impulso nesta reta final da disputa eleitoral.

O senador colombiano de esquerda e candidato à presidência, Iván Cepeda, discursa em evento de campanha no Parque Lourdes, em Bogotá. Crédito: EFE/ Carlos Ortega (Foto: EFE/ Carlos Ortega)

A candidata Paloma Valencia, apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, aproveitou o momento de crise para apontar o esquerdista Cepeda como um dos arquitetos da política fracassada do atual governo de buscar um acordo com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Farc. O plano foi vendido no início da presidência de Petro, em 2022, mas não resultou em melhorias na contenção da violência no país.

O pupilo do presidente já sinalizou que pretende manter o programa, enquanto seus adversários conservadores prometeram abandonar o plano e retomar a guerra total contra o crime assim que assumirem o cargo.

María Victoria Llorente, diretora executiva do centro de estudos Fundação Ideias para a Paz, apontou ao jornal The Guardian que o fracasso da iniciativa de Petro, um ex-guerrilheiro, fica evidente com a ajuda dos números, visto que os grupos armados ampliaram sua influência de seis departamentos (equivalentes aos estados) para 13 ou 14 durante o atual governo.

Por sua vez, o candidato da esquerda colombiana conectou os ataques ao que chamou de “extrema-direita”. Em suas redes sociais, Cepeda alegou suspeitas de motivações políticas por trás da escalada de violência para enfraquecer sua candidatura.

Paloma Valencia, candidata do Centro Democrático à presidência da Colômbia, discursa durante lançamento de seu programa de governo, o “Plano 10”, em Bogotá. Crédito: EFE/ Mauricio Dueñas Castañeda (Foto: EFE/ Mauricio Dueñas Castañeda)

Nesse mesmo sentido, o presidente Gustavo Petro afirmou nesta semana que os recentes ataques no sudoeste do país teriam como objetivo sabotar as eleições presidenciais de 31 de maio. “Não me surpreende que grupos em Cauca estejam tentando sabotar as eleições. O que a Junta do Narcotráfico quer? Que a ultradireita governe a Colômbia como no Equador”, disse.

Crise de segurança tende a transferir foco de eleitores para questões de ordem e controle

Uma crise de segurança tem potencial para alterar o eixo da disputa política, mesmo em cenários em que a esquerda aparece como favorita.

“Isso ocorre porque a violência desloca o debate público. Temas como inclusão, desigualdade e reformas estruturais perdem espaço para uma demanda mais imediata por ordem e controle. Quando o eleitorado passa a perceber deterioração da segurança, tende a valorizar propostas de resposta rápida e firme, o que historicamente favorece candidaturas associadas a agendas mais duras no combate ao crime”, explica à Gazeta do Povo o professor de Políticas Públicas do Ibmec de Brasília Eduardo Galvão.

Segundo o analista, a nova onda de violência na Colômbia não significa automaticamente uma mudança do resultado eleitoral, apesar de aumentar a instabilidade do cenário político no país e abrir caminho para um crescimento do apoio à direita.

“Em contextos como o colombiano, em que a segurança é um tema historicamente central, a escalada da violência pode reativar memórias e referências políticas ligadas a períodos de maior controle estatal, favorecendo narrativas de endurecimento”, afirma.

O analista de risco político colombiano Sergio Guzmán destacou à agência Associated Press que os ataques dos últimos dias agravam o “desconforto” do governo com a situação de segurança e ambos os lados tentarão tirar proveito dessa nova onda de violência.

Em sua visão, os apoiadores da atual gestão de esquerda usarão os ataques como uma oportunidade para dizer que é exatamente por isso que a Colômbia precisa chegar a acordos urgentes com os grupos armados, enquanto os críticos defenderão políticas mais agressivas contra o crime.

O internacionalista João Alfredo Lopes Nyegray, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), destaca que a atual crise relembra o eleitor do fracasso da “paz total” de Petro e isso pode quebrar o favoritismo da esquerda porque atinge o legado do governante de esquerda no ponto mais sensível.

“Se a esquerda prometeu pacificação e o eleitor enxerga expansão da violência, a oposição pode transformar a eleição em plebiscito sobre governabilidade”, avalia, acrescentando que o argumento para isso seria o fato de não se tratar mais de inclusão social ou diálogo, mas de saber se o Estado tem controle sobre o próprio território.

Nyegray pontua que ataques próximos à eleição tendem a beneficiar candidaturas que oferecem linguagem de ruptura.

“Em países marcados por violência prolongada, a opinião pública tende a oscilar entre cansaço da guerra e cansaço da impunidade. Quando o segundo sentimento cresce, propostas de linha dura passam a parecer menos radicais e mais necessárias”.



Fonte ==> Gazeta do Povo e Notícias ao Minuto

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